História Econômica, o que seria? | José A. Fernandes ~ Identidade 85 ::

quarta-feira, maio 06, 2020

História Econômica, o que seria? | José A. Fernandes



Em diversas das minhas postagens vocês devem ter percebido que deixo "escapar" elementos de História Econômica. Acontece que muitos que não são historiadores de formação vão se perguntar: que diabos é isso? 

Sem querer ser muito técnico, posso dizer que a História Econômica é a abordagem da História e também da Economia que estuda as diversas formas de troca entre os seres humanos, monetárias ou não, suas relações de mercado, comércio, além das relações de trabalho e diversas formas de interações econômicas.  

Bom, antes que alguns se manifestem e aleguem uma certa monotonia deste "tipo" de História, tenho que deixar claro que a minha forma de abordagem, que muitos outros também praticam, vem dando espaço para métodos e fontes que não teriam espaço na história econômica "tradicional". Eu procuro não limitar minha visão e uso algumas técnicas que as vezes geram estranheza nesta área, como a imaginação, que serve justamente para imaginar possibilidades e explicações que as fontes por vezes não nos dão completamente. Faço uso também das técnicas da História Oral, como fiz nas pesquisas do Mestrado, como já notaram em algumas postagens sobre a erva-mate, a Colônia Agrícola Nacional de Dourados (CAND) ou a Marcha Para Oeste de Getúlio Vargas.

É difícil resumir em um texto curto como este o que seja História Econômica, afinal, isso sempre foi e é um assunto para muitos estudos sobre teoria e métodos de pesquisa e que é bem mais complexo quando o adentramos. Só para citar superficialmente, esses estudos e discussões já envolveram e envolvem coisas tais como a História Quantitativa, a História Serial, a História do Pensamento Econômico, a História de Empresas, História Econômica Geral, de uma Nação, região ou local. 

Por vezes se fez uso de ferramentas tais como econometria, análise de preços, estudos de contas e movimentação comercial (com atenção, por exemplo, para balanças de pagamento e balanças comerciais). Entre as muitas fontes, têm-se os dados estatísticos, documentos escritos ou mesmo depoimentos orais (além das muitas formas de documento aceitos atualmente), dos inventários post mortem, anúncios de jornais (ex: classificados de escravos no período colonial e no período imperial brasileiros) e as fontes seriais. 

Interessante que a História Econômica é um campo de estudo relativamente compartilhado. Isso porque coloca lado a lado Historiadores e Economistas, nem sempre em comum acordo. Por vezes houve e há discordâncias e mesmo correntes de pensamento que foram e são antagônicas, como a marxista e escola clássica. Estão em toda parte também já há algum tempo as discussões em torno do Neoliberalismo, com defensores e críticos.

Durante muito tempo a História Econômica foi predominante em muitos programas de pesquisa e revistas especializadas. Isso era muito visível na História que se escrevia, mas ela tem perdido muito espaço nos últimos 30 ou 40 anos, especialmente para as abordagens culturais e social da História - mas não só. 

De qualquer forma, posso ainda dizer que a História Econômica atualmente precisa ir além, se quiser sobreviver. Ela deve - como já deveria ter feito há bastante tempo - prestar atenção aos aspectos e tramas econômicos da sociedade, mas tentando sempre não limitar a visão sobre a História, dando atenção aos aspectos da vida cultural, da vida política e social nos espaços e contextos, enfim, às muitas esferas da existência, como diz Fernando Novais. 

Eu tenho aprendido muito com renomados historiadores e estudiosos do Brasil colonial e contemporâneo, como Celso Furtado, Caio Prado Jr. e Sérgio Buarque de Holanda. Venho estudando ainda historiadores gringos, econômicos ou não, como Marc Bloch, Jacques Le Goff, Ernest Labrousse, E.P. Thompson e Eric Hobsbawm, além de outros tantos nomes conhecidos e outros nem tanto. Sem mencionar, embora tão importantes quanto, os muitos pesquisadores de temas sociais e políticos, em nível nacional ou regional, como, por exemplo, José de Souza Martins, Temístocles Linhares e Virgílio Corrêa Filho. 

Claro que não é fácil "encaixar" muitos dos conceitos e fórmulas dessas pessoas nos nossos textos, afinal, nem sempre suas ideias fazem ou parecem fazer sentido nos temas que escolhemos, mas, com uma leitura atenta, servem sim para que possamos encontrar semelhanças e mesmo elementos para comparação. Em último caso, servem também para a reflexão, mesmo que indireta da História - não apenas a Econômica -, essa "ciência" tão particular e múltipla que não pode ser limitada a apenas uma forma de abordagem. 

Por fim, é como diz o professor e amigo Paulo Cimó Queiroz, "no final, o que devemos saber é que o que estudamos é HISTÓRIA e ponto".


O cambista e sua esposa, 
de Marinus Claeszon Van Reymerswaele, 1539

* Imagem no topo do site A tela da reflexão.
** Texto originalmente postado em 8/dez/2012.

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