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sexta-feira, maio 15, 2020

VÍDEO: O consumo de mate no Brasil | José A. Fernandes




Quero falar um pouco com vocês sobre o consumo interno brasileiro de erva-mate, para mostrar especialmente quando ele deixou de ser em sua maioria feito pelos gaúchos e ganhou espaço em outros estados, inclusive nos demais produtores (Paraná, Santa Catarina e antigo sul de Mato Grosso).

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quinta-feira, maio 14, 2020

Chimarrão - por Glaucus Saraiva




Publicado em 1949, no Jornal do Dia, do Rio Grande do Sul, esse poema perfilha tradicionalismos, pra louvar o chimarrão e a Revolução de 1935 farroupilha.

Amargo doce que eu sorvo
Num beijo em lábios de prata!
Tens o perfume da mata
Molhado pelo sereno,
E a cuia, seio moreno,
Que passa de mão em mão,
Traduz no meu chimarrão
Em sua simplicidade
Da gente do meu rincão!

Trazes à minha lembrança,
Neste teu sabor selvagem,
A mística selvagem,
Do feiticeiro charrua;
O perfil da lança nua
Encravada na coxilha,
Apontando, firme, a trilha
Por onde rolou a história
Empoeirada de glória
Da tradição Farroupilha!

Em teus últimos arrancos,
No ronco do teu findar,
Ouço um potro corcovear
Na imensidão deste Pampa!
Reboando nos confins
A voz febril dos clarins
Repinicando: "Avançar!"
Então me fico a pensar
Apertando o lábio assim
Que o amargo que está no fim,
Que a seiva forte que eu sinto
É o sangue de 35
Que volta verde p'ra mim!!!

Jornal do Dia (RS), 4 de novembro de 1949, p. 5 (disponível no site da Biblioteca Nacional Digital).


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segunda-feira, fevereiro 03, 2020

Em breve versão GRÁTIS do MEU LIVRO! Saiba mais!




ESGOTADO, MAS...

O meu livro está esgotado. Mas, em breve disponibilizarei versão em e-book, gratuitamente pra vocês. Conheça um pouco do livro no vídeo abaixo, compartilhem e aguardem!!!

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sexta-feira, janeiro 03, 2020

VÍDEO: A Argentina, a erva-mate e o Brasil | José A. Fernandes




Em outros vídeos falamos sobre a história da erva-mate, de maneira geral, e do Instituto Nacional do Mate. Dessa vez o tema é a Argentina e o consumo de erva-mate, ligando isso com a economia ervateira brasileira..


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quarta-feira, janeiro 01, 2020

Os primórdios da produção de erva-mate no Brasil e na América Latina | José A. Fernandes




Nesse texto eu gostaria de fazer uma viagem às origens da produção de erva-mate no Brasil e na América Latina, desde os primeiros séculos de contatos e conquistas dos europeus sobre os indígenas.

A erva-mate (Ilex paraguariensis) é nativa de algumas regiões da América do Sul, que se inserem atualmente em territórios de Brasil, Paraguai e Argentina. Os índios de língua guarani, que a chamam de ka’a, já a consumiam muito antes dos europeus, o fazendo originariamente em maior quantidade em contextos cerimoniais e religiosos, num tipo de chá estimulante que denominam atualmente de ka’ay

Ela também era utilizada por outros povos indígenas “para produzir bebidas semelhantes, inclusive entre comunidades originárias do Chaco e dos Andes, de onde a espécie não é nativa ou endêmica”, o que, segundo os pesquisadores Eremites de Oliveira e Esselin, sugere que desde muito tempo “a planta circulava em uma grande rede interétnica de relações sociais, a qual abrangia uma vasta extensão territorial na América do Sul”. 

Foi com os indígenas que, segundo os mesmos autores, os colonizadores europeus, espanhóis ou não, aprenderam a utilizá-la  e nos povoados constituídos majoritariamente de indígenas, “logo os espanhóis e seus descendentes euroamericanos aprenderam a preparar e a tomar gosto pelo consumo da bebida, afastando-se, porém, do contexto ritualístico no qual era mais consumida”, mantendo, por outro lado, seu consumo como elemento de sociabilidade e solidariedade entre as pessoas. 

Além disso, a erva-mate foi se tornando ao longo dos séculos XVII e XVIII fonte importantíssima de renda para muitos comerciantes que afluíam às regiões de ervais, como a Província do Guairá no século XVII, por exemplo. Com a organização da produção em moldes comerciais ao longo dos seiscentos, o consumo se estendeu às margens do Prata, transpôs os Andes e chegou às regiões minerais de Potosí e até ao Chile, Peru e Equador.


Segundo Corrêa Filho escreveu em 1957, tomando apenas a cidade de Assunção, hoje capital do Paraguai, como exemplo - embora sendo apenas o que foi oficialmente registrado -, em 1620 teriam sido consumidas entre 14 e 15 arrobas de erva-mate. Além disso, estava entre os produtos embarcados desde Assunção, embalada em cestos diretamente ligados à maneira indígena de transportá-la, tornando-se então a atividade econômica colonial mais significativa da Província do Guairá, explorando em números e níveis crescentes a mão de obra indígena local, o que ocorria através de trabalho forçado, sendo por vezes os índios mal alimentados pelos espanhóis e, como se vê relatado em carta ânua do padre Nicolau Durán de 1628, ao comentar sobre a produção de erva-mate em Maracayu, “sin premio ninguno, y quando mucho le dan dos baras de lienzo a cada uno”.

Aliás, comentando o genocídio Guarani ocorrido na região missioneira de forma ampla, Bartomeu Meliá destacou em texto de 1997 como fator a contribuir para isso o modo de trabalho, daí mencionar os ervais de Maracayu  particularmente, para onde eram levados os índios do Guairá. Sobre isso evoca o testemunho de Montoya de 1639, onde este diz que “Tiene la labor de aquesta yerba consumido muchos millares de indios, testigo soy de haber visto por aquellos montes osarios [ossadas] bien grandes de indios”. E igual fato já era acusado em 1630, em resposta dada pelos índios de Santo Inácio aos padres Joseph Cataldino e Cristoval de Mendiola, quando esses lhes comunicaram as provisões reais em que se mandava aos índios que não servissem mais que dois meses, nem fossem levados à Maracayu na estação doentia – documento que foi acompanhado do testemunho de vários padres jesuítas (esses documentos constam em uma coletânia de CORTESÃO de 1951).

Claro que esse recrutamento ocorria por meio da violência, com mortes, rapina, roubo de pessoas, etc. O que não ocorria, por outro lado, sem resistência e enfrentamentos, sendo que no caso do Guairá, os confrontos com os indígenas provocavam baixas dos dois lados (no caso dos indígenas também pelas doenças). Situação que no início do século XVII já havia feito os espanhóis pedirem, através do Governador da Província do Paraguai, Hernando Arias de Saavedra (mais conhecido como Hernandarias), ao rei da Espanha a vinda de sacerdotes, com o fim de catequizá-los e evangelizá-los, quebrando assim sua resistência. Foi então criada, segundo Eremites de Oliveira e Esselin, a Província Jesuítica do Paraguai, em 1609, cuja área jurisdicional religiosa compreendia, grosso modo, o antigo Vice-Reinado do Prata e os atuais territórios do Paraguai, sul da Bolívia, Uruguai e parte do Brasil (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e parcela de Mato Grosso do Sul e São Paulo). Logo de início os religiosos ali fundaram em torno de 13 reduções, localizadas no atual oeste do Paraná e proximidades da Ciudad Real del Guayrá.

Interessante é dizer que o consumo de erva-mate de início não era aceito pelos padres, sendo visto como “coisa do diabo”, ligando-o, entre outras coisas, ao pecado da gula, por estimular o apetite, ou à vadiagem, como afirmava o padre Durán em sua carta ânua de 1628, dizendo com suas próprias palavras que “esta hierva haze a los hombres araganes y glotones”. Ou ainda podendo levar à depravação dos costumes “devido a supostos efeitos afrodisíacos da planta”, como afirmava o padre Antonio Ruiz de Montoya. Não podendo os nativos continuarem utilizando uma bebida que, segundo esse último, além dos supostos malefícios à saúde, teria sido recomendada pelo demônio, através “de un gran hechicero o mago qe. tenia trato con el demonio” (esse e outros documentos foram reunidos por Cortesão, a partir dos arquivos Angelis).

Com as reclamações dos padres a respeito do uso da erva-mate, as autoridades coloniais chegaram a reagir e tentaram proibir o seu consumo, criando o mesmo governador Hernandarias ordenanças que previam multas e prisão a quem produzisse, vendesse ou mesmo consumisse. Segundo relato do padre Jose Guevara, o mesmo governador teria demonstrado “conmiseracion con los índios” pela situação que viviam e a forma como trabalhavam, tendo em certa ocasião, quando navegava o porto de Buenos Aires, saltado em terra e queimado em praça pública um saco da tal erva do Paraguai, dizendo “no estrañeis esta demonstracion, porque á ella me mueve el grande amor que os profeso, pues oigo, que me disse presagioso el corazon, que esta yerba será la ruina de vuestra nación”.

Mas a resistência não durou muito, sendo que tempos depois a erva-mate assumiria grande importância na manutenção econômica da região das Missões, em áreas que incluem atualmente territórios de Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina – pelo menos até as mesmas serem atacadas e destruídas pelos bandeirantes paulistas. Nisso pesou para os padres, de certa forma, a questão social e cultural dos indígenas, vendo na erva-mate uma forma de combate ao alcoolismo entre os nativos. Mas, por outro lado, teve um peso importantíssimo também a questão econômica, rendendo-se os padres à sua produção, incluindo o plantio das erveiras com técnicas misteriosas , “começando a organizar a produção comercial ervateira nas reduções situadas na Serra de Maracaju e no Guairá”, sendo que, segundo Eremites de Oliveira e Esselin, somadas às produções feitas dentro e fora das reduções jesuíticas, “o Paraguai tornou-se o principal fornecedor de erva-mate na bacia platina”.

No século XVII, estimulada por preço compensador (de início), a produção alcançou volumes consideráveis. A produção dos padres, em 1620, ficou em torno de 50 mil arrobas, sendo 10 mil vendidas em Assunção e as demais seguindo para os mercados de Santa Fé e Corrientes. Mesmo com uma rápida queda nos preços, segundo relato de Montoya, a exportação não teria esmorecido, sendo que Azara relatou depois que, no século XVIII, “Se ha estendido tanto el uso de esta yerba, que se lleva mucho á Potosi, Chile, Peru e Quito; el año de 1726 se estrayeron del Paraguay 12.500 quintalles  de ella, y el de 1798, 50.000”.


Tal era a importância da erva-mate, que chegou a figurar nas questões envolvendo o Tratado de Madri, tendo inclusive o padre Escaudon condenado a cessão a Portugal do território missioneiro, dos Sete Povos, em troca da colônia de Sacramento, afirmando que 

(...) con solo el beneficio de yerba que harán los dichos Portugueses em los yerbales con que ciertamente se quedan de los índios Guaranís, y con la yerba ‘caamini’ que harán con ellos y con la de ‘palos’ de que pueden hacer aún mas en los propios yerbales, harán un gravisimo daño y notabilicismo prejuicio à toda la dicha provincia del Paraguay.

E de maneira geral, os padres continuaram explorando a erva-mate, até serem expulsos da América Portuguesa pelo Marquês de Pombal em 1759 e da Espanhola em 1767, quando então o mate passou a ser explorado exclusivamente por particulares. Foi então que as plantações missioneiras foram arrasadas e saqueadas, em decorrência da desenfreada ambição de indivíduos da época, cujo único fito era a obtenção de fáceis e elevados lucros. Essa ação nefasta de mutilação redundou em diminuição da quantidade produzida, pois, em virtude do abandono completo dos ervais, só restaram pequenas manchas de plantação.

Como resultado, a mesma perdeu um pouco de sua significância comercial, diminuindo, sobretudo e pelos motivos apontados, nas regiões de missões jesuíticas. Continuou então como importante produtor de erva-mate o Paraguai, só tendo este baixado a produção após sua independência em 1811, quando o governo de José Gaspar Rodríguez Francia (1811-1840) adotou um forte isolacionismo. Segundo Luiz Aranha escreveu em 1969, foi assim que ele proibiu em 1813 a venda aos demais países, “destinando-a exclusivamente ao mercado interno”, se consolidando o país guarani como maior produtor durante o governo de Carlos Antonio López (1840-1862), o pai de Solano. 


Já na parte referente ao Brasil, a erva-mate voltou a ter grande importância apenas a partir de inícios desse mesmo século XIX, com o isolacionismo paraguaio, mas, sobretudo, durante e depois da Guerra do Paraguai, quando o país guarani perdeu o espaço que antes tinha no mercado internacional, fazendo os dois grandes centros consumidores – Argentina e Uruguai – se voltarem para a produção brasileira. 

Segundo Aranha, a partir de 1831 a erva-mate passou a figurar entre os oito principais produtos da pauta de exportações do Brasil, sendo que teria havido um desenvolvimento da produção ervateira no mesmo período em que o café, um dos concorrentes do mate, começou a tomar vulto como principal produto de nossa pauta de exportações, afirmando o autor que as estatísticas do comércio exterior mostram que a partir de 1831, a produção cafeeira e ervateira passaram a conquistar o mercado externo. 

Dirigiram-se porém a áreas diferentes. Enquanto os principais compradores de café encontravam-se na Europa, fornecendo ao Brasil maior capacidade de importar junto aos países industrializados, particularmente a Inglaterra, França e Alemanha, a erva-mate destinava-se aos mercados sul-americanos: Uruguai, Argentina e Chile, principalmente (ARANHA, 1967, p. 13). Mas, o que vem daí em diante é um novo momento para a economia ervateira (brasileira, sobretudo), por isso, deixemos para um outro texto.


Assista ao nosso vídeo sobre a história do mate do séc. XIX à década de 1930:
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Referências:


  • ARANHA, Luiz Fernando de Souza. O mercado ervateiro. São Paulo: Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas/Universidade de São Paulo, 1967. 
  • CORRÊA FILHO, Virgílio. Ervais do Brasil e ervateiros. Rio de Janeiro: SAI, 1954.
  • EREMITES DE OLIVEIRA, Jorge; ESSELIN, Paulo Marcos. Uma breve história (indígena) da erva-mate na região platina: da Província do Guairá ao antigo sul de Mato Grosso. Espaço Ameríndio, Porto Alegre: v. 9, n. 3, jul-dez./2015. Para fazer download esse documento, clique aqui.
  • CORTESÃO, Jaime (org.). Manuscritos da coleção Angelis - Jesuítas e bandeiras no Guairá. vol. I. Biblioteca Nacional, 1951. Para fazer download esse documento, clique aqui.
  • MELIÁ, Bartomeu. El guaraní conquistado y reduzido. CEADUC, 1997. Para fazer download esse documento, clique aqui.
* postado originalmente em 28/dez/2019.

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terça-feira, dezembro 17, 2019

VÍDEO: Breve História da Erva-Mate - do séc. XIX à década de 1930 | José A. Fernandes




A erva-mate foi muito importante na formação e desenvolvimento inicial de quatro estados brasileiros (Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso), foi um dos oito principais produtos de exportação brasileira e tem voltado nas últimas décadas a gerar interesse na sua produção, industrialização e comércio. 

Por isso fiz esse vídeo, que conta um pouco da história da erva-mate desde o século XIX até a década de 1930, momento em que já se acumulavam diversos problemas que levariam à criação de órgãos de classe e finalmente o Instituto Nacional do Mate em 1938.

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sábado, dezembro 14, 2019

A História da erva-mate em Mato Grosso do Sul



Desde o fim do século XIX a erva-mate foi assumindo papel importante como produto chave da economia do antigo sul de Mato Grosso, quando Tomás Laranjeira conseguiu um arrendamento de terras, criou a Companhia Mate Laranjeira e iniciou a exploração de imensos ervais nativos existentes na região onde surgiria a povoação de Ponta Porã...

A produção de erva-mate semipreparada (cancheada) seguia para Argentina, seu principal mercado consumidor, onde Tomás Laranjeira possuía escritório e beneficiadora para o produto. Ele utilizava milhares de trabalhadores (majoritariamente paraguaios), mantidos em condições de trabalho subumanas. É verdade que realizou grandes investimentos e adquiriu grande poder e prestígio, chegando a ser o maior contribuinte da Fazenda Estadual no início do século XX. Por este motivo tem a presença e atividades dessa grande empresa realçada, possuindo o domínio quase exclusivo sobre a produção e exportação da erva-mate na região.


Mas, apesar de ser o primeiro concessionário legal, ele não era o único, no entanto, é certo que, graças a suas estreitas relações com o poder público, conseguia afastar os concorrentes, uma vez que não possuíam os outros produtores a ‘lei ao seu lado’. Mesmo assim, nesse extremo sul de Mato Grosso, após a Guerra do Paraguai (1864-1870), configurou-se um complexo universo econômico, envolvendo muitos outros atores, incluindo atividades agropecuárias e comerciais, além da extração ervateira. Inúmeros migrantes e imigrantes vieram para a região. E, apesar dos conflitos que sua presença provocou com a Companhia, muitos deles se dedicaram aos trabalhos ervateiros, não sendo desprezível o papel dos produtores independentes.

No século XX, o domínio da Companhia foi diminuindo, especialmente a partir da década de 1930, com as novas políticas desenvolvidas em Mato Grosso pelo governo do presidente Getúlio Vargas e os conflitos relacionados à renovação ou não das concessões de terras à Companhia. Foi quando surgiu o projeto da “Marcha para Oeste”, em 1938, no início do Estado Novo, com as idéias de nacionalização das fronteiras sul-mato-grossenses, especialmente com o Paraguai, adotando o Governo Federal medidas afim de enfraquecer a Companhia. Dentre elas recusou-se a renovar seu contrato de arrendamento, impôs taxas sobre a erva-mate cancheada e apoiou os produtores ervateiros independentes da empresa, com a criação do Instituto Nacional do Mate e de cooperativas de produtores.

Enfim, em 1943, o governo federal criou a Colônia Agrícola Nacional de Dourados (CAND) em plena área antes arrendada a Companhia Mate Laranjeira, onde surgiram as cidades da região de Dourados. O Governo afrontava diretamente a empresa e as velhas oligarquias regionais a ela ligadas. A CAND era um projeto de desenvolvimento do capitalismo no campo, para ocupar os espaços geográficos que acreditavam ser semipovoados, com terras férteis em abundância. Uma vez criada a CAND, começaram a distribuição lotes gratuitos a milhares de colonos, sobretudo nordestinos, além de mineiros, paulistas e tantos outros brasileiros, com recursos mais acessíveis e significativos amparos aos colonos no começo, com casa e ajudas da administração. No entanto, na década de 1950 o número de colonos aumentou de forma descontrolada, a situação saiu muito do controle, o que impediu um melhor atendimento das necessidades de todos.


Com a CAND, as pessoas antes vinculadas à economia ervateira e a Companhia Mate Laranjeira se viram tendo que buscar trabalho nos empreendimentos de colonização. Alguns fixaram residência nas terras da CAND, em Dourados, Campo Grande, Ponta Porã, indo morar em colônias particulares ou mesmo se tornaram empregados de colonos que passaram a produzir erva-mate. O mais importante é notar que essas pessoas tinham conhecimento adquirido da vivência no mundo ervateiro e ficaram disponíveis como mão de obra.

Finalmente, no ano de 1965, a Argentina com o aumento da produção interna e sua auto-suficiência no abastecimento de erva-mate, suspendeu as importações do Brasil, especialmente de Mato Grosso, o que para muitos autores teria sido o fim das atividades ervateiras no estado, tendo em vista que seu consumo interno era ínfimo. De importadora a Argentina passaria a exportar erva-mate, como acontece ainda hoje, competindo inclusive com os estados produtores do Brasil em mercados internacionais.

Sabemos que a atividade de produção ervateira teria persistido na região entre os colonos, ainda durante alguns anos, depois de 1965, e mesmo até os dias atuais em condições diferentes. Sobre isso temos exemplos, como relatos de ex-colonos e parentes destes, e ainda outras fontes. Em nossos dias temos visto muitas fábricas de erva-mate em Dourados e região, que compram matéria prima de outras regiões e da Argentina, que empacotam e vendem o produto. É assim que temos erva-mate para o tereré ou para o chimarrão, mais comum entre os descendentes sulinos.


Assista ao nosso vídeo sobre o Instituto Nacional do Mate:
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Publicado originalmente em gostodeler.com.br / aqui no blog em 28/fev/2011.

** Foto no topo: revista "Raído" - UFGD.

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terça-feira, novembro 26, 2019

VÍDEO: O Instituto Nacional do Mate e a economia ervateira brasileira | José A. Fernandes [minha tese]




Aproveitando que terminei meu doutorado, compartilho com vocês essa palestra de setembro de 2019, parte do CONAMATE, onde falei sobre o tema principal da minha tese: o Instituto Nacional do Mate e a economia ervateira brasileira.


Assista:
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terça-feira, julho 02, 2019

Os trabalhadores do mate: entre imagens reais e ideais | José A. Fernandes



Talvez você já tenha visto alguma propaganda positiva sobre determinado produto, que no fundo não condiz com a realidade dos seus trabalhadores. Esse foi o caso do mate por muito tempo, conforme poderemos observar em duas imagens icônicas nessa postagem.

Pare para observar as duas imagens seguintes: uma da década de 1940, idealizada, perfeitamente harmoniosa e outra, da realidade, nua e crua, de um trabalhador nos ervais do antigo sul de Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul), nas primeiras décadas do século XX.


Essa primeira imagem circulou em algumas edições do jornal O Campo, do Rio de Janeiro, na década de 1940. Trata-se da reprodução de uma tela de grandes proporções de F. Acquarone, pintada sob encomenda do Instituto Nacional do Mate (1938-1967), para decorar seu salão de honra na antiga capital do país.

Essa cena "típica dos ervais", pretendia mostrar a colheita do mate nos estados do sul do Brasil, revestindo-se, segundo a legenda da edição de março de 1943 do jornal mencionado, "às vezes, de aspectos inconfundíveis".



Só pelo fato de ter sido encomendada por uma instituição nacional, que esteve no controle da economia ervateira por 29 anos, já é por demais significativo. Essa autarquia federal sabia das condições reais dos trabalhadores do campo - no caso, os da erva-mate -, mas, como foi praxe durante muito tempo no Brasil, eles não receberam muita atenção dos órgãos federais, ao contrário do que ocorreu com os trabalhadores da cidade. O próprio Instituto do Mate pouco fala dos trabalhadores dos ervais, tratando em seus documentos apenas dos "produtores", que nem sempre eram os que realmente trabalhavam diretamente o mate. 


Mas, passemos para a próxima imagem. Nela se vê um trabalhador (provavelmente paraguaio ou indígena), carregando o famoso raído (fardo enorme de erva-mate) que transportava dos pontos de corte e sapecamento até os chamados barbacuás (onde ela era seca definitivamente). Ele carregava na cabeça, como o nosso modelo da foto, que fez exibição para pessoas importantes que visitavam a fazenda Campanário, sede da famosa Companhia Mate Laranjeira. 

Bom, alguém poderia dizer: "mas a primeira foto era do sul do Brasil, onde os colonos europeus chegaram, construíram de forma mais organizada e onde - também de forma organizada - trabalharam com as suas famílias. Não é a mesma coisa!". 

Devo então ser chato (só um pouco) com meus amigos do sul. É preciso que se saiba que os colonos europeus que chegaram ao Rio Grande do Sul, ao norte de Santa Catarina ou ao Paraná, aprenderam a trabalhar a erva-mate sim, mas logo que podiam contratavam os caboclos, antigos moradores da região, que já conheciam bem a planta, para fazerem o serviço nos ervais. Restava então aos colonos europeus organizar a extração e vender o mate. 

Claro que não foi esse o caso de todos os colonos do sul do país. Muitos deles também embrenharam-se na mata, por entre os pinheiros, correndo os riscos que a "selva trágica" dos ervais ofereciam. 

Mas (e esse é o último "mas"), quando falarmos de realidade dos ervais (incluindo a realidade da produção do nosso querido chá Matte Leão), devemos ter mais em mente a segunda imagem. Assim, faremos melhores honras aos que produziram e ajudaram a engrandecer a história do "ouro verde" do Brasil. 

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* Originalmente postado em 30/jan./2018.

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quarta-feira, maio 30, 2018

VÍDEO: Meu Livro | Erva mate e Frentes Pioneiras [José A Fernandes]



Preparamos um vídeo sobre o nosso livro. Saiba mais sobre ele assistindo!

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quarta-feira, maio 09, 2018

VÍDEO: O Instituto Nacional do Mate e o aproveitamento da erva-mate brasileira [José A Fernandes]


No dia 5 de maio estive apresentado trabalho na Semana Acadêmica de História da FURB, de Blumenau-SC. Quem quiser dar uma olhada, segue o vídeo.

:: Resumo:

A erva-mate foi produto de grande importância na história dos três estados do Sul do Brasil e do antigo sul de Mato Grosso desde meados do século XIX até a década de 1960 do século XX. Nas primeiras décadas desse último século diversos problemas, sobretudo de mercado, de preços e de superprodução atingiam a economia ervateira. Tais problemas motivaram então a criação do Instituto Nacional do Mate (INM) em 1938, no início do Estado Novo de Getúlio Vargas. 

Essa autarquia é o objeto de nossa pesquisa de doutorado em andamento, onde estudamos sua trajetória e suas ações sobre a economia ervateira do Brasil até sua extinção em 1967. 

Nesse sentido, esta nossa apresentação toma um ponto especifico de mesma pesquisa, onde buscamos tratar e analisar as principais formas de aproveitamento da erva-mate que foram incentivadas pelo Instituto. Tomamos em consideração o que já existia em termos de produtos e subprodutos (chimarrão, tereré e, de forma incipiente, o chá) e procuramos entender o que de novo resultou dos estudos e das ações promovidos pelo mesmo durante o tempo em que existiu, seja o aproveitamento das substâncias extraídas (especialmente a cafeína do mate), seja a criação de subprodutos (especialmente o mate solúvel).

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domingo, janeiro 28, 2018

Um poema ao chimarrão - por Glaucus Saraiva




Palmeio o velho porongo
derramo a erva com jeito
encosto a cuia no peito
batendo a erva prá um lado;
com os quatro dedos curvados
formo um topete bem feito.

Com um poquito de água morna
bem devagar despejado,
tenho o amargo ajeitado
que ponho a um canto pra inchar;
e espero a água esquentar
pitando o baio sovado.

A pava chiou no fogo.
Encho a cuia que promete;
a espuma se arremete
bem pra cima, borbulhando,
e acariciante, beijando,
branqueia todo o topete.

Agarro a bomba de prata,
tapo o bocal com o dedão,
calço o bojo bem no chão
da cuia e vou destapando
a bomba que vai chupando
um pouco de chimarrão.

Derramo outro pouco d'água
para aumentar o calor...
e o mate confortador
vou sorvendo em trago largo,
pois me saiu um amargo
despachado e roncador.


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terça-feira, junho 20, 2017

Está à venda o meu livro "Erva-mate e frentes pioneiras"!



É com muita alegria que comunico que está à venda o meu livro "Erva-mate e frentes pioneiras". 

Nele pretendo apresentar aos leitores pontos específicos, a história da erva-mate e os movimentos migratórios para o atual Mato Grosso do Sul, buscando contribuir para o estudo do contexto histórico mais amplo do Brasil no século XX.

Fruto de pesquisas realizadas nos últimos anos, conta o mesmo com análise de questões econômicas e relações de trabalho, além de aspectos sociais e culturais, relativos à colonização de uma região importantíssima para a Marcha para Oeste de Getúlio Vargas, se inserindo, portanto, em momentos importantes para entendermos a história nacional.

Se este mesmo século foi o "breve século" de Eric Hobsbawm, tendo ele eventos mundiais importantíssimos em mente, por que então não entendermos também este como um século de mudanças fundamentais em nossa história nacional? Um século de ditaduras, golpes, mudanças fundamentais e busca por consolidação da democracia. 

E é nessa história nacional que se insere a erva-mate, produto tão importante para a formação de quatro estados brasileiros (Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul). 

Erva-mate e frentes pioneiras: dois mundos antes estudados de forma separada e agora juntos neste livro, vistos a partir da ocupação não indígena de um espaço tido por idealizadores oficiais como "vazio". Um mundo ocupado por indígenas e imigrantes paraguaios, onde vão se inserindo os "pioneiros" das mais diversas regiões, sobretudo do Nordeste brasileiro, em busca de vida melhor para si e suas famílias a partir da década de 1940. Colonos estes dos quais alguns se tornarão ervateiros e outros que de alguma forma tirarão proveito da Ilex Paraguariensis.

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* Postado em 15/fev/2017.

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