Os escritores sem valor | José A. Fernandes ~ Identidade 85 ::

domingo, março 29, 2020

Os escritores sem valor | José A. Fernandes



Andando por Montevidéu, Uruguai, no começo de 2014, notei que por lá existia uma infinidade de livrarias, nas principais ruas da cidade, especialmente na 18 de Julio, onde se via uma (ou mais) em cada esquina. Daí me peguei perguntando: que valor se dá aos escritores, quando muitas pessoas ainda não entendem o quão trabalhoso é produzir um texto? 

Aliás, me revolta ver que muita gente ainda pensa que escritor não trabalha. Ou ainda o fato de livros que resultaram de pesquisas sérias ficarem mofando em estantes de bibliotecas públicas, porque não tem capas bonitas e o tema "certo"...

Claro que alguns livros, em minha opinião, gastam indevidamente neurônios de leitores, que poderiam pensar em coisas mais úteis. Livros de autoajuda, ou "ajuda alheia", que vendem milhões, que não ajudam em muita coisa quando o assunto é construir um mundo realmente melhor. Claro que os leitores desses livros também tem sua culpa, mas dada sua posição de busca, acabam sendo antes, muitas vezes, prezas de charlatães.

Não penso no valor propriamente econômico dos livros e sim o valor enquanto objeto de conhecimento e construção social. O valor da significância, não apenas no valor prático. 

Mas, o que quero dizer, sobretudo, é que tem uma parcela considerável de pessoas que vêem livros como coisas descartáveis. Basta uma dar vista por alguns lugares dos Estados Unidos, como Nova York, por exemplo, onde se pode achar livros em grande quantidade nas caçambas de lixo. Não é difícil associar isso ao caráter descartável que as coisas assumem num mundo cada vez mais consumista (que parece sem limites, mas onde muita coisa nada mais é que o "mais do mesmo", ou quase isso).

Mas e os autores? Como eles ficam? Se os livros se descartam com facilidade, como então podemos valorizar seus autores?

Não nos damos conta, pelo menos uma parte considerável de nós não dá, que para se produzir um livro de qualidade é preciso um trabalho realmente árduo, resultado de muita pesquisa. Muito do que dizemos nos livros não é pura criação, isso deve ser dito, mas também não poderíamos chamar de "cópia" (o que incorreria em plágio). Talvez eu diria que o que fazemos, aqueles que trabalham com textos, é algo como uma "elaboração processual", que envolve análise, senso crítico e, o que em História é fundamental, fazemos referência. Eu ainda acredito, apesar dos "pós-modernos" dizem o contrário, que há uma soma de conhecimentos.

E olha que nem preciso entrar nos tipos digitais de texto, coisa que vem se juntando ao caráter impresso e seria assunto para outra postagem. Penso aqui apenas nos resultados de trabalhos que ainda são apresentados em formato impresso. Creio que ainda temos e teremos espaço por muito tempo para eles - muita gente ainda prefere ler livros impressos, ao invés de gastar suas vistas em e-books e afins.

Portanto, ao passarem, ainda que não entrem, mas se postando diante de vitrines de alguma livraria física (ou mesmo quando forem comprar pela internet), não vejam apenas mais algumas pilhas de livros em meio a tantas outras, algo como uma pilha de gente "desocupada" materializada em livros escritos por hobbie. Mas procurem, sim, ver um conjunto de prateleiras que, limpando-se os joios, armazenam-se belos e saborosos trigos, que podem ser estocados e consumidos com o tempo, sem que haja carestia do melhor alimento da mente: o LIVRO.



* Imagem do topo: livraria outlet de Montevidéu retirada do blog vivereetecetera.blogspot.com.br/

** Originalmente postado em 26/jan/2014.

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2 comentários:

  1. É isso mesmo, José Antonio. Sua constatação não é errônea. Nós, escritores, temos que lutar muito para não cair em desgraça (baixa autoestima), visto que os livros podem ser tão descartáveis quanto papel de bala. Mas, ainda assim, há aqueles que escrevem porque são possuídos de valores vocacionais superlativos, como é o ofício de escrever. Nossa luta é por formar leitores; é luta para toda a vida.
    Parabéns pelo texto!

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    Respostas
    1. Obrigado pelo comentário Felipe! Salvei seu blog nos favoritos, vou ver com calma depois... abração

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