As mulheres e os negros no universo dos historiadores | José A. Fernandes ~ Identidade 85 ::

segunda-feira, junho 08, 2020

As mulheres e os negros no universo dos historiadores | José A. Fernandes




Que no mundo predomina o masculino e desde muito tempo o elemento branco, não é novidade. Mas o que mais poderíamos dizer sobre isso quando pensamos no universo dos historiadores?

Muitos de vocês já sabem que tenho feito perfis de historiadores no Blog. Procurei começar por alguns nomes mais conhecidos, a fim de criar certa curiosidade em quem fosse ler. Mas, já tendo passado da primeira de dezena de perfis e mesmo planejado os próximos, posso dizer algumas coisas sobre esse mundo dos historiadores, especialmente no que diz respeito a presença de negros e mulheres historiadores.

Quem estuda história das mulheres, o movimento feminista e coisas afins sabe que a luta pela emancipação e empoderamento tem sido feroz. O espaço dado às mulheres nas sociedades ocidentais desde sempre, mas especialmente a partir da Idade Média - para não nos sentirmos tão tão distante -, é na esmagadora maioria das vezes subalterno. São do lar, dos filhos, esposas, submissas - inclusive aos desejos mais íntimos; não são públicas, não tem voz, não podem saber ler e nem escrever. Em muitos momentos quando ousaram sair do ambiente caseiro e "familiar", foram taxadas de bruxas, profanas, imorais (para não usarmos outros termos). 

Mesmo com toda luta que elas vêm travando e das conquistas que vêm conseguindo desde pelo menos o século XIX, as mulheres ainda continuam, em sua maioria, sendo colocadas nas sombras, limitadas a certas funções, recebendo valores inferiores, mesmo que seus esforços sejam superiores. Mas porque estou falando dessas coisas? Exatamente porque isso vem acontecendo também no campo da História, no mundo dos historiadores! 

Não estou falando aqui de professoras. Isso sabemos que vem sendo mais correntes, especialmente nos anos iniciais, desde que surgem as primeiras escolas laicas. O que estamos querendo mostrar é o mundo das pesquisas em arquivos, da escrita da História.

Desde que a História ganhou status de disciplina e - para muitos - de ciência no século XIX, fica claro o domínio masculino. Claro que isso não é exclusividade da História, basta olharmos todas as outras disciplinas humanas ou exatas para percebermos a mínima presença feminina. Mas, já que temos falado de nossa área, procure no século XIX alguma "historiadora de destaque" e não encontrarão nenhuma! Ao entrarmos no século XX, só com muito custo passaremos a encontrar pesquisadoras em História e assim mesmo só depois de meados desse século. Só a partir daí começaram a surgir pensadoras, estudiosas do passado e o que definimos em sentido amplo como "historiadoras".

A mesma coisa acontece quando se trata de personagens negros - e de outras "raças", se pensarmos bem. A superioridade branca não é novidade nenhuma, tendo justificado a escravidão negra por séculos. Da mesma forma justificou a ação imperialista na África, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX, ao expor "a missão europeia de civilizar os bárbaros e incultos". Nesse contexto, temos também diversas manifestações da ciência "dos brancos" no sentido dos "branqueamentos" - como ocorreu no Brasil -, de estudos de eugenia (teoria da seleção de elementos humanos), de "evolução social", da exclusão dos "indesejados" - daí incluindo diversas outras minorias étnicas!

Nesse sentido, é compreensível - mas não justificável - que os negros não tivessem voz no período dominado pela História Metódica ou Positivista. Afinal, os historiadores aí  - brancos - contavam sobre grandes personagens e grandes feitos, sempre brancos, quase sempre europeus!

Há muito custo os negros começariam a ser vistos de forma diferente na história, ainda assim com muitas marcas não apagadas até hoje. Mesmo quando começaram a aparecer na história, em muitos casos os que contavam sobre ele s eram brancos. Há até mesmo a questão das "tutelas", do cuidado em relação aos excluídos, como se eles próprios não pudesse falar de si. Agora, quando se trata de negros historiadores, sua existência não é muito grande e sua visibilidade ainda hoje é muito, mas muito, baixa.

Para ilustrar isso que venho falando, tanto de mulheres como de negros, basta fazer uma busca no Google escrevendo "historiadores famosos". Pronto: ele vai dar uma lista de historiadores que se destacaram nos últimos séculos. Um detalhe, nele vão constar umas duas mulheres e nenhum negro. Acha que é "pira de brasileiro" isso? Então experimente "famous historians", em inglês, ou "historiens célèbres", em francês!



Claro que alguns de vocês talvez objetem dizendo que não se importam com o "famoso", pois conhecem excelentes historiadores negros ou historiadoras, que não aparecem nessas listas. Concordo plenamente! Nas últimas décadas excelentes pesquisadores negros e mulheres vêm surgindo. Mas, precisamos seguir pensando e dialogando: 1.) que espaço têm os negros e as mulheres nesse universo da pesquisa histórica até hoje? 2.) qual a nossa função na valorização desses indivíduos no meio acadêmico? 3.) o que podemos - ou nos cabe ou não - em meio a esse cenário excludente?

Enfim, para concluir - o que já estava concluído desde o início -, percebemos o quanto o mundo ainda é branco, europeu ou norte-americano, ocidental, masculino. Então, para fazer sua parte, promova o diálogo a respeito; observe atentamente; procure entender e contribuir para a mudança!

Livro de um historiador negro:
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Zumbi
Joel Rufino dos Santos
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Assista a um vídeo nosso sobre os negros no Brasil!

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