Identidade 85 ::: colono ervateiro
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quinta-feira, maio 14, 2020

Chimarrão - por Glaucus Saraiva




Publicado em 1949, no Jornal do Dia, do Rio Grande do Sul, esse poema perfilha tradicionalismos, pra louvar o chimarrão e a Revolução de 1935 farroupilha.

Amargo doce que eu sorvo
Num beijo em lábios de prata!
Tens o perfume da mata
Molhado pelo sereno,
E a cuia, seio moreno,
Que passa de mão em mão,
Traduz no meu chimarrão
Em sua simplicidade
Da gente do meu rincão!

Trazes à minha lembrança,
Neste teu sabor selvagem,
A mística selvagem,
Do feiticeiro charrua;
O perfil da lança nua
Encravada na coxilha,
Apontando, firme, a trilha
Por onde rolou a história
Empoeirada de glória
Da tradição Farroupilha!

Em teus últimos arrancos,
No ronco do teu findar,
Ouço um potro corcovear
Na imensidão deste Pampa!
Reboando nos confins
A voz febril dos clarins
Repinicando: "Avançar!"
Então me fico a pensar
Apertando o lábio assim
Que o amargo que está no fim,
Que a seiva forte que eu sinto
É o sangue de 35
Que volta verde p'ra mim!!!

Jornal do Dia (RS), 4 de novembro de 1949, p. 5 (disponível no site da Biblioteca Nacional Digital).


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segunda-feira, fevereiro 03, 2020

Em breve versão GRÁTIS do MEU LIVRO! Saiba mais!




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O meu livro está esgotado. Mas, em breve disponibilizarei versão em e-book, gratuitamente pra vocês. Conheça um pouco do livro no vídeo abaixo, compartilhem e aguardem!!!

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terça-feira, dezembro 17, 2019

VÍDEO: Breve História da Erva-Mate - do séc. XIX à década de 1930 | José A. Fernandes




A erva-mate foi muito importante na formação e desenvolvimento inicial de quatro estados brasileiros (Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso), foi um dos oito principais produtos de exportação brasileira e tem voltado nas últimas décadas a gerar interesse na sua produção, industrialização e comércio. 

Por isso fiz esse vídeo, que conta um pouco da história da erva-mate desde o século XIX até a década de 1930, momento em que já se acumulavam diversos problemas que levariam à criação de órgãos de classe e finalmente o Instituto Nacional do Mate em 1938.

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sábado, dezembro 14, 2019

A História da erva-mate em Mato Grosso do Sul



Desde o fim do século XIX a erva-mate foi assumindo papel importante como produto chave da economia do antigo sul de Mato Grosso, quando Tomás Laranjeira conseguiu um arrendamento de terras, criou a Companhia Mate Laranjeira e iniciou a exploração de imensos ervais nativos existentes na região onde surgiria a povoação de Ponta Porã...

A produção de erva-mate semipreparada (cancheada) seguia para Argentina, seu principal mercado consumidor, onde Tomás Laranjeira possuía escritório e beneficiadora para o produto. Ele utilizava milhares de trabalhadores (majoritariamente paraguaios), mantidos em condições de trabalho subumanas. É verdade que realizou grandes investimentos e adquiriu grande poder e prestígio, chegando a ser o maior contribuinte da Fazenda Estadual no início do século XX. Por este motivo tem a presença e atividades dessa grande empresa realçada, possuindo o domínio quase exclusivo sobre a produção e exportação da erva-mate na região.


Mas, apesar de ser o primeiro concessionário legal, ele não era o único, no entanto, é certo que, graças a suas estreitas relações com o poder público, conseguia afastar os concorrentes, uma vez que não possuíam os outros produtores a ‘lei ao seu lado’. Mesmo assim, nesse extremo sul de Mato Grosso, após a Guerra do Paraguai (1864-1870), configurou-se um complexo universo econômico, envolvendo muitos outros atores, incluindo atividades agropecuárias e comerciais, além da extração ervateira. Inúmeros migrantes e imigrantes vieram para a região. E, apesar dos conflitos que sua presença provocou com a Companhia, muitos deles se dedicaram aos trabalhos ervateiros, não sendo desprezível o papel dos produtores independentes.

No século XX, o domínio da Companhia foi diminuindo, especialmente a partir da década de 1930, com as novas políticas desenvolvidas em Mato Grosso pelo governo do presidente Getúlio Vargas e os conflitos relacionados à renovação ou não das concessões de terras à Companhia. Foi quando surgiu o projeto da “Marcha para Oeste”, em 1938, no início do Estado Novo, com as idéias de nacionalização das fronteiras sul-mato-grossenses, especialmente com o Paraguai, adotando o Governo Federal medidas afim de enfraquecer a Companhia. Dentre elas recusou-se a renovar seu contrato de arrendamento, impôs taxas sobre a erva-mate cancheada e apoiou os produtores ervateiros independentes da empresa, com a criação do Instituto Nacional do Mate e de cooperativas de produtores.

Enfim, em 1943, o governo federal criou a Colônia Agrícola Nacional de Dourados (CAND) em plena área antes arrendada a Companhia Mate Laranjeira, onde surgiram as cidades da região de Dourados. O Governo afrontava diretamente a empresa e as velhas oligarquias regionais a ela ligadas. A CAND era um projeto de desenvolvimento do capitalismo no campo, para ocupar os espaços geográficos que acreditavam ser semipovoados, com terras férteis em abundância. Uma vez criada a CAND, começaram a distribuição lotes gratuitos a milhares de colonos, sobretudo nordestinos, além de mineiros, paulistas e tantos outros brasileiros, com recursos mais acessíveis e significativos amparos aos colonos no começo, com casa e ajudas da administração. No entanto, na década de 1950 o número de colonos aumentou de forma descontrolada, a situação saiu muito do controle, o que impediu um melhor atendimento das necessidades de todos.


Com a CAND, as pessoas antes vinculadas à economia ervateira e a Companhia Mate Laranjeira se viram tendo que buscar trabalho nos empreendimentos de colonização. Alguns fixaram residência nas terras da CAND, em Dourados, Campo Grande, Ponta Porã, indo morar em colônias particulares ou mesmo se tornaram empregados de colonos que passaram a produzir erva-mate. O mais importante é notar que essas pessoas tinham conhecimento adquirido da vivência no mundo ervateiro e ficaram disponíveis como mão de obra.

Finalmente, no ano de 1965, a Argentina com o aumento da produção interna e sua auto-suficiência no abastecimento de erva-mate, suspendeu as importações do Brasil, especialmente de Mato Grosso, o que para muitos autores teria sido o fim das atividades ervateiras no estado, tendo em vista que seu consumo interno era ínfimo. De importadora a Argentina passaria a exportar erva-mate, como acontece ainda hoje, competindo inclusive com os estados produtores do Brasil em mercados internacionais.

Sabemos que a atividade de produção ervateira teria persistido na região entre os colonos, ainda durante alguns anos, depois de 1965, e mesmo até os dias atuais em condições diferentes. Sobre isso temos exemplos, como relatos de ex-colonos e parentes destes, e ainda outras fontes. Em nossos dias temos visto muitas fábricas de erva-mate em Dourados e região, que compram matéria prima de outras regiões e da Argentina, que empacotam e vendem o produto. É assim que temos erva-mate para o tereré ou para o chimarrão, mais comum entre os descendentes sulinos.


Assista ao nosso vídeo sobre o Instituto Nacional do Mate:
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Publicado originalmente em gostodeler.com.br / aqui no blog em 28/fev/2011.

** Foto no topo: revista "Raído" - UFGD.

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terça-feira, novembro 26, 2019

VÍDEO: O Instituto Nacional do Mate e a economia ervateira brasileira | José A. Fernandes [minha tese]




Aproveitando que terminei meu doutorado, compartilho com vocês essa palestra de setembro de 2019, parte do CONAMATE, onde falei sobre o tema principal da minha tese: o Instituto Nacional do Mate e a economia ervateira brasileira.


Assista:
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terça-feira, julho 02, 2019

Os trabalhadores do mate: entre imagens reais e ideais | José A. Fernandes



Talvez você já tenha visto alguma propaganda positiva sobre determinado produto, que no fundo não condiz com a realidade dos seus trabalhadores. Esse foi o caso do mate por muito tempo, conforme poderemos observar em duas imagens icônicas nessa postagem.

Pare para observar as duas imagens seguintes: uma da década de 1940, idealizada, perfeitamente harmoniosa e outra, da realidade, nua e crua, de um trabalhador nos ervais do antigo sul de Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul), nas primeiras décadas do século XX.


Essa primeira imagem circulou em algumas edições do jornal O Campo, do Rio de Janeiro, na década de 1940. Trata-se da reprodução de uma tela de grandes proporções de F. Acquarone, pintada sob encomenda do Instituto Nacional do Mate (1938-1967), para decorar seu salão de honra na antiga capital do país.

Essa cena "típica dos ervais", pretendia mostrar a colheita do mate nos estados do sul do Brasil, revestindo-se, segundo a legenda da edição de março de 1943 do jornal mencionado, "às vezes, de aspectos inconfundíveis".



Só pelo fato de ter sido encomendada por uma instituição nacional, que esteve no controle da economia ervateira por 29 anos, já é por demais significativo. Essa autarquia federal sabia das condições reais dos trabalhadores do campo - no caso, os da erva-mate -, mas, como foi praxe durante muito tempo no Brasil, eles não receberam muita atenção dos órgãos federais, ao contrário do que ocorreu com os trabalhadores da cidade. O próprio Instituto do Mate pouco fala dos trabalhadores dos ervais, tratando em seus documentos apenas dos "produtores", que nem sempre eram os que realmente trabalhavam diretamente o mate. 


Mas, passemos para a próxima imagem. Nela se vê um trabalhador (provavelmente paraguaio ou indígena), carregando o famoso raído (fardo enorme de erva-mate) que transportava dos pontos de corte e sapecamento até os chamados barbacuás (onde ela era seca definitivamente). Ele carregava na cabeça, como o nosso modelo da foto, que fez exibição para pessoas importantes que visitavam a fazenda Campanário, sede da famosa Companhia Mate Laranjeira. 

Bom, alguém poderia dizer: "mas a primeira foto era do sul do Brasil, onde os colonos europeus chegaram, construíram de forma mais organizada e onde - também de forma organizada - trabalharam com as suas famílias. Não é a mesma coisa!". 

Devo então ser chato (só um pouco) com meus amigos do sul. É preciso que se saiba que os colonos europeus que chegaram ao Rio Grande do Sul, ao norte de Santa Catarina ou ao Paraná, aprenderam a trabalhar a erva-mate sim, mas logo que podiam contratavam os caboclos, antigos moradores da região, que já conheciam bem a planta, para fazerem o serviço nos ervais. Restava então aos colonos europeus organizar a extração e vender o mate. 

Claro que não foi esse o caso de todos os colonos do sul do país. Muitos deles também embrenharam-se na mata, por entre os pinheiros, correndo os riscos que a "selva trágica" dos ervais ofereciam. 

Mas (e esse é o último "mas"), quando falarmos de realidade dos ervais (incluindo a realidade da produção do nosso querido chá Matte Leão), devemos ter mais em mente a segunda imagem. Assim, faremos melhores honras aos que produziram e ajudaram a engrandecer a história do "ouro verde" do Brasil. 

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* Originalmente postado em 30/jan./2018.

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quarta-feira, maio 30, 2018

VÍDEO: Meu Livro | Erva mate e Frentes Pioneiras [José A Fernandes]



Preparamos um vídeo sobre o nosso livro. Saiba mais sobre ele assistindo!

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quarta-feira, maio 09, 2018

VÍDEO: O Instituto Nacional do Mate e o aproveitamento da erva-mate brasileira [José A Fernandes]


No dia 5 de maio estive apresentado trabalho na Semana Acadêmica de História da FURB, de Blumenau-SC. Quem quiser dar uma olhada, segue o vídeo.

:: Resumo:

A erva-mate foi produto de grande importância na história dos três estados do Sul do Brasil e do antigo sul de Mato Grosso desde meados do século XIX até a década de 1960 do século XX. Nas primeiras décadas desse último século diversos problemas, sobretudo de mercado, de preços e de superprodução atingiam a economia ervateira. Tais problemas motivaram então a criação do Instituto Nacional do Mate (INM) em 1938, no início do Estado Novo de Getúlio Vargas. 

Essa autarquia é o objeto de nossa pesquisa de doutorado em andamento, onde estudamos sua trajetória e suas ações sobre a economia ervateira do Brasil até sua extinção em 1967. 

Nesse sentido, esta nossa apresentação toma um ponto especifico de mesma pesquisa, onde buscamos tratar e analisar as principais formas de aproveitamento da erva-mate que foram incentivadas pelo Instituto. Tomamos em consideração o que já existia em termos de produtos e subprodutos (chimarrão, tereré e, de forma incipiente, o chá) e procuramos entender o que de novo resultou dos estudos e das ações promovidos pelo mesmo durante o tempo em que existiu, seja o aproveitamento das substâncias extraídas (especialmente a cafeína do mate), seja a criação de subprodutos (especialmente o mate solúvel).

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domingo, janeiro 28, 2018

Um poema ao chimarrão - por Glaucus Saraiva




Palmeio o velho porongo
derramo a erva com jeito
encosto a cuia no peito
batendo a erva prá um lado;
com os quatro dedos curvados
formo um topete bem feito.

Com um poquito de água morna
bem devagar despejado,
tenho o amargo ajeitado
que ponho a um canto pra inchar;
e espero a água esquentar
pitando o baio sovado.

A pava chiou no fogo.
Encho a cuia que promete;
a espuma se arremete
bem pra cima, borbulhando,
e acariciante, beijando,
branqueia todo o topete.

Agarro a bomba de prata,
tapo o bocal com o dedão,
calço o bojo bem no chão
da cuia e vou destapando
a bomba que vai chupando
um pouco de chimarrão.

Derramo outro pouco d'água
para aumentar o calor...
e o mate confortador
vou sorvendo em trago largo,
pois me saiu um amargo
despachado e roncador.


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terça-feira, junho 20, 2017

Está à venda o meu livro "Erva-mate e frentes pioneiras"!



É com muita alegria que comunico que está à venda o meu livro "Erva-mate e frentes pioneiras". 

Nele pretendo apresentar aos leitores pontos específicos, a história da erva-mate e os movimentos migratórios para o atual Mato Grosso do Sul, buscando contribuir para o estudo do contexto histórico mais amplo do Brasil no século XX.

Fruto de pesquisas realizadas nos últimos anos, conta o mesmo com análise de questões econômicas e relações de trabalho, além de aspectos sociais e culturais, relativos à colonização de uma região importantíssima para a Marcha para Oeste de Getúlio Vargas, se inserindo, portanto, em momentos importantes para entendermos a história nacional.

Se este mesmo século foi o "breve século" de Eric Hobsbawm, tendo ele eventos mundiais importantíssimos em mente, por que então não entendermos também este como um século de mudanças fundamentais em nossa história nacional? Um século de ditaduras, golpes, mudanças fundamentais e busca por consolidação da democracia. 

E é nessa história nacional que se insere a erva-mate, produto tão importante para a formação de quatro estados brasileiros (Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul). 

Erva-mate e frentes pioneiras: dois mundos antes estudados de forma separada e agora juntos neste livro, vistos a partir da ocupação não indígena de um espaço tido por idealizadores oficiais como "vazio". Um mundo ocupado por indígenas e imigrantes paraguaios, onde vão se inserindo os "pioneiros" das mais diversas regiões, sobretudo do Nordeste brasileiro, em busca de vida melhor para si e suas famílias a partir da década de 1940. Colonos estes dos quais alguns se tornarão ervateiros e outros que de alguma forma tirarão proveito da Ilex Paraguariensis.

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* Postado em 15/fev/2017.

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segunda-feira, novembro 14, 2016

Urbano Braulino: o "colono ervateiro"


Dias atrás conhecemos um pouco a colona Joaquina, agora gostaria de apresentar para você o colono Urbano Braulino da Silva. A dificuldade para conseguir entrevistá-lo foi grande, o que acabou por deixar a coisa ainda mais interessante. 

Em conversas com meu orientador, Paulo Cimó, desde 2007, quando ainda fazia Iniciação Científica na Graduação, já programava uma conversa com o velho colono de origem nordestina que havia trabalhado com erva-mate, o que não é tão fácil de encontrar, tendo em vista que a maioria dos trabalhadores diretos da erva-mate no sul do antigo Mato Grosso era de paraguaios e indígenas, ficando aos colonos da CAND (Colônia Agrícola Nacional de Dourados), por vezes, o papel de donos dos lotes que “vendem para outros tirarem” ou mesmo, em casos ainda mais raros, pequenos empreiteiros do mate. O fato é que por um motivo ou outro, apenas em 2011, quando já escrevia minha dissertação, consegui entrevistá-lo.

Pois bem, o Seu Urbano é um desses poucos que eu encaixo na lista de colonos que produziram diretamente erva-mate, a quem chamo de “colonos ervateiros”. Hoje residente em Nova Esperança, distrito de Jateí, Mato Grosso do Sul, onde foi entrevistado em dezembro de 2011, ele nasceu em 1930, no estado da Bahia, e como a maioria dos colonos migrou para o Oeste brasileiro “com a notícia de que aqui tava dano terra po povo... aqui no município de Dourados”. Utilizando os serviços de trem da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), fez o trecho de Guararapes, perto de Andradina, no interior de São Paulo, até Itaum, já em Mato Grosso, seguindo de ônibus para Dourados, vindo depois “a pé” para a nascente Vila Brasil, atual Fátima do Sul.

Algum tempo depois abriu lotes no Caraguatá, na chamada Segunda Zona da Colônia, com o sogro e um cunhado, para onde se mudou em 1956. Nesses lotes havia erva-mate, mas não conhecia, aprendendo já no interior da CAND, após ter contato com Epitácio[1], para quem começou a produzir e vender, entre 1957 ou 1958, depois de uma pequena incursão frustrada pela produção de arroz.

Aí depois que começou o serviço da erva. O caboclo, um caboclo chegô lá... lá o Epitácio, chegô ali, começô tirano erva, como já tinha muita erva... tinha... ensinei pra ele onde é que tinha erva aí. Tirô dos lote tudo, tudo. Só... num tinha ninguém mémo aí. Só tava eu, meu sogro e a famía aí. O resto que tava tudo em volta... tudo era mato... Comecei tirá erva. O negócio melhorô pra mim viu!? Aí comecei a tirá... ganhá dinhero com ele... e vai, vai... Quando ele foi embora, eu comecei to... Eu toquei uma roça, eu comecei tirá erva... Foi meus pão! Eu apanhava erva.

Urbano parece ter sido um dos colonos que conseguiram algum retorno com erva-mate – mesmo somando-a a outros tipos de cultura agrícola. Ele, como alguns outros colonos, também construiu um barbacuá com a ajuda de um amigo. “Eu roçava o mato pa podê prantá lavora, mas a erva eu aproveitava. Eu cortava e... pra podê vendê né? E ali foi o... o que foi meu pão foi aquilo ali rapaiz! Eu num tinha algum dinhero... eu num tinha... Eu fazia, ia lá, fazia a ferinha... Vendia a erva, fazia a fera e trazia. Pra podê trabaiá, passá a semana. Eu fiz isso muitas veiz”. 

A erva-mate que cortava nos fins de semana, apesar das demais plantações que tinha, teria lhe ajudado no sustento por um bom tempo, “acho que uns... três anos nessa vida tirano erva viu?!”, dando “pra fazê a fera pra passá a semana”. E se o preço recebido pela erva-mate não fosse tão alto, “você vendia as coisas barata, mas também comprava barata”.

Trabaiava de segunda, terça, quarta, quinta, sexta... na, na roça. Quando era no sábado eu ia cortá erva. Sapecá, põe no barbacuá e quando, só... tocá fogo, né? E levá... levá de [...] aí. Levava quarenta quilos... Até cinquenta quilo já levei, nas costas, daqui no Jateí! Dentro da picada. E aí foi minha vida rapaiz! Desse jeito. A erva me valeu muito!

Além dele, o sogro, Antonio Fileu, e o cunhado, somados a outros nomes citados por ele, como Zé Baiano, Mané Mineiro, Zé Xavier, Mané Xavier, Avelino Braúna e Nerinho, também trabalharam com erva-mate, extraindo e vendendo – “eu sei que tinha uns oito aqui que mexia com erva né?”. “Era assim. Que essa erva aturô muito tempo aqui rapaiz. A turma se virô muito com erva”.

Como visto ainda com outros colonos, com Urbano não foi diferente, quando os lotes começaram a ser desmatados começou a ser abandonada a produção de erva-mate, o que parece ter sido um desalento para ele: “A... depois... foi aquela situação, depois que... que começô a abri todos os terrenos aqui, e eu... falei ‘meu pai do céu, como que eu vô fazê?’ E agora o andar...?”. Em sentido mais amplo, era o que temia também o Instituto Nacional do Mate (INM), principal órgão de controle da economia ervateira brasileira entre 1938-1967, “depois acabô a tiração de erva. A erva começô queimá com a roça... cabô todinha. O pessoal começô roçá e ponhá fogo...”. Isso parece ter ocorrido entre o final dos anos 1950 e inícios dos anos 1960, sendo possível que os lotes já estivessem demarcados há mais tempo, mas ainda não estivessem “abertos”, isto é, ainda não era interessante dedicar-se apenas à agricultura, ainda mais tendo a erva-mate como fonte de renda.

A trajetória de vida do Seu Urbano de maneira mais ampla não é muito conhecida por mim, tendo apenas o que me contou, em especial sobre suas incursões pela produção de erva-mate e agricultura, isso porque já foi difícil conseguir uma conversa com o “colono ervateiro”. Quando cheguei à Jateí, em dezembro de 2011, tinha em mente apenas dois nomes, o do próprio Urbano e de um seu amigo por nome Manuel Valêncio Gomes Filho, vulgo Seu Sué. Aconteceu que eu já havia tentado contato por telefone com o Seu Urbano, mas, na única vez que encontrei o ativo senhor de 82 anos em casa, ele se mostrou desconfiado, negando que tivesse trabalhado com erva-mate ou qualquer coisa parecida, afirmando após insistência minha que havia trabalhado com erva-mate, “mas faiz muito tempo, nem lembro mais rapaiz”. Isso me deixou em desalento, era meu principal alvo de entrevista. 

Mas, após muitos “ensaios” decidi arriscar, indo Eudes Fernando, Alan Jara e eu, rumo à pacata Jateí (em outra postagem contarei um pouco mais sobre a minha visita à pequena cidade). Em resumo, após falar com algumas pessoas, especialmente o pastor Adauto, um colega nosso de profissão e seu amigo, consegui um aval do desconfiado Urbano

Quando chegamos em sua chácara, localizada no distrito de Nova Esperança, a poucos quilômetros de Jateí, mal sabia eu o que esperar, por esse motivo nem fotos ou vídeos da entrevista fizemos. Mas, como as coisas nem sempre são como parecem nos primeiros “choques de contato”, ele acabou por se abrir e me dar uma das entrevistas mais produtivas e interessantes que já fiz. Com ele, em poucas horas, aprendi muita coisa que precisava aprender e descobri muitas das experiências de velhos “colonos ervateiros”, pessoas que adotaram a erva-mate como fonte de renda, mesmo juntando-a a outras atividades. 

Saí de sua casa contente, aliás, muito contente, com a sensação de que havia conseguido atingir meu grande objetivo. Mal sabia eu que muitas entrevistas ainda faríamos naquele 16 de dezembro de 2011, como a do primeiro prefeito de Jateí, Moacir Fagundes, o filho de Antonio Fagundes (mas isso é assunto para outra postagem).


Povoado de Vila Brasil, hoje Fátima do Sul, MS,
um dos primeiros lugares onde morou o Seu Urbano. 
Foto da Coleção "CAND" do CDR/UFGD.


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[1] Morador de Caarapó que andava pela região com seus trabalhadores extraindo o produto, que, segundo o senhor Urbano teria sido anos depois prefeito dessa cidade. Essa informação parece se confirmar através de um artigo recentemente publicado na internet por André Nezzi, que tratando de outro ex-prefeito de Caarapó, Artur Prado Marques, cita que “no ano de 1966, com a renúncia do então prefeito Epitácio Lemes dos Santos, Artur foi nomeado prefeito de Caarapó, ficando um ano à frente do Executivo, encerrando o seu mandato no final do ano de 1967” (NEZZI, 2010 – disponível em < http://www.caaraponews.com.br/noticia/caarapo/6,13864,ex-prefeito-de-caarapo-e-hoje-autoridade-esquecida >, visitado em 13/maio/2012).

* Foto do topo: Monumento de Jateí. Foto de Eudes Fernando Leite.

** Originalmente postado em 14/nov/2012.

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quarta-feira, abril 13, 2016

Fontes Históricas: Fontes biográficas - Vavy Pacheco Borges





Com essa postagem seguimos a série de resenhas do livro Fontes Históricas, organizado por Carla B. Pinsky. Aqui o assunto são as biografias e sua inserção no cenário historiográfico. Mais uma vez uso algumas experiências de pesquisa para ilustrar algumas informações do texto.

Neste texto, cujo subtítulo é "Grandezas e misérias da biografia", Vavy Pacheco Borges procura mostrar como os historiadores vem lidando com o uso das biografias em suas considerações sobre a História e sua escrita. Renegada até tempos atrás, nas últimas décadas vem ganhando espaço, chegando mesmo a ser cogitado um certo "retorno", do tipo que vemos com outras formas de fazer História, como o retorno ao político, que alguns logo vêem uma ligação. 

Existe ainda uma ligação entre essa atenção recente dada às biografias e questões de identidade e representação. Em um momento de incertezas, onde a História para alguns vem beirando a falésia (para usarmos um título de Chartier), atentar para biografias parece um caminho relativamente "natural". Vavy Pacheco nos cita ainda, neste contexto de crises de paradigmas, um favorecimento da experiência, surgindo interesses pelos "excluídos" e/ou "vencidos" da História, como as minorias sociológicas (negros, mulheres, homossexuais). Há também uma preocupação com a fragmentação do ser, com a multiplicidade inerente a ele, com suas múltiplas experiências (p. 210).

Para uma visão didática das biografias, ela divida-a em tipos principais, que vão "desde um rápido (ou não) percurso da vida do biografado (...) até o tipo mais ambicioso, como 'um mergulho na alma' do biografado". Assim, ela esquematiza em três tipos, segundo sua finalidade e elaboração.


  • O artigo de dicionário biográfico: um breve resumo da vida de uma pessoa pública, por vezes famosa;
  • a monografia de circunstância: elogios fúnebres ou ligados a uma circunstância particular; ou
  • a biografia dita "científica" ou dita "literária": obras mais importantes, com preferência narrativa e finalidade histórica, que trabalham com documentação numerosa e variada.

A preferência da autora e podemos dizer dos historiadores de maneira geral recai sobre o último tipo citado, especialmente quando este se caracteriza como um "mergulho na alma", por sua maior completude, conseguindo penetrar no que veríamos como intimidade da pessoa já desaparecida. 

Para fazer o mergulho, ela cita alguns meios, sobretudo os documentos da "escrita de si" e de "produção de si":


  • memória ou tradição oral familiar;
  • memórias, autobiografias, ego-história, correspondência (ativa e passiva), diários;
  • entrevistas de mídia (orais, escritas ou em filmes, vídeos);
  • os chamados objetos da cultura material: fotos, objetos pessoais, bibliotecas particulares, etc.



A micro história é um desses métodos que usam e podem ser usados por biógrafos, embora não possa ser reduzida à "biografia" em si. Temos aí, entre outros, o exemplo de Menochio, no texto fundador O queijo e os vermes de Carlo Ginzburg, ou a análise de Rabelais feita por Lucien Febvre. Neste caso há uma necessidade de variadas fontes ou séries relativamente completas para que se tenha uma "reconstrução" satisfatória da trajetória do indivíduo.

Vemos ainda um cotejo com a História Oral, que toma as em suas trajetórias de vida as particularidades, enfim, as identidades, que por vezes são inseridas em contextos mais amplos (ou não). Claro que, ao meu ver, quando tomamos os depoimentos orais não damos conta da amplitude necessária para construir uma biografia - se bem que de forma alguma poderíamos, como pretendem alguns, escrever biografias definitivas. Para isso precisamos ainda de mais informações, que são fornecidas por outras fontes e métodos, como os já mostrados antes.

Em minha pesquisa de Mestrado me deparei com alguns personagens, dentre as quais já fiz algumas postagens aqui no blog (Joaquina Dionísio, Moacir Fagundes e Urbano Braulino). Todas elas foram conhecidas por meio de entrevistas de História Oral, sendo que em alguns casos outras fontes me expandiram o entendimento e me possibilitaram pensar um pouco a trajetória de algumas dessas pessoas. É o caso do senhor Ramão Dauzacker, ervateiro e antigo funcionário da Colônia Agrícola Nacional de Dourados (CAND), que tive conhecimento à princípio através de entrevistas com seu sobrinho Astúrio, depois com seu filho Ricardo. Lendo as fontes da minha pesquisa e falando com outros entrevistados, pude encontrar novas pistas sobre esse sujeito. Claro que seria necessário um trabalho muito mais acurado para que fizesse uma biografia considerada de "bom" nível, mas isso à época fugiria aos objetivos da minha pesquisa.

Mas voltemos à Vavy Pacheco. Ela ainda mostra algumas relações da biografia com outras áreas do conhecimento, como a Literatura, a Psicanálise, a Sociologia e a Antropologia. Todas elas fazem leituras dos indivíduos e por vezes fornecem ferramentas úteis aos biógrafos.

Podemos ainda dizer que o texto em questão segue o princípio de mostrar como as biografias vem sendo valorizadas; como historiadores vem reconhecendo nela uma utilidade que antes não viam, por buscarem até décadas atrás, de forma limitadora segunda a autora, uma visão do "global", das "estruturas", das "classes", enfim, não atentando para o individuo, para as multiplicidades do ser. Uma utilidade seja como fonte para a História, ou mesmo como caminho de debate no sentido de escrever a História nos termos de micro espaços e micro visões, com suas verdades, relações sujeito/historiador/objeto, relações indivíduo/contexto e por fim conseguir ver algum sentido ou não nessas biografias.

Por fim, o debate segue ainda em direção a se pensar questões como privacidade e direito de sigilo, especialmente quando se fala nas biografias não autorizadas, fato agravado quando os biografados ainda são vivos.


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SUMÁRIO DE RESENHAS

Carlos Bacellar - Uso e mal uso dos arquivos
 Vavy P. Borges - Fontes biográficas

* Imagem do topo retirada do site da UPF

** Originalmente postado em 27/set/2014.

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domingo, janeiro 24, 2016

[IN MEMORIAM] Sobre a morte de Moacir Fagundes




Falamos antes da morte do seu Moacir, mas não demos detalhes.

Segundo as informações que tivemos, ele foi encontrado morto em sua casinha. Um vizinho teria avisado a polícia do cheiro que vinha da casa. A filha, o marido e o vizinho teriam entrado então pela porta dos fundos e encontrado o corpo, que já estava há alguns dias fechado... bom, o resto acho que não precisa ser explorado aqui.

De qualquer forma, podemos dizer que era um senhor simpático, que nos recebeu (Eudes, Alan e Eu) para entrevista em dezembro de 2011, tendo nos contado diversas histórias de sua trajetória movimentada nos primeiros anos e triste no final.

Já falamos em outras postagens que ele foi o primeiro prefeito de Jateí-MS, professor, datilógrafo, agricultor e para nós na época o mais importante "colono ervateiro".

A casa era velha, vivia ele em estado de pobreza e ao que nos parece solitário.

De qualquer forma a prefeitura de Jateí, hoje um pequeno município do interior de Mato Grosso do Sul, decreto um dia de luto por sua morte nos dias 22, 23 e 24 de janeiro 2016

* Imagem do topo de autoria de José A. Fernandes. Se forem usar, por favor, citem a fonte.

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