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quarta-feira, maio 27, 2020

Especial Primeira Guerra (parte 04): a hecatombe do século XX

  

A Grande Guerra não era para ser tão grande, pelo menos era o que se esperava. Mas quando aconteceu e terminou o mundo viu o estado de bárbarie a que chegara a humanidade, superando todos os seus limites anteriores e deixando um rastro de destruição sem precedentes. 

Com algumas exceções, quase o mundo todo de alguma forma se envolveu nessa hecatombe do século XX! 


Até 1914, o mundo nunca tinha visto algo tão destruidor e longo como a Primeira Guerra. Isso porque a Europa, com respingos nos demais continentes ao redor do mundo, vivia desde fins do século XIX uma Belle Époque, imaginando um progresso sem barreiras, de carona nas ciências e tecnologias, rumo a um mundo sem sofrimentos e do menor esforço (ao menos para as classes mais abastadas e as potências imperiais).

A princípio, quando as hostilidades começaram, elas não eram mais do que conflitos de um continente. Além disso, esperava-se um fim rápido. Mas logo a Grande Guerra deu-se a ecoar e pessoas puderam inclusive acreditar no "fim do mundo", no cataclismo da "civilização", no início da Era da Catástrofe**, entre outras previsões apocalípticas. 

Nunca antes na história tantos grupos diferentes e tantos continentes se envolveram num mesmo esforço de destruição. Mulheres, crianças, velhos soldados, exércitos coloniais, etc.. Todos, direta ou indiretamente, se esforçavam em prol de uma causa que nem sempre era sua. Não que todos estivessem de acordo com a guerra - grupos pacifistas logo se manifestaram e países colonizados tentavam sair da condição de dominados -, mas estavam todos presos na teia da "aranha" das chamadas "Nações Civilizadas". 

Os "papéis das mulheres", 
publicado em Paris em 1917

Para manter o estado de guerra, criaram-se "bônus de guerra" (em algumas propagandas chamados de "bônus da vitória" ou "da liberdade"), empréstimos de guerra, campanhas para preservação de alimentos; instalou-se o sistema de alistamento obrigatório; incorporaram-se as mulheres como enfermeiras ou funcionárias do setor industrial (incluindo a fabricação de armamentos). 

Ruínas em solo francês.

Nesse contexto, ganha destaque mais uma vez a ação da Cruz Vermelha Internacional. Uma organização concebida em pleno campo de batalha da Guerra da Crimeia (1853-1856), por Henry Dunant, como um conjunto de fundamentos segundo os quais os civis deveriam ser poupados e os feridos tratados, independentemente da facção a que pertencessem. Algo que viria a contribuir para “humanizar” as guerras. Henri Dunant chegou a receber o Prêmio Nobel da Paz (1901) por este feito.

A ideia era "humanizar" a guerra, poupar os civis… e crianças. "O que se verificou foi exactamente o contrário. Os conflitos do século XX, [...], foram um espelho disso. A Primeira Guerra Mundial, a Guerra Civil de Espanha e sobretudo a Segunda Guerra Mundial fizeram com que as crianças entrassem em massa nos conflitos como actores, mas principalmente como vítimas, vítimas da violência cega dos campos de concentração e dos bombardeamentos que se abatem indiscriminadamente sobre as populações civis" ***.


Cena comum em Flers, região do Somme (s.d.)

Não podemos ainda, tomando-nos como foco, esquecer da posição do Brasil na Primeira Guerra. Perdemos navios, perdemos cargas, perdemos vidas. Devemos ser breves aqui, mas cabe lembrar de que mantínhamos condição neutro no início, entrando já no final de 1917, quando a Primeira Guerra encaminhava para um desfecho. Nossa declaração de guerra ao Eixo só veio em 26 de outubro do mesmo ano, sendo dada ao Exército brasileiro como missão o patrulhamento do Atlântico Sul, mais especialmente na costa africana. Partiram do Rio de Janeiro em maio de 1918, parando em Salvador e Fernando de Noronha, só deixando a costa brasileiro em 1º de agosto! 

A tripulação de nossa pequena divisão de navios enviada para combater foi atacada por um submarino alemão próxima de Dakar e passou sem grandes danos; mas já em Dakar, deu a padecer de gripe espanhola, a partir de 6 de setembro: "no fim de dois dias, as tripulações de todos os navios haviam sido contagiadas, e com tal força que cerca de 95% dos seus efetivos encontravam-se em completo estado de prostração"****. A gripe só foi considerada extinta em outubro, após fazer 249 baixas entre mortos e doentes afastados. De Dakar, seguiu a divisão brasileira, progressivamente mais desfalcada, com destino a Gibraltar, onde chegou em 10 de novembro, um dia antes da assinatura do armistício que pôs fim à Guerra. 


Cruzador Bahia, que fez parte da frota 
brasileira da Primeira Guerra

Mas, encerremos por ora, a nossa participação na Grande Guerra e nos voltamos para o cenário mais amplo, lembrando que inclui também tantos outros países, como o nosso, que dependiam do comércio internacional ou das migalhas que sobravam dos poderosos impérios europeus. Mas, sobre o começo do fim da Era dos Impérios veremos em nossa última postagem dessa série, na semana que vem.

O que nos resta aqui é saber que, quando as hostilidades da Guerra se encerraram em 1918, com o armistício, e depois oficialmente com a assinatura do Tratado de Versalhes, em 28 de junho de 1919, ficou a certeza de que até mesmo quem venceu se viu perdedor. Quase todas as grandes potências do mundo naquele período estavam devastadas, com suas economias afetadíssimas. A única grande exceção foram os Estados Unidos, que terminaram, na verdade, como os únicos "vencedores".


Rua Eugene Desteuques, Reims, França 
(31 de março de 1917)




* As imagens desta postagem foram extraídas dos seguintes sites: 
** HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX (1914-1991).Cia das Letras, 1995.
*** A guerra contra as crianças – Claire Brisset. Disponível no blog Exploração do Homem.
**** Desventuras em série. Disponível no site da Revista de História da Biblioteca Nacional: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/desventuras-em-serie.

Originalmente postado em 20/jun/2014

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quarta-feira, maio 13, 2020

Especial Primeira Guerra Mundial




Começamos a partir dessa postagem um especial para falar sobre a Primeira Guerra Mundialum dos eventos (senão o evento) que mais marcaram a história do século XX, que levou Eric Hobsbawm a chamá-lo de a Era das Extremos. 

Ela foi chamada de Grande, mas ainda com toda sua grandeza não recebeu os mesmos "louros", a mesma quantidade de filmes e os mesmo número de monumentos memoriais que a sua sucessora, chamada de Segunda por sua causa. Apesar disso, motivados pelas proximidades de seu centésimo aniversário, alguns livros e produções cinematográficas vem surgindo, alimentando a imaginação histórica dos que gostam de saber sobre as Grandes Guerras do século próximo passado, como é o caso, por exemplo, dos filmes recentes Cavalo de Guerra e O Barão Vermelho.


 dvd barão vermelho
Capa do filme O Barão Vermelho (2008)

A Primeira Guerra Mundial tem o dia 28 de junho como marco de seu "início", quando ocorreu o assassinato de Francisco Ferdinando, o Arquiduque da Áustria e até então herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, em Sarajevo, Bósnia.

Sua morte foi uma "desculpa" para o início das hostilidades, tendo entre os mais importantes motivos as tendências imperialistas das grandes potências europeias, com suas indústrias desenvolvidas e sedentas por manter os seus recantos imperiais (na África e Ásia, sobretudo) e ainda por expandi-los, se possível. Às colônias cabia a função de compradoras das mercadorias europeias, sejam quais fossem elas, e fornecedoras de matérias primas, além das outras riquezas minerais. 

Soma-se às tendências imperialistas propriamente, a exacerbação dos nacionalismos europeus, usados para promover a adesão de suas populações à causa da guerra. Temos  nesse contexto o nacionalismo das populações que se encontravam dominadas pelo Império Austro-Húngaro ou pelo Império Russo, que ansiavam por suas independências (como é o caso da Bósnia em relação à Áustria-Hungria, local estopim dos primeiros conflitos). 

No conflito se alinharam países que eram inimigos clássicos, como Inglaterra e França. Na divisão das potências tivemos: a Tríplice Aliança, entre Alemanha, Áustria-Hungria e Itália, que muda de lado em 1915; e a Tríplice Entente, entre as citadas Inglaterra e França, mais o então Império Russo, do Czar Nicolau II, que sai em 1917 do conflito para fazer sua Revolução de Outubro, mais os Estados Unidos que entraria na Guerra só em 1917.



Pôster anuncia o filme Under Four Flags (Sob quatro bandeiras), que foi feito pela Divisão de Filmes do Comitê de Informações Públicas, um órgão do governo estabelecido nos Estados Unidos, mostrando a união entre Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Itália.

Ela começou com as potências envolvidas não imaginando conflitos tão longos e abrangentes. E no final, deixará uma triste marca na história da humanidade, com um saldo assustador de aproximadamente 9 milhões de soldados mortos e 20 milhões de feridos. Mas também a Grande Guerra abriu espaço para novas experiências, com a esperança lançada pelo Comunismo Russo - que se deu certo ou não, já é outra discussão. 



"A única estrada para os ingleses", cartaz inglês para o alistamento de soldados.

Bom, mas essas e outras informações vocês poderão acompanhar nos próximos fins de semana, onde teremos postagens especiais, terminando enfim no dia 28 de junho, data marco do início de tudo.

Sugestão de livro:

David Stevenson 
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* Imagem do topo: '''Description''': Trincheiras na Flandres na Primeira guerra mundial em La Lys, em 1918. 

** Com exceção da capa do filme O Barão Vermelho, as demais imagens foram extraídas do site www.wdl.org.

*** Originalmente postado em 31/maio/2014.

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sábado, fevereiro 11, 2017

DICA DE LIVRO: "Depois da Rainha Victoria, Edward VII - Os Anos Que Levaram À Primeira Guerra Mundial", de André Maurois


Livros sobre a Primeira Guerra começam a se avolumar, diferente de décadas atrás quando a Segunda Guerra dominava o interesse dos leitores e "apreciadores" de história de guerras. Agora, livros como esse, são sempre particularmente interessantes.
No geral todos sabemos o que ocorreu a partir de 1914, temos explicações sobre o início da Grande Guerra (como o Imperialismo), sabemos da rivalidade das potências da época... E é justamente nesse contexto que aparece a figura de Edward VII, o rei do Reino Unido e dos domínios britânicos e Imperador da Índia. Ele sucedeu o reinado mais que sexagenário da mãe, Vitória (1819-1901), que deixou sua marca, criando uma Era, na Inglaterra que era a grande potência, a "fábrica do mundo".

Mas, ao contrário da mãe, o Reino Unido recebeu a coroação de Edward VII (1841-1910) com algumas ressalvas.

Ele era o filho mais velho de Vitória e tinha naquele momento 59 anos, sendo conhecido era conhecido por ser mulherengo, glutão e dado a jogos de azar. Um de seus casos amorosos causou tal escândalo que muitos dizem que matou de desgosto seu pai, o Príncipe Albert (1819-1861), poucas semanas depois.

Mas Edward VII acabou sendo conhecido como O Pacificador, e seu reinado, mesmo que curto (apenas nove anos), foi crucial para algumas movimentações políticas no Reino Unido e na Europa.

Lançado originalmente em 1933, o livro traça seu perfil: um monarca repleto de contradições em um momento importante da história mundial, a passagem do século XIX para o XX – os impérios que dominavam o mundo no século XIX estavam para ruir com a Primeira Guerra Mundial, e um novo ator surgia com força no cenário político mundial: os Estados Unidos (antes de ser coroado, Edward VII foi o primeiro membro da Casa Real Britânica a visitar oficialmente a antiga colônia). Enquanto o mundo se contorcia em mudanças – o cinema e o carro tinham acabado de ser inventados –, Edward VII tentava arrumar a própria casa contendo os ânimos de conservadores e liberais que brigavam por uma nova Constituição.

Embora não devamos mais fazer uma história de grandes personagens, olhando para os múltiplos grupos que compõe as sociedades, o livro nos ajuda a entender o particular e a partir dele procurarmos criticamente analisar o mais amplo daquele dado momento histórico.

Edward, que viveu a Belle Époque, reinou de 22 de janeiro de 1901 até sua morte, em 6 de maio 1910, ou seja, não viu a Guerra acontecer, mas foi testemunha da corrida armamentista e das alianças do momento, como príncipe e como rei, e com certeza deve ter imaginado em seus últimos dias que as coisas, do jeito que estavam, bem não iriam continuar.

André Maurois, o autor, como dizem sempre fascinado pelos meandros da nobreza britânica, disseca esses jogos de poder em um livro indispensável para quem gosta de história e política.

PARA ADQUIRIR O LIVRO: acesse.vc/v2/dc534359


livro edward vii


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sexta-feira, fevereiro 19, 2016

"O senhor dos Anéis" e a Primeira Guerra Mundial





O que há em comum entre a saga O senhor dos anéis, de JRR Tolkien e a Primeira Guerra Mundial? Veja nessa postagem.

A relação entre a história original de JRR Tolkien, que deu origem a sequência de filmes de Peter Jackson, e a Primeira Guerra não são resultado meras coincidências. Tolkien esteve no front, sendo um dos que escaparam com vida, fazendo parte da chamada Geração Perdida, aquela dos milhares de artistas, escritores e músicos que marcaram presença na Grande Guerra.

Tempos atrás John Rhys-Davies, que estrelou Gimli na adaptação para o cinema feita por Peter Jackson de O senhor dos anéis, fala sobre a experiência de JRR Tolkien na Primeira Guerra Mundial. Mostra a sorte tida pelo autor, no auge dos seus vinte poucos anos, ao contrair a "febre das trincheiras" que o livrou dos combates no Somme

O livro seria lançado em 1954, construindo uma história imaginária da Terra Média, habitada por orcs, alfos, hobbits, bruxos, anões e outras criaturas fantásticas. 

Sua relação com a realidade, suas comparações, podem ser vistas em diversas passagens e aspectos do livro de Tolkien, como alguns que seguem.

Máquinas e monstros

Em O senhor dos anéis, o gigante, elefante como Mûmakil, ou Olifantes, são descritos como "cinzas vestidos movendo morros", pondo abaixo tudo em seu caminho como tanques, com os cavalos de Rohirrim assustados a correr para qualquer lugar. Um exemplo mais evidente do "raiar das metralhadoras" pode ser visto na primeira história da Terra Média, The fall of Gondolim, escrito quando Tolkien estava no hospital se recuperando da "febre". Na trama, o Senhor das Trevas Morgoth sitia a cidade élfica de Gondolin com máquinas de destruição extremamente poderosas na forma de serpentes e dragões comparáveis aos monstruosos tanques do Front Ocidental.

Os gritos de Nazgûl

Nas nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial névoa e fumaça podem obscurecer cavaleiros mas não seus cavalos, e máscaras de gás podem distorcer suas falas para sibilações e fungados. Os Nazgûl de Tolkien, ou Ringwraiths, em comparação, estão cobertos por pesadas capas pretas para disfarçar sua verdadeira (senão invisível) forma, sibilam nas pessoas e farejam enquanto procuram pelo Anel.

Os sons que produzem são algo semelhante ao som das bombas voando pelo ar antes de explodir. O efeito psicológico que o som da artilharia provoca nos soldados (impacto de bomba) é comparado ao efeito dos gritos de Nazgûl. Tolkien falou a respeito dos gritos de Ringwraiths: "mesmo o corajoso pode lançar-se ao chão quando a ameaça paira sobre ele, ou ele pode ficar, deixar suas armas caírem das mãos confiantes enquanto em sua mente vem uma negritude, e eles não pensam mais em guerra, mas apenas em se esconder e rastejar, e morrer".


Ringwraiths de O senhor dos anéis (topo) e
 soldado de cavalaria alemão na Primeira Guerra

Sam Gamgee e o Tommy

A experiência de guerra de Tolkien deixou-o com "uma "profunda simpatia e sentimentos pelo 'tommy', especialmene o soldado raso das regiões agrícolas". Ele baseou o personagem Samwise Gamgee nos soldados comuns que ele conheceu durante a guerra, homens que mantiveram sua coragem e permaneceram animados quando não havia muitas razões para esperança. 

Oficiais como Tolkien foram geralmente homens de alta classe social, sendo indiferentes ao fato de ter alguma experiência militar. Eles frequentemente designavam um soldado de uma patente inferior para cozinhar, limpar e lavar seus uniformes. Os oficiais e seus homens, conhecidos como "batmen", frequentemente criavam fortes laços. Não era incomum, se o oficial tivesse morrido no front de batalha, encontrar seu "batman" morto ao lado dele.

Tolkien foi muito afetado pelos seus relacionamentos e usou-os para moldar o vínculo entre Frodo e Sam. Os bolseiros tem um vínculo social constante no Condado de Gamgees e durante todos os livros Sam se refere a Frodo como "Mestre" ou "Sr. Frodo". 

"Meu Sam Gamgees é deveras um reflexo do soldado inglês, dos soldados rasos e dos 'batmen' que eu conheci na guerra de 1914, reconhecidamente tanto mais superiores que eu mesmo", disse Tolkien. Sam carrega tanto as suas como as mochilas de Frodo em sua jornada; ele cozinha e limpa para ambos e protege Frodo ferozmente. No final da narrativa há do afeto existente entre Frodo e Sam para ajudar um ao outro a sobreviver aos horrores do Anel.


Frodo e Sam

Alegoria da guerra?

O mesmo John Rhys-Davies conversa a respeito da alegoria da Primeira Grande Guerra com a Dra. Dimitra Fimi (veja o vídeo abaixo), estudiosa de Tolkien e professora de inglês na Cardiff Metropolitan University. Para ela, Tolkien se recusava a ligar sua história à Segunda Guerra Mundial e a figura de Hitler especialmente, procurando se ater ao que já era bastante marcante para ele, aquela guerra que ele e tantos outros acreditavam ser a guerra que ensinaria algo a humanidade e portanto que não haveria outra igual. Havia até um comentário de que o Anel seria uma alegoria da bomba atômica, mas isso também foi negado, segundo ela. 




O trauma hobbit


Traumas foram correntes sobre os homens de ambos os lados da Terra de Ninguém,  e no fim do conflito em torno de 80.000 soldados britânicos foram tratados dessa doença. Os sintomas incluiam alucinações vívidas e pesadelos onde se revivia eventos traumáticos, ansiedade e depressão, entorpecimento emocional e mudanças de personalidade. Tolkien teria estado ciente dos efeitos do tempo no hospital e na linha de frente. Ele apresenta uma visão compassiva n'O senhor dos anéis da aflição de Frodo com a condição de carregar e depois ter que destruir o Anel. 

Mesmo antes de chegar a Mordor, Frodo experimentou cegueiras repentinas temporárias em algumas ocasiões, um sintoma comum do trauma, e quando ele chegou próximo ao Monte Doom experimentou a perda do paladar e do olfato, tremedeiras incontroláveis, exaustão e ataques de ansiedade. 


Homem desconhecido sendo tratado 
por causa de trauma de guerra

Pacifismo e abstinência


Tendo retornado ao Condado, uma mudança na personalidade de Frodo se tornou evidente. O condado está cheio de criminosos e baderneiros. E quando Merry e Pippin conclamam os hobbits às armas, Frodo recusa-se a tomar parte e insiste que nenhum seja machucado ou morto.

Soldados traumatizados, como por exemplo o poeta Siegfried Sassoon, tornaram-se pacifistas depois da guerra. Muitos também perderam o interesse em coisas que alguma vez gostaram, e se isolaram da sociedade como uma forma de auto-proteção das reminiscencias de suas experiências traumáticas. Enquanto Merry, Pippin e Sam se reintegram à vida no Condado, Frodo silenciosamente se retira e é atormentado por reminiscencias terríveis e pesadelos.


Frodo e o poder do anel

Fact or falsehood?


No site consta ainda uma espécie de tirateima intitulada Verdade ou mentira (Fact or falsehood?com perguntas sobre a relação da ficção de J.R.R. Tolkien com a realidade das guerras que viveu.

Por fim, os vídeos a que me referi podem ser assistido logo abaixo. O único inconveniente é que o conteúdo está em inglês e sem legenda.


Dica do blog:


J. R. R. Tolkien
de R$ 59,90 por R$ 52,70
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Vídeo 1
(caso não abra, clique em "View this content on the BBC site")



Vídeo 2
(caso não abra, clique em "View this content on the BBC site")




VEJA NOSSO ESPECIAL PRIMEIRA GUERRA 100 ANOS!


* Originalmente postado em 23/ago/2014.

** O conteúdo desse texto é uma tradução feita por nós do conteúdo disponível no site da BBC, que pode ser consultado no link: http://www.bbc.co.uk/guides/zgr9kqt

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domingo, junho 29, 2014

Especial Primeira Guerra (FINAL): a guerra que não termina




Estamos finalmente encerrando a série sobre a Primeira Guerra Mundial e o que podemos dizer a princípio é que os saldos dela foram monstruosos. Mas será que houve algo de positivo em tudo o que aconteceu? Será que aprenderam a lição? É o que tentaremos descobrir nesta postagem.

Os números da Guerra assustam a quem para para observá-los. Foram cerca de 9 milhões de mortos e 20 milhões de feridos - o número de mortos é aproximado porque, como digo aos meus alunos, ninguém contou as partes separadas dos corpos que foram destruídos em ação. A Alemanha é o país que mais perdeu homens: quase 2 milhões de mortos, enquanto os Estados Unidos foram os que menos perderam (116 mil mortos) - claro que isso tendo em vista a sua entrada tardia, apenas em 1917. 

Para nos ajudar a entender a situação, vejamos uma lista** de quantos homens participaram e o número de mortos entre os principais países envolvidos:

Grã-Bretanha: 9.500.000 homens (1 milhão de mortos);
França: 8.200.000 homens (1,5 milhão de mortos);
Rússia: 13.000.000 homens (1,7 milhão de mortos);
Itália: 5.600.000 homens (533 mil mortos);
Estados Unidos: 3.800.000 homens (116 mil mortos);
Alemanha: 13.250.000 homens (1,95 milhão de mortos);
Áustria-Hungria: 9.000.000 homens (1,05 milhão de mortos);
Império Otomano: 2.850.000 homens (325 mil mortos);

Claro que os números acima não incluem as perdas dos chamados “exércitos coloniais”: forças convocadas dos países dominados pelo Imperialismo. Há um cálculo de que pelo menos 2,5 milhões de africanos e 1 milhão de indianos participaram de alguma forma da Guerra. E nessa sua participação, houve um vislumbre de liberdade, com promessas não cumpridas, mas que levam a uma maior mobilização, que em muitos casos serão completadas com o desenrolar da Segunda Guerra

Claro, também, que a Primeira Guerra não deixou apenas um rastro de mortes, mas um incalculável contingente de feridos e mutilados -  foram cerca de 20 milhões. Pessoas que tiveram que aprender a viver sem membros, com rostos desfigurados (ou quase sem eles) ou com traumas psicológicos, por vezes, irreparáveis. Os Estados Unidos, por exemplo, além das 116 mil mortes, teve um número aproximado de 204 mil feridos. Já para os franceses o número é de 2 milhões de feridos.



O pôster acima, produzido em 1919, pouco depois da Primeira Guerra, é de uma exposição do Instituto da Cruz Vermelha para Homens Incapacitados e Inválidos dos EUA e do Instituto da Cruz Vermelha para Cegos. Após a guerra, a Cruz Vermelha, junto com outras organizações privadas, ajudou veteranos incapacitados fornecendo terapia ocupacional, ensinando-lhes novas habilidades e fornecendo assistência às famílias dependentes de veteranos hospitalizados. As ilustrações aqui apresentadas mostram uma cena em que homens incapacitados aprendem a soldar, e outra em que um homem com um braço parcialmente amputado opera um maçarico para soldagem. Lê-se nas legendas “Homens incapacitados aprendem soldagem por oxiacetileno no Instituto da Cruz Vermelha para Homens Incapacitados e Inválidos na cidade de Nova York” e “Seu braço bom permite que ele use o maçarico tão bem quanto os trabalhadores que dispõem de ambos os braços”



Já na imagem acima podemos ver a loja dos "narizes de lata", de Anna Coleman Ladd, na Londres do pós-Guerra. Uma loja de mascaras, onde se pode imaginar a demanda por seus serviços pelas “faces” penduradas.



Um outro importante resultado da Guerra, geograficamente falando, é a reconfiguração a que passou a Europa. No mapa acima, feito por volta de 1920, pela editora britânica G.W. Bacon & Co., Ltd. podemos ver a Europa pós Primeira Guerra Mundial. Entre as mudanças políticas e territoriais estavam a dissolução dos impérios Austro-Húngaro e Otomano, a derrota do governo czarista na Rússia, o estabelecimento ou o re-estabelecimento de Estados independentes da Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia, Tchecoslováquia e Iugoslávia, a cessão da Alsácia-Lorena da Alemanha para a França, e a expansão do território italiano a fim de incluir a região em torno de Trieste. O pequeno mapa inserido no canto superior direito mostra as densidades populacionais, que vão desde o muito pouco povoado norte da Escandinávia até as densamente povoadas regiões da Alemanha ocidental, os Países Baixos e o sul da Inglaterra. O mapa apresenta uma população total na Europa de 475 milhões de pessoas.

Sobre a situação da Rússia, vemos a ocorrência da Revolução de Outubro, já em 1917, que trouxe esperança para alguns e ameaçou outros. Trabalhadores russos se sentiram diante da possibilidade de construir uma sociedade nova e diferente da exploração de classes, que compunha o outro lado, o dos capitalistas, que viam seu sistema passar por um momento de incerteza e crise. E se as décadas seguintes viriam mostrar as fragilidades (ou diríamos exageros) dessa nova sociedade, que se concentrou politicamente quando devia ser um governo comum, tendo Stalin como seu ditador e o uso do terror para controle do Estado, por outro lado, não podemos ser inocentes, devendo avaliar, ao menos em parte, desapaixonadamente o que se passou. De qualquer forma, fica para uma próxima postagem esse assunto extremamente específico e polêmico.

Mas voltando aos resultados da Grande Guerra, para encerrar, o que temos em novembro de 1918, é que o que parecia ser uma lição para a humanidade, para que não houvesse outra guerra como essa, não se concretizou. O Tratado assinado, o de Versalhes, bem ao interesse dos franceses, não agradou os alemães (e nem poderia); a Liga das Nações, ancestral letárgica da ONU, não deu conta do recado; as velhas rivalidades se mantiveram, com algumas alterações e novos personagens, deixando espaço nas décadas que se seguiram de trégua para o cultivo de ideias ainda mais nocivas e destrutivas, como serão o Nazismo e o Fascismo, sobretudo a partir da década de 1930, quando se começará a vislumbrar no horizonte (embora não como fosse como um vidente a prever o futuro) os sinais da Segunda Guerra Mundial.


Veja as outras partes:



Fontes:

* Imagens, incluindo a do topo mostrando uma menina ladeada por rifles, extraídas dos sites:
  • http://www.nadacerto.com.br/10-imagens-impressionantes-da-primeira-guerra-mundial/
  • http://www.nadacerto.com.br/30-fascinantes-fotografias-em-cores-da-primeira-guerra-mundial/
  • http://www.wdl.org/pt/
** BBC: A guerra para acabar com todas as guerras (em inglês)
*** First World War (multimídia em inglês): http://www.firstworldwar.com/


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sábado, junho 14, 2014

Especial Primeira Guerra (parte 03): cenas de batalhas (com vídeos)





Nesta postagem montamos uma coleção de alguns momentos importantes registrados em vídeos históricos. São cenas de algumas das principais batalhas da Primeira Guerra Mundial, grande parte ainda inéditas para a maioria das pessoas. Com os vídeos seguem comentários nossos, traduções de um série tratando da Batalha do Somme e um clipe da música  Paschendale, da banda Iron Maden!

De maneira didática, podemos dividir a Primeira Guerra em 3 fases: Guerra de movimento, nos anos iniciais do conflito, incluindo o jogo de alianças e as hostilidades; Guerra de Trincheiras, que consistiu na construção de trincheiras em solo francês; e a Nova Guerra de movimento, onde foram introduzidas novas armas como as metralhadoras e os tanques e teve como novidade a entrada dos Estados Unidos, em 1917. 

Na lista das batalhas importantes da Primeira Guerra temos: Galipolli, Marne, Verdun, Somme, Jutlândia, Arras e Ypres. Destacaríamos as Batalhas do Somme e de Verdun como as mais decisivas. 

E para ilustrarmos e comentarmos um pouco sobre algumas delas, seguem alguns vídeos, alguns dos quais sem som, mas igualmente interessantes pelos registros feitos!


Batalha do Marne

Os combates no Marne tiveram dois grandes momentos: um em 1914 e outro já em 1918. No primeiro momento, na Primeira Batalha do Marne, o período foi de 5 de Setembro a 12 de Setembro de 1914. Tratou-se de uma importante vitória da Entente sobre a Alemanha, em um dos momentos que se mostraram decisivos na Primeira Guerra Mundial. Já a chamada Segunda Batalha do Marne (também conhecida como Batalha de Reims) ocorreu entre 15 de julho e 5 de agosto de 1918 e foi a última importante ofensiva alemã na Frente Ocidental. As coisas não correram como o esperado, e a ofensiva falhou quando a Entente, liderada pela França, contra-atacou e subjugou os alemães, impondo-lhes muitas baixas.

No vídeo abaixo, vemos um grupo de soldados franceses em pé e ao redor uma área devastada. É uma cena dExército francês na batalha do Marne. Ele mostra soldados em pé ao redor de um grande veículo blindado (possivelmente capturado do inimigo). Dois dos homens estão enrolando arame farpado em um novelo. Há um soldado na extrema esquerda sentando e escrevendo uma carta, visto apenas muito brevemente.


Batalha de Verdun 

A Batalha de Verdun, ocorrida na Frente Ocidental, entre 21 de Fevereiro a 18 de Dezembro de 1916, colocou frente a frente franceses e alemães, num terreno cheio de elevações a norte da cidade de Verdun-sur-Meuse, nordeste de França. Há estimativas de 714.321 mortos - 377.231 do lado francês e 337 000 do lado alemão*** (outros dizem que o número passou de 900 mil!). Foi a batalha mais longa da Primeira Guerra, e uma das mais devastadoras em termos de baixas em comparação com outras guerras ao longo da História. 

As cenas que podem ser vistas no vídeo a abaixo são de muita ação, por terra e pelo ar. Em momentos variados, podemos ver tropas francesas em movimento em meio ao fogo cerrado, com disparos de arma Big, explosões, passagem de arames farpados, névoa; um oficial falando no telefone de campo e operadores de código Morse. Podemos ver também soldados sentados ao lado da encosta, no meio da destruição e ainda soldados andando ao longo do cume e com vista do alto sobre campo aberto. Talvez uma das cenas mais interessantes (para nós, claro) seja a de um avião caindo depois de ser atingido.




Batalha do Somme


Mais uma das batalhas conjuntas entre França e Inglaterra, foi travada entre julho e novembro de 1916. O objetivo era romper as linhas de defesa alemãs, ao longo de 12 milhas (19 km), estacionadas na região do Rio Somme (França). Objetivo que não foi alcançado, deixando, no entanto, um assustador número de baixas: de 1.650.000 soldados destacados (somando os dois lados), foram pelo menos 1,2 milhão de vítimas (entre mortos e feridos), em cinco meses de combate. Foi uma das operações militares mais violentas da História da humanidade e, pelos parcos ganhos territoriais (cerca de 300 quilômetros quadrados), foi, uma das mais inúteis. Nessa batalha estrearam os tanques de guerra. 

"Com o som de metralhadoras e explosões que alguns disseram poder ouvir em Westminster, a Batalha do Somme começou em 3 de julho de 1916. Ela chocou o mundo com a carnificina e, no final, mostrou sua futilidade. 

A ideia tinha sido, segundo disseram os generais, avançar 4 mil metros através do campo de papoula da Picardia no primeiro dia, e então apertar o Exército alemão fora de suas posições entrincheiradas. Estes seriam então perseguidos, numa rota, cruzando um terreno indefeso. E então o maior contingente militar que a Grã-Bretanha jamais enviou, com cada voluntário, começava a avançar ao longo de 15 milhas de front. A realidade disso tudo provocou um profundo choque. 

O fulminante fogo de metralhadoras alemãs cortou as tropas que avançavam com tal precisão que milhares morreram nos primeiros 15 minutos de batalha. Ao cair da noite, no fim do primeiro dia, as forças britânicas não tinham conseguido substanciais avanços territoriais. Mas, as perdas tinham sido horríveis. 60 mil tinham sido mortos ou feridos em questão de horas. 

De volta à Grã-Bretanha, quando a imagem real da batalha começou a emergir,  havia muitos protestos públicos, e um crescente movimento anti-guerra começava aparecer e a luta contra o nacionalismo patriótico da grande maioria também. Longe de querer que a Guerra acabasse, este grupo de patriotas foi às ruas para que continuasse os confrontos de forma mais intensa. No nível político, um resultado direto da Campanha do Somme foi a mudança na liderança da Coalizão Governamental. O Primeiro Ministro, Herbert Asquirth, disse ao rei George V que ele não podia mais suportar as críticas persistentes de sua liderança na imprensa. 

Depois de muitas plotagens e trapaças de alto nível, David Lloyd George foi apontado para suceder Asquith, e imediatamente anunciou um novo estilo de gabinete, incluindo o jovem Winston Churchill, que iria prosseguir vigorosamente com o esforço de guerra. De volta nos campos de batalha dos Flandres, os horrores do Somme foram logo substituídos por histórias de muitas outras lutas épicas, de como a Primeira Guerra foi prolongada por por dois anos. 

Mas, como muitos diriam depois, ela realmente foi um caso de leões liderado por burros".


Ypres

Foram 4 as batalhas de Ypres (há quem diga que foram 5), entre 1914 e 1918. E é tomando uma delas que terminarmos, ao menos por enquanto. Usamos para isso o clipe da banda Iron Maiden, interpretando a música Paschendale, outro nome da Terceira Batalha de Ypres, com cenas de Nada de novo no front (All quiet on the western frontTV Remake de 1980). Tratou-se de uma batalha encarniçada, com reviravoltas, que só terminou em novembro quando o Corpo Canadiano capturou Paschendale (ou Passchendaele, segundo variantes), situada na última colina a leste de Ypres, a 8 km de um entroncamento ferroviário em Roulers, uma parte vital do sistema de abastecimentos do Quarto Exército alemão. 

É como diz a música, uma comemoração dos horrores, uma vista sobre os corpos dos nossos e de nossos inimigos, onde "o mar da morte transborda / Na terra de ninguém só deus sabe / Para as mandíbulas da morte nós vamos" (veja a tradução completa, clique aqui). 






* Imagem do topo: soldados e corpos entrincheirados na Frente Ocidental. Retirada da internet, sem informações de fonte.

** Com exceção do clipe da banda Iron Maiden, todos os demais vídeos aqui utilizados foram disponibilizados pela British Pathéwww.youtube.com/user/britishpathe.

*** The Battle of Verdun 1916 - the greatest battle ever http://www.wereldoorlog1418.nl/battleverdun/index.htm#battle02

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