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segunda-feira, julho 06, 2020

Historiadores em Perfil: Eric Hobsbawm




Ele foi sem dúvida um dos mais importantes historiadores do século XX. Dono de uma produção vasta, densa e meticulosa, dedicada ao capitalismo, às transformações culturais e sociais e à história do marxismo. 

Eric John Ernest Hobsbawm nasceu em 1917, às vésperas do fim da Primeira Guerra. Era filho de pai inglês e mãe austríaca, ambos judeus. Nasceu em Alexandria, no Egito, num tempo em que aquele país estava dominado pelos ingleses, tendo isso - somado à sua filiação paterna - garantido sua nacionalidade britânica. 

A infância passou entre a Áustria e a Alemanha, em tempos difíceis para ambos os países. O primeiro sofrendo o impacto da separação do finado Império Austro-Húngaro e o segundo país, como já sabem, por sua condição de "grande perdedor" e "único culpado" da Grande Guerra. A coisa ficaria ainda mais complicada com a morte do pai em 1929, e sua mãe apenas dois anos depois. Ele e sua irmã foram então adotados pela tia materna, Gretl, e por seu tio paterno, Sydney. Foi com eles que Eric Hobsbawm se mudou para Londres em 1933 - num momento em que o nazismo passava a dominar a Alemanha.

É no novo país que ele começará sua jornada. Em 1936 ele entrou para o King's College, Cambridge, quando também ingressou no Partido Comunista, na forma do "Clube Socialista da universidade". Naquele universo passou a se destacar, tendo se doutorado em História pela Universidade de Cambridge com sua tese sobre a "sociedade fabiana".

Durante a Segunda Guerra, Hobsbawm serviu na Royal Engineers e na Army Educational Corps.

Mas a jornada não foi tranquila. Dada sua ligação com o Partido Comunista, em 1942 a MI5 (serviço de segurança britânico) abriu um arquivo para a vida pessoal de Hobsbawm e esse monitoramento afetaria o progresso de sua carreira por muitos anos. Como exemplo disso, em 1945 ele se candidatou para a BBC (rede de TV pública) para um emprego de tempo integral para fazer transmissões educacionais para ajudar os ex-combatentes a se ajustar à vida civil depois de um longo período nas forças armadas e foi considerado "o candidato mais adequado". Acontece que a candidatura de Hobsbawm foi vetada pelo MI5, que acreditava que ele fosse "inoportunamente" aproveitar para "disseminar a propaganda comunista e recrutar pessoas para o Partido". Outro exemplo de como Eric Hobsbawm foi prejudicado por sua posição política foi que, em 1947, ele passou a lecionar no Birkbeck College, em Londres, de forma "limitada", como reader, mas só foi promovido a professor 13 anos depois, em 1970. Nessa mesma instituição ele se tornaria professor emérito em 1982. Nesse meio tempo, ele foi fellow no King's College, Cambridge, entre 1949 e 1955. Na mesma Cambridge, no entanto, ele teve sua ação lectureship (conferencista) negada por inimigos políticos.



Mas, esses obstáculos não impediram Hobsbawm de se destacar, com sua produção ou com suas ações acadêmicas. Ele ajudou a fundar a revista Past & Present em 1952 - revista que incluía outros importantes historiadores marxistas, tais como E.P. Thompson, Christopher Hill, Rodney Hilton e Dona Torr. Eric Hobsbawm foi professor visitante em Stanford nos anos 1960. Nos anos  1970, ele foi admitido como professor e em 1976 se tornou Fellow da British Academy. Ele foi eleito como Foreign Honorary Member da American Academy of Arts and Sciences em 1971 e como Fellow da Royal Society of Literature em 2006.


Formalmente, Hobsbawm se aposentou da Birkbeck em 1982, se tornando professor emérito em História - em 2002 se tornaria presidente da mesma Birkbeck. Ele seguiu ainda como professor visitante na The New School for Social Research em Manhattan, Nova Iorque, Estados Unidos, entre 1984 e 1997. Ele foi, até sua morte, professor emérito na New School for Social Research in the Political Science Department. 



Ele falava muitas línguas (alemão, francês, espanhol e italiano, fluentemente, além de português e catalão), o que contribuiu para disseminar suas obras mundo afora, além de poder acompanhar de perto diversas traduções de seus textos. Aliás, eis o ponto importante da vida de Eric Hobsbawm: sua produção. Foram inúmeros livros e artigos, publicados e traduzidos. Seu interesse era muito amplo, tendo englobado os mais variados aspectos da história. Houve espaço para cultura, sociedade, para o Jazz, para as Pessoas Extraordinárias

Partindo de sua base, o marxismo, e sempre tendo por perto a "história econômica (dos historiadores)", ele focou nos diversos elementos que levaram à formação do Capitalismo. Fez dos estudos das duas principais revoluções do século XVIII - a francesa e a industrial - uma obsessão. Estudou os efeitos dessas revoluções na consolidação do capitalismo liberal, observou as permanências e mudanças no século XIX, inclusive o uso das tradições por parte das elites, que para ele serviram para legitimar a "Nação" e os "nacionalismos". 



Estudou os impérios e o imperialismo, analisou as Grandes Guerras - inclusive a Grande Crise situada no intervalo entre elas -; atentou para a Guerra Fria e a bipolarização mundial - inclusive para o mundo depois do fim da URSS. Seu passeio pelos séculos de desenvolvimento, afirmação e busca de alternativa ao Capitalismo lhe renderam a quadrilogia A Era das Revoluções, A Era do Capital, Era dos Impérios e Era dos Extremos.

Deu atenção também para Marx, Engels e a história do marxismo, desde o século XIX até o esfacelamento da URSS em 1991. Disso resultou, entre outras coisas, a grande História do Marxismo, composta por 12 volumes, que ele organizou. Nesse sentido, nessa obra e em outras atentou para os revolucionários, os trabalhadores, os movimentos sociais (primitivos e modernos), as revoluções.



Se manteve comunista o quanto pode, tendo com o passar do tempo se desiludido em muitos aspectos e mudando de posição em diversos sentidos. Estudou a globalização, a Nova Ordem Mundial, a democracia (liberal), o terrorismo. Viu nascer o Novo Milênio, procurou falar sobre ele de forma posicionada; manteve alguma esperança em relação ao futuro, embora muita coisa o perturbasse, especialmente as novas formas de se fazer guerra, no "Terceiro Mundo", no Oriente Médio. Nos últimos anos de sua vida seguiu ativo, tendo encontrado tempo para compor uma coleção de conferências e artigos que ganhou o título de Sobre História; e teve tempo de fazer ainda uma autobiografia, ou melhor, falar sobre os Tempos Interessantes (de sua vida). 

Em sua vida acumulou polêmicas e críticas, muitas das quais infundadas - ou fundadas em visões políticas antagônicas. Ainda assim, não se negava a expor o que pensava. Quando perguntado em uma entrevista sobre seu envolvimento com o Partido Comunista e com o comunismo, Hobsbawm respondeu que "independentemente das mudanças que o mundo passou e consequentemente as suas próprias ideias, se via ao final da vida como alguém que teria lutado pela causa dos pobres, pela liberação dos povos dominados pelo imperialismo, pela mudança global necessária para um mundo melhor". 

Como já dissemos, ele buscava ir fundo nos temas que tratava, o que torna sua leitura "difícil" para alguns, especialmente para que está começando. Diríamos, entretanto, que, depois de ler algumas de suas obras, o que se tem com Hobsbawm é um "passeio de erudição". Como também já dissemos, ele se situou entre os principais historiadores do século XX, tendo sido lido e relido em diversos idiomas, tendo influenciado as mais diversas reflexões e pesquisas; tendo sido amplamente premiado pela sua vastíssima obra.

Eric Hobsbawm morreu em Londres, em 1 de outubro de 2012, aos 95 anos de idade.



Agora, caso queira conhecer mais sobre esse autor, existe uma série de entrevistas em inglês, algumas delas com legenda, no YouTube. Há diversas considerações sobre ele em diversos sites, prós e contra - cabendo aí o cuidado com os extremismos de quem pouco leu dele e só faz denegrir. Em termos de literatura, entre outros, há o livro Eric Hobsbawm: A Life in History, de Richard Evans. Outra opção é o volume 3 de Os Historiadores, organizado por Maurício Parada. Em espanhol há o livro Eric Hobsbawm y la historia critica del siglo XX, de Marisa Gallego. Já em inglês, dentre outros, há o livro Hobsbawm: History and Politics, de Gregory Elliott. Um debate interessante, do próprio Hobsbawm com outros autores saiu em A transição do feudalismo para o capitalismo.


Os livros desse autor:

Labour's Turning Point: Extracts from Contemporary Sources (1948)


The Jazz Scene (1959) / edição em português História Social do Jazz


Labouring Men: studies in the history of labour (1964) / edição em português Os Trabalhadores: Estudos Sobre a História do Operariado 

Pre-Capitalist Economic Formations (1965) / edição em português As Origens da Revolução Industrial


Bandits (1969) / edição em português Bandidos 


Revolutionaries: Contemporary Essays (1973) / edição em português Revolucionários: Ensaios Contemporâneos

The Age of Capital: 1848–1875 (1975) / edição em português A Era do Capital

Italian Road to Socialism: An Interview by Eric Hobsbawm with Giorgio Napolitano (1977)


The Age of Empire: 1875–1914 (1987) / edição em português A Era dos Impérios

Politics for a Rational Left: Political Writing, 1977–1988 (1989) / edição em português Estratégias para uma Esquerda Racional

Echoes of the Marseillaise: Two Centuries Look Back on the French Revolution (1990) / edição em português Ecos da Marselhesa: dois séculos reveem a Revolução Francesa 

Nations and Nationalism Since 1780: Programme, Myth, Reality (1991) / edição em português Nações e Nacionalismo desde 1780 


Art and Power: Europe Under the Dictators exhibition catalogue (1995)

On History (1997) / edição em português Sobre História

1968 Magnum Throughout the World (1998)

Behind the Times: Decline and Fall of the Twentieth-Century Avant-Gardes (1998)


Karl Marx and Friedrich Engels, The Communist Manifesto: A Modern Edition (1998)


Interesting Times: A Twentieth-Century life (2002) / edição em português Tempos Interessantes (autobiografia)

Globalisation, Democracy and Terrorism (2007) / edição em português Globalização, Democracia e Terrorismo 






Co-edição ou organização

The Invention of Tradition (1983, em parceria com Terence Ranger) / edição em português A Invenção das Tradições 

The History of Marxism (1982) / edição em português História do Marxismo (12 volumes) 

Livro destaque desse autor:

 livro hobsbawm
A Era dos Extremos
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* originalmente postado em 18/mar./2020

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6 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Uma das mentes mais brilhantes do mundo acadêmico. Sua obra é essencial na construção de um mundo melhor.

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    1. De fato. Era de um fôlego na produção, de uma criatividade como poucos historiadores que conhecemos.

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  3. Esse homem sem sombra de dúvidas veio para marcar gerações. Gerações necessitadas de conhecimento histórico e político cultural. Em 2007, na USF Itatiba,no curso de Letras,tive o primeiro contato com uma de suas obras, "A era dos extremos".A partir de então, muitas dúvidas foram sanadas.

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    1. Muitos diziam na faculdade que ele era "muito difícil". Até concordei um tempo, mas conforme fui lendo, percebi o quão rico era e como ele foi se tornando mais acessível. Eis uma chave da obra dele: conhecimento profundo e acessível.

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