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quarta-feira, maio 27, 2020

Especial Primeira Guerra (parte 04): a hecatombe do século XX

  

A Grande Guerra não era para ser tão grande, pelo menos era o que se esperava. Mas quando aconteceu e terminou o mundo viu o estado de bárbarie a que chegara a humanidade, superando todos os seus limites anteriores e deixando um rastro de destruição sem precedentes. 

Com algumas exceções, quase o mundo todo de alguma forma se envolveu nessa hecatombe do século XX! 


Até 1914, o mundo nunca tinha visto algo tão destruidor e longo como a Primeira Guerra. Isso porque a Europa, com respingos nos demais continentes ao redor do mundo, vivia desde fins do século XIX uma Belle Époque, imaginando um progresso sem barreiras, de carona nas ciências e tecnologias, rumo a um mundo sem sofrimentos e do menor esforço (ao menos para as classes mais abastadas e as potências imperiais).

A princípio, quando as hostilidades começaram, elas não eram mais do que conflitos de um continente. Além disso, esperava-se um fim rápido. Mas logo a Grande Guerra deu-se a ecoar e pessoas puderam inclusive acreditar no "fim do mundo", no cataclismo da "civilização", no início da Era da Catástrofe**, entre outras previsões apocalípticas. 

Nunca antes na história tantos grupos diferentes e tantos continentes se envolveram num mesmo esforço de destruição. Mulheres, crianças, velhos soldados, exércitos coloniais, etc.. Todos, direta ou indiretamente, se esforçavam em prol de uma causa que nem sempre era sua. Não que todos estivessem de acordo com a guerra - grupos pacifistas logo se manifestaram e países colonizados tentavam sair da condição de dominados -, mas estavam todos presos na teia da "aranha" das chamadas "Nações Civilizadas". 

Os "papéis das mulheres", 
publicado em Paris em 1917

Para manter o estado de guerra, criaram-se "bônus de guerra" (em algumas propagandas chamados de "bônus da vitória" ou "da liberdade"), empréstimos de guerra, campanhas para preservação de alimentos; instalou-se o sistema de alistamento obrigatório; incorporaram-se as mulheres como enfermeiras ou funcionárias do setor industrial (incluindo a fabricação de armamentos). 

Ruínas em solo francês.

Nesse contexto, ganha destaque mais uma vez a ação da Cruz Vermelha Internacional. Uma organização concebida em pleno campo de batalha da Guerra da Crimeia (1853-1856), por Henry Dunant, como um conjunto de fundamentos segundo os quais os civis deveriam ser poupados e os feridos tratados, independentemente da facção a que pertencessem. Algo que viria a contribuir para “humanizar” as guerras. Henri Dunant chegou a receber o Prêmio Nobel da Paz (1901) por este feito.

A ideia era "humanizar" a guerra, poupar os civis… e crianças. "O que se verificou foi exactamente o contrário. Os conflitos do século XX, [...], foram um espelho disso. A Primeira Guerra Mundial, a Guerra Civil de Espanha e sobretudo a Segunda Guerra Mundial fizeram com que as crianças entrassem em massa nos conflitos como actores, mas principalmente como vítimas, vítimas da violência cega dos campos de concentração e dos bombardeamentos que se abatem indiscriminadamente sobre as populações civis" ***.


Cena comum em Flers, região do Somme (s.d.)

Não podemos ainda, tomando-nos como foco, esquecer da posição do Brasil na Primeira Guerra. Perdemos navios, perdemos cargas, perdemos vidas. Devemos ser breves aqui, mas cabe lembrar de que mantínhamos condição neutro no início, entrando já no final de 1917, quando a Primeira Guerra encaminhava para um desfecho. Nossa declaração de guerra ao Eixo só veio em 26 de outubro do mesmo ano, sendo dada ao Exército brasileiro como missão o patrulhamento do Atlântico Sul, mais especialmente na costa africana. Partiram do Rio de Janeiro em maio de 1918, parando em Salvador e Fernando de Noronha, só deixando a costa brasileiro em 1º de agosto! 

A tripulação de nossa pequena divisão de navios enviada para combater foi atacada por um submarino alemão próxima de Dakar e passou sem grandes danos; mas já em Dakar, deu a padecer de gripe espanhola, a partir de 6 de setembro: "no fim de dois dias, as tripulações de todos os navios haviam sido contagiadas, e com tal força que cerca de 95% dos seus efetivos encontravam-se em completo estado de prostração"****. A gripe só foi considerada extinta em outubro, após fazer 249 baixas entre mortos e doentes afastados. De Dakar, seguiu a divisão brasileira, progressivamente mais desfalcada, com destino a Gibraltar, onde chegou em 10 de novembro, um dia antes da assinatura do armistício que pôs fim à Guerra. 


Cruzador Bahia, que fez parte da frota 
brasileira da Primeira Guerra

Mas, encerremos por ora, a nossa participação na Grande Guerra e nos voltamos para o cenário mais amplo, lembrando que inclui também tantos outros países, como o nosso, que dependiam do comércio internacional ou das migalhas que sobravam dos poderosos impérios europeus. Mas, sobre o começo do fim da Era dos Impérios veremos em nossa última postagem dessa série, na semana que vem.

O que nos resta aqui é saber que, quando as hostilidades da Guerra se encerraram em 1918, com o armistício, e depois oficialmente com a assinatura do Tratado de Versalhes, em 28 de junho de 1919, ficou a certeza de que até mesmo quem venceu se viu perdedor. Quase todas as grandes potências do mundo naquele período estavam devastadas, com suas economias afetadíssimas. A única grande exceção foram os Estados Unidos, que terminaram, na verdade, como os únicos "vencedores".


Rua Eugene Desteuques, Reims, França 
(31 de março de 1917)




* As imagens desta postagem foram extraídas dos seguintes sites: 
** HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX (1914-1991).Cia das Letras, 1995.
*** A guerra contra as crianças – Claire Brisset. Disponível no blog Exploração do Homem.
**** Desventuras em série. Disponível no site da Revista de História da Biblioteca Nacional: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/desventuras-em-serie.

Originalmente postado em 20/jun/2014

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quarta-feira, maio 13, 2020

Especial Primeira Guerra Mundial




Começamos a partir dessa postagem um especial para falar sobre a Primeira Guerra Mundialum dos eventos (senão o evento) que mais marcaram a história do século XX, que levou Eric Hobsbawm a chamá-lo de a Era das Extremos. 

Ela foi chamada de Grande, mas ainda com toda sua grandeza não recebeu os mesmos "louros", a mesma quantidade de filmes e os mesmo número de monumentos memoriais que a sua sucessora, chamada de Segunda por sua causa. Apesar disso, motivados pelas proximidades de seu centésimo aniversário, alguns livros e produções cinematográficas vem surgindo, alimentando a imaginação histórica dos que gostam de saber sobre as Grandes Guerras do século próximo passado, como é o caso, por exemplo, dos filmes recentes Cavalo de Guerra e O Barão Vermelho.


 dvd barão vermelho
Capa do filme O Barão Vermelho (2008)

A Primeira Guerra Mundial tem o dia 28 de junho como marco de seu "início", quando ocorreu o assassinato de Francisco Ferdinando, o Arquiduque da Áustria e até então herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, em Sarajevo, Bósnia.

Sua morte foi uma "desculpa" para o início das hostilidades, tendo entre os mais importantes motivos as tendências imperialistas das grandes potências europeias, com suas indústrias desenvolvidas e sedentas por manter os seus recantos imperiais (na África e Ásia, sobretudo) e ainda por expandi-los, se possível. Às colônias cabia a função de compradoras das mercadorias europeias, sejam quais fossem elas, e fornecedoras de matérias primas, além das outras riquezas minerais. 

Soma-se às tendências imperialistas propriamente, a exacerbação dos nacionalismos europeus, usados para promover a adesão de suas populações à causa da guerra. Temos  nesse contexto o nacionalismo das populações que se encontravam dominadas pelo Império Austro-Húngaro ou pelo Império Russo, que ansiavam por suas independências (como é o caso da Bósnia em relação à Áustria-Hungria, local estopim dos primeiros conflitos). 

No conflito se alinharam países que eram inimigos clássicos, como Inglaterra e França. Na divisão das potências tivemos: a Tríplice Aliança, entre Alemanha, Áustria-Hungria e Itália, que muda de lado em 1915; e a Tríplice Entente, entre as citadas Inglaterra e França, mais o então Império Russo, do Czar Nicolau II, que sai em 1917 do conflito para fazer sua Revolução de Outubro, mais os Estados Unidos que entraria na Guerra só em 1917.



Pôster anuncia o filme Under Four Flags (Sob quatro bandeiras), que foi feito pela Divisão de Filmes do Comitê de Informações Públicas, um órgão do governo estabelecido nos Estados Unidos, mostrando a união entre Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Itália.

Ela começou com as potências envolvidas não imaginando conflitos tão longos e abrangentes. E no final, deixará uma triste marca na história da humanidade, com um saldo assustador de aproximadamente 9 milhões de soldados mortos e 20 milhões de feridos. Mas também a Grande Guerra abriu espaço para novas experiências, com a esperança lançada pelo Comunismo Russo - que se deu certo ou não, já é outra discussão. 



"A única estrada para os ingleses", cartaz inglês para o alistamento de soldados.

Bom, mas essas e outras informações vocês poderão acompanhar nos próximos fins de semana, onde teremos postagens especiais, terminando enfim no dia 28 de junho, data marco do início de tudo.

Sugestão de livro:

David Stevenson 
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* Imagem do topo: '''Description''': Trincheiras na Flandres na Primeira guerra mundial em La Lys, em 1918. 

** Com exceção da capa do filme O Barão Vermelho, as demais imagens foram extraídas do site www.wdl.org.

*** Originalmente postado em 31/maio/2014.

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sábado, maio 02, 2020

Livros para conhecer o "verdadeiro" Dom Pedro I



Dom Pedro I virou novela, um tanto caricato ao ser representado por um ator (Caio Castro) que na minha opinião estava longe de transmitir ares aristocráticos - sem falar que não mandava bem no idioma dos nossos "nobres" colonizadores. Por isso, ler é preciso, acreditar em tudo não é preciso!

Ler um pouco então faz bem, ajuda a curar as feridas causadas pelas más "contações" da ficção, ilumina o caminho dos pobres (e das pobres) de conteúdo, além de fazer os "trabalhos" de interpretação de uma quase estranha figura nacional.

A lista de livros sobre Pedro de Alcântara (o primeiro) - o libertador que nada libertou - é extensa, mas separemos aqui alguns que são de cunho biográfico. Desses há alguns títulos que valem a lida, ainda que seja pra criticar.
Na lista dos escritores respeitáveis, está Mary Del Priori, com A Carne e o Sangue.


 livro a carne e o sangue

Seguem-se outros autores, como Isabel Lustosa com seu D. Pedro I - Um Herói sem Nenhum Caráter, partindo da história de Macunaíma para explicar o imperador do Brasil. Um mais completo escrito por Sérgio Correia da Costa, está intitulado como As Quatro Coroas de D. Pedro I.

 pedro i um herói sem nenhum caráter

Há uma obra mais antiga, em três volumes do escritor brasileiro Otávio Tarquínio de Sousa, A Vida de D. Pedro I.

 a vida de d pedro i

Um livro bem mais recente é D. Pedro: Imperador Do Brasil E Rei De Portugal, de Eugénio dos Santos, lançado pela editora Alameda.

 livro dom pedro Imperador Do Brasil E Rei De Portugal

Tem-se aqueles livros que podem ser lidos quase como literatura, onde colocaríamos 1822, do jornalista-historiador Laurentino Gomes.

 laurentino gomes 1822


 livro pedro i a história não contada livro Titília e Demonão
Ainda sobre Leopoldina e o primeiro imperador do Brasil, há o livro Leopoldina E Pedro I, de Sonia Sant´Anna. Ele conta a história da primeira imperatriz do Brasil, descrita por seus contemporâneos como "a mais doce de todas as princesas", e também "a mais desprezada das esposas". Uma mulher apaixonada por Pedro desde que o viu em um retrato, que foi infeliz no casamento mas se manteve fiel em seu posto, participando ativamente do movimento pela independência do Brasil e trabalhando por seu reconhecimento pelas nações europeias.
 livro leopoldina e dom pedro i
Há enfim, muita bibliografia direta ou indireta sobre Pedro, filho de João e de Carlota. Com certeza seu amigo descolado, que manja de História, o tio legal que sabe muito sobre o passado, ou ainda seu professor de História ou de cursinho preparatório para ENEM ou vestibular poderá complementar essa lista. De qualquer forma, ficam as nossas dicas.

Ah! Se quiserem comprar os livros indicados, é só clicar nos títulos ou nas capas que colocamos ao longo da postagem.

Aquele abraço!

* Postado originalmente em 3/jun/2017.



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quarta-feira, janeiro 01, 2020

LANÇAMENTO! História secreta da rendição japonesa de 1945: Fim de um império milenar!




Uma parte da Segunda Guerra menos tratada do que a vitória na Europa, acaba de ser lançado em português esse livro de Lester Brooks sobre a rendição japonesa e a vitória dos Aliados no Pacífico! 

É impressionante a história do que ocorreu no Japão naquele quente agosto de 1945. A Segunda Guerra já acabara em maio na Europa com a derrota completa da Alemanha, e tudo levava à certeza mundial de estar selada a derrota japonesa, era só uma questão de tempo. Mas, no Japão, não. Levantou-se o caráter nacional em toda a sua força: “Rendição é pior que a morte. Mais digno de nós é morrermos todos!”.

Os fatos narrados nesta obra ficaram ocultos e hoje ainda são praticamente desconhecidos no exterior. As semanas agitadíssimas antes da rendição final japonesa, que marcou o fim do vasto império asiático, estão entre os eventos mais dramáticos da moderna história da humanidade. Contar os detalhes fartamente documentados dessa rendição, assim como analisar o papel desempenhado pelos seus principais atores – dentro e fora do Japão –, é o objetivo deste notável livro de Lester Brooks, a mais completa obra sobre o assunto já editada no Brasil.

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Você pode adquirir a versão impressa ou, se preferir, pode ter acesso à esse e tantos outros por meio de um Kindle. Como esse da foto abaixo, que agora é à prova de água! Clique aqui para saber mais!
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Assista ao nosso vídeo sobre Guerra Fria!
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quarta-feira, junho 12, 2019

Sobre Preconceito | José A. Fernandes





O mundo vive tempos extremos, onde se fazem presentes novas ondas de xenofobia, algo que está em alta tanto na Europa e como no Brasil. Por isso, pensar sobre "preconceito" é preciso.

Essa é uma questão complicada e muitas vezes delicada, mas precisa ser pensada. Como em tudo na vida, ela traz mais questões do que respostas, mas precisamos ter algumas certezas, ainda que transitórias.

Muitos sabem, outros não, que os preconceitos não são inatos, ou seja, não nascemos COM as pessoas - assim como as imperfeições comportamentais da humanidade também não. Por isso, podemos pensar que eles não sejam parte de um conceito ou característica dados a priori, mas de algo construído socialmente, ainda que se sobreponha a fácil generalização, a pouca clareza da compreensão da diferença

O que podemos pensar é que não partimos do nada, não pegamos a informação sem nenhum amparo em experiências sociais anteriores, estando ligados diretamente ao grupo (ou grupos) ao qual fazemos parte. Não olhamos para algo que nos é "estranho" e criamos uma definição pejorativa como quem tem uma epifania, por isso mesmo sendo um "pré-conceito", buscando nos "desenhos" já prontos, nas nossas "experiências", elaborar a nossa visão sobre o que nos é apresentado.

Em sentido contrário, mas complementar, isso vai ao encontro do que nos disse Rousseau há séculos: "O homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe". Isso tem muito de verdade, embora a "bagunça" do Ser Humano seja tão grande atualmente que isso acabe sendo deixado de lado, nos perdendo em definições generalizantes, longe das especificidades de que são compostas as diversidades. 

Muita gente, como em tempos não muito atrás o então relator 
questão da redução  da maioridade penal - tema que vai e volta aqui no Brasil -, o deputado Laerte Bessa (PR-DF), preferia defender que crianças com tendências criminosas "não fossem autorizadas a nascer", o que, traduzindo, queria (e pra muitos ainda quer) dizer que bandido nasce "bandido" e mocinho, nasce "mocinho" - pensamento que também não é nenhuma novidade, sendo antes resquício de tempos em que se buscava definir as "raças" e suas características peculiares. Nada mais falso, se levarmos em conta que o homem é um ser social e construído pelo e através do seu meio; não é um ser "natural", que já nasce "pronto", caracteristicamente definido.


Desenho eugênico, procurando demonstrar a diferença "original" entre as "raças"

Mas, ainda sobre isso, se pegarmos o caso da África do Sul e aplicarmos a fala do senhor Bessa, teríamos um preconceito às avessas, ou seja, os "brancos", ingleses sobretudo, seriam todos ruins (generalização), pois invadiram um espaço "negro" e aos negros impuseram uma realidade cruel e exploradora (essa parte é verdade), exemplo do Apartheid - o que poderia ser igualmente aplicado à Índia, aos países do Oriente Médio e lugares e momentos históricos ad infinitum. Mas, em relação especificamente à África do Sul, o que vimos, ao contrário de uma reação vingativa contra o outro invasor e malfeitor, o da "raça ruim", Nelson Mandela pediu que seus compatriotas negros esquecessem o que haviam passado - ele mesmo "esquecia" seus 27 anos de injusta prisão - e buscassem construir um país habitável tanto para negros como brancos, dando assim um nó no preconceito e não - falsa - ideia de raças diferentes.

O que isso nos mostra em relação ao preconceito, senão que quem usa a desculpa dos "defeitos inatos" ou a condenação original e imutável - como fazia um "nobre" deputado ao falar sobre os míticos filhos de Cã e sua maldição bíblica, coisa que não vale a pena rememorarmos por ora -, pega informações da sociedade em que está inserido e usa em favor de um grupo dominante, que, por sua vez, possui a visão moral hegemônica. 

Além disso, penso que os exemplos que vimos dando mostrem que, quando se age com preconceito, em parte se age como a criança - ou outra faixa etária qualquer que não "evoluiu" mentalmente - que quer atenção e por isso age de acordo com o grupo social. Mesmo que no fundo sinta que não pensa exatamente como ele, mas fica bloqueada, por vezes, pelo medo da rejeição, assim como rejeitam o que é diferente. Traduzindo, diríamos que o deputado Bessa, citado acima, é um "produto" do seu meio e dos anseios do mesmo. 


Mas, a outra parte da coisa nos leva a pensar na maneira como nos apropriamos disso e que, se admitimos algo parecido com "livre arbítrio", devemos imputar culpa aos que promovem práticas racistas - pautadas em preceitos religiosos ou não. Isso porque, muitos recriam os preconceitos recebidos e repassam em novas formas e com novos elementos, o que acaba perpetuando ideias crueis herdadas de uma forma "inovadora". 



Crianças "sortudas" que sobreviveram ao extermínio promovido pelos nazistas em Auschwitz

Foi assim quando fiz uma pesquisa com alguns adolescentes em Dourados, Mato Grosso do Sul, e muitos deles diziam que os índios do Brasil são todos "vagabundos", "bêbados" e "malandros". Muitos diziam isso mesmo sem nunca terem visto algum índio ou mesmo, se os viram, sem fazerem uma avaliação das informações preconcebidas que herdaram, inclusive de seus professores, tendo uma atitude irrefletida que poderá virar algum tipo de militância "fascista" - e tem virado mesmo, como pode ser facilmente notado por onde quer que olhemos. 

Em alguns casos ainda, ter preconceito acaba sendo uma resposta ao medo de ser visto como o diferente que lhe é apresentado e que rejeita (ex. lésbicas, gays, etc.), criando desculpas para manter distância ou mesmo perseguir o que lhe incomoda, como vemos ao longo dos últimos séculos em eventos e teorias, tais como: o "dia da raça"; as ideias do "darwinismo social", que foram muito influentes no Brasil de fins do século XIX e começo do XX; o "extermínio dos incapazes e desnecessários", exemplo especial do nazismo na Alemanha; a exclusão sistemática e mesmo legal dos desiguais, como fizeram - e ainda fazem - os seguidores de seitas como a Ku Klux Klan nos EUA; a luta contra os "invasores", que roubam empregos e afetam negativamente as economias locais, coisa muito atual em qualquer canto do mundo com um pouco mais de recursos, mas especialmente nos países desenvolvidos; etc, etc, etc..


Cena do filme "O Nascimento de uma Nação", de D.W Griffith, onde os membros da Ku Klux Klan aparecem como "mocinhos".

Claro que, muitos terão seus pontos de vista e discordarão de pontos que foram apontados nesse texto, mas isso faz parte quando se trata de refletir sobre si mesmo e sobre os outros. O que não pode acontecer é tomarmos o preconceito enquanto "verdade", o senso comum enquanto fonte de "conhecimento" e a "realidade" que nos interessa como se fosse universal. Precisamos entender o mundo como as diferenças que se complementam e que não devem se repelir, se excluir e se combater.

E se, enfim, voltando a Rousseau, a parte das pessoas que ainda tem algo de bom e quer ver uma humanidade mais justa e compreensível, mais "igual", precisa pensar mais, ler mais, refletir mais, criticar mais, e viver de forma menos conservadora e mais inclusiva. E, claro, torcer para a parte que já tem o "mau" como constância resolva olhar para o mundo com olhos diferentes - o que acho bem difícil -, ou ao menos seguir o "contrato social" que tanto pedem como civilizados que são.

Dica de livro:

 o espetáculo das raças livro
de Lilia Moritz Schwarcz 
Clique aqui! 

Antes de sair, assista ao nosso vídeo Intolerância! Clique aqui ou na imagem abaixo!



Sugestões de leitura:

- Jean-Jacques Rousseau - Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade Entre os Homens.


- Jean-Jacques Rousseau - Do Contrato Social.


* Imagem do topo montada a partir de foto de um barco de pesca com 85 imigrantes que desembarcaram no porto de Los Cristianos, nas Ilha Canária de Tenerife, Espanha, em 2006. (Foto original de Arturo Rodriguez, AP).


** Postado originalmente em 6/set./2015.

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sexta-feira, abril 19, 2019

VÍDEO: O que é Imperialismo?




IMPERIALISMO: importante para entender os motivos da Primeira Guerra Mundial, o passado de continentes dominados, o presente de países em crise constante, guerras e miséria. Esse é o evento histórico que deixou marcas profundas na África, Ásia e América Latina.

Quais as formas que ele assume ao longo do tempo? Quem foram os dominadores? Ele acabou ou ainda existe Imperialismo? O Brasil também foi explorado? 

Veja o vídeo até o fim e não esqueça de interagir conosco!


Caso esteja recebendo esse post por e-mail, clique aqui para assistir.

Dica de Livro:

 livro o grande oriente médio vizentini
Paulo G. Fagundes Vizentini
Clique aqui!

DICA DE LIVROS SOBRE O IMPERIALISMO:

:: Cultura e Imperialismo - Edward Said https://amzn.to/2QGG9Fu
:: Imperialismo Ecológico - Alfred W. Crosby https://amzn.to/2MJ4OpP
:: O Imperialismo - Hector Hernan Bruit https://amzn.to/2D8fGxR
:: Da Revolução Industrial Inglesa Ao Imperialismo - Eric J. Hobsbawm https://amzn.to/2xlOmH9
:: Origens do totalitarismo - Hannah Arendt https://amzn.to/2D9p6t9
:: História da China - John G. Roberts https://amzn.to/2NRbBm2
:: Imperialismo Global - Flávio Bezerra de Farias https://amzn.to/2QGGsQE
:: A Política Externa Norte-Americana e Seus Teóricos - Perry Anderson https://amzn.to/2NjwaIe
:: O Caminho para Wigan Pier - George Orwell https://amzn.to/2piizCH

Assista também ao nosso outro vídeo Como fui pra Argentina de ônibus (e o que fiz lá) clique para ir!


* Originalmente postado em 25/jan/2017.

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quinta-feira, setembro 20, 2018

Julia Cameron: uma fotógrafa na Era Vitoriana [com álbum de fotos]




Há um tempo atrás estava vendo um documentário sobre a História da Grã-Bretanha, especialmente no episódio que trata da chamada Era Vitoriana, e uma fotógrafa me chamou atenção: Julia Cameron (1815–1879). É sobre que falamos nessa postagem, mostrando algumas de suas fotos.

Aos que se dedicam a arte da fotografia certamente já ouviram falar dela, mas eu, atuando em outra área, ainda não havia. 

Isso é o que é mais interessante, pois na vida podemos, se quisermos, conhecer sempre mais, não importa o assunto. Basta não criarmos barreiras de especializações e áreas, e aí fica tudo mais interessante.  

Julia Margaret Cameron me chamou a atenção por ser uma mulher, uma fotógrafa, em um mundo de homens fotógrafos. Ela nascera em Calcutá, Índia (na época em que era colônia britânica), em uma família abastada e morreria no Sri Lanka em 1879. Se dedicou à fotografia tardiamente, começando aos 48 anos, e não fez disso uma profissão, mas antes um exercício de prazer, ou algo parecido. 

Isso porque ela não se fixou em imagens de pessoas sorridentes, famílias devidamente hierarquizadas ou pessoas com ares estritamente aristocráticos, como era usual na Inglaterra vitoriana e outras partes e momentos. Ela ousa expor figuras melancólicas, por vezes com olhares penetrantes, uma marca aliás em sua obra. 

Aliás, ela mesma quando é fotografa não sorri e quase nunca fita a câmera. Basta uma olhada na fotografia abaixo ou em retratos conhecidos dela, muitos dos quais estão preservados e podem ser acessados no site da National Portrait Gallery (Galeria Nacional de Retratos) britânica.

Henry Herschel Hay Cameron, 1870

Por sua posição social, ela teve acesso a um grande número de personalidades de sua época. O que não a fez fugir da teatralidade e da melancolia que lhe eram características. Nessa linha é que temos dela também uma fotografia das mais conhecidas de Charles Darwin, naturalista britânico autor de A origem das espécies.

Charles Darwin, foto de Julia Cameron (1869)

Sofrendo a pressão de seu tempo, em um mundo onde o papel das mulheres era outro, somando-se especialmente as exigências perfeccionistas do contexto vitoriano, ela foi alvo de duras críticas:

A fotógrafa já foi considerada sem conhecimentos técnicos, por apresentar imagens desfocadas e acusada de fotografar “trivialidades infantis”, pelas imagens de crianças vestidas de anjos. Mas seu trabalho tem sido visto por outros “olhos” na contemporaneidade*.

Enfim, resumidamente, sua vida como fotógrafa se divide em três fases: dedica-se inicialmente às cenas religiosas e renascentistas (1864-1865); a partir de 1866 aos retratos; e, nos anos de 1870, passa a se interessar por cenas de gênero (mitos, lendas inglesas e personagens da literatura popular).


Veja mais fotografias que selecionamos de autoria de Julia Cameron:






O livro Julia Margaret Cameron's Women (em inglês) traz um panorama biográfico de sua vida e conta com uma seleção de suas fotografias.

Dica de livro
Clique aqui!

Outras referências:

* Andréa Brächer (FABICO/UFRGS): Julia Margaret Cameron e a fotografia de madonas.
* National Portrait Gallery: Julia Margaret Cameron. 



Assista ao nosso outro vídeo com a Como fui pra Argentina de busão (e o que fiz lá) clique para ir!


* Originalmente postado em 7/dez/2014.

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