Identidade 85 ::

quinta-feira, julho 09, 2020

A Devastadora Peste Negra




Saber sobre a Peste Negra é muito importante nesse momento, conhecendo seus motivos, como ela se espalhou pela Europa e os seus efeitos tão devastadores. 

Nesse momento tenso, a História precisa estar entre nossas preocupações mais próximas, como um auxílio necessário nas reflexões. Com ela veremos semelhanças com o presente e com ela devemos aprender. Esse é o caso da Peste Negra, Peste Bubônica ou Morte Negra, que assolou a Europa por séculos, especialmente no século XIV (14), quando sua incidência foi maior e quase generalizada na Europa. 

Naquele período a Europa ainda vivia a Idade Média - a Baixa Idade Média -, que acabaria poucos séculos depois. Transformações já vinham ocorrendo, especialmente com o crescimento das cidades, o aumento do comércio e, consequentemente da importância do dinheiro. O século XIII (13) havia sido muito importante nesse sentido, havendo, segundo o historiador Jacques Le Goff no livro A Idade Média e o Dinheiro, uma grande movimentação comercial, especialmente no Mar Mediterrâneo (aquele que banha tanto o norte da África, como o sul da Europa, como ainda o Oriente). Devido ao revigoramento das cidades e do comércio por ele circulavam navios, mercadorias e pessoas, destacando-se, entre outras, as cidades italianas.

A Peste Negra teria então surgido nesse contexto, por volta do ano de 1346, ou seja, no século XIV (14). Trata-se de uma doença grave e muitas (muitas mesmo) vezes fatal causada pela bactéria Yersinia pestis. Para se entender melhor o que diremos a seguir, vale ainda dizer que ela se divide em 3 tipos: Peste bubônica ou Peste negra, quando se manifesta na pele, através de bulbos;  Peste septicêmica, quando a bactéria se multiplica no sangue; e a Peste pneumônica, quando é acompanhado do desenvolvimento de uma pneumonia. Em geral, dependendo do tipo, os sintomas incluem febre, dor de cabeça, cansaço, ínguas na pele (bulbos), dificuldades para respirar, tosse constante, sangramentos, podendo ainda a pele ficar negra por causa da morte dos tecidos (se quiser saber mais sobre sintomas e cuidados, clique aqui).

Mas voltemos à história. Segundo a versão mais comumente aceita, a Peste teria sido lavada para a Europa da Ásia nos navios mercantes, carregada pelos ratos que faziam companhia aos tripulantes. Ao chegar na Europa, pelos portos italianos ela teria se espalhado em velocidade assustadora, chegando a quase todo território europeu em poucos anos. Raras exceções foram apenas alguns locais que fazem parte de países existentes hoje, como Alemanha, Polônia e República Tcheca, além de pequenas "ilhas territoriais" na Itália, na França e na Espanha, que praticamente não foram atingidas.


Original by Roger Zenner (de-WP) Enlarging & readability editing by user Jaybear / CC BY-SA

Teriam contribuído para o seu espalhamento, entre outras coisas: as péssimas condições sanitárias da época, o que incluía a falta de saneamento adequado (quando existia) e a sujeira nos espaços coletivos das cidades que estavam em franco (e, por vezes desordenado) crescimento. Também os hábitos da população, que convivia com ratos, por exemplo, sem grandes constrangimentos. Além da comum impureza das águas. 

Depois que ela apareceu, teria contribuído para sua multiplicação o desconhecimento sobre a mesma - dizendo de início a igreja católica, por exemplo, que se tratava de um pecado grave cometido pelo povo, portanto, sendo a Peste um castigo de Deus. O que fez muitas pessoas irem às igrejas em busca de redenção, fato que só ajudou a espalhar ainda mais a Peste, inclusive para os clérigos. Ajudava a disseminar também o fato de as pessoas serem enterradas, pelo menos enquanto ainda havia espaço, nos terrenos das igrejas. 


Um médico nos tempos de Peste

Não ajudou muito também a medicina da época, que sabia quase nada do que se tratava, que era muito rudimentar e pouco fazia além de cumprir um papel paliativo, de alívio para alguns doentes. Mas, ao mesmo tempo, acabava ajudando a transmitir para outras pessoas, inclusive para os próprios médicos.

Não podemos esquecer que por esse período, tomar banho não era uma prática muito comum, não sendo raro as pessoas tomarem banho apenas uma meia dúzia de vezes NO ANO! Aliás, muitos acreditaram - pelo menos por um tempo - que tomar banho ajudava a espalhar a Peste!

Enfim, vale ainda dizer que, conforme o número de mortos aumentava, passou a não haver mais lugar para enterrar os corpos, o que acabou levando, não raras vezes, a enterros coletivos e mal feitos. Nem precisa dizer que muitos desses túmulos coletivos acabavam ajudando a propagar a Peste, já que, entre outras coisas, contaminavam solos e lençóis freáticos. Em Paris, por exemplo, que era uma das maiores cidades daquela época, muitos foram "enterrados" em tubulações de esgoto, que foram depois lacradas, acumulando uma pilha de esqueletos, como na foto abaixo.




Somando esses e outros fatores, os números são macabros: há estimativas que colocam as mortes entre 75 e 200 milhões! Isso representaria mais ou menos 1/3 da população europeia, que na época se considerava o centro do mundo - ou o próprio "mundo" mesmo. Cidades e regiões inteiras ficaram vazias - inclusive castelos, cuja higiene é maquiada em filmes e séries por aí para parecerem mais clean. Os efeitos da Peste Negra seriam tão significativos na redução demográfica que os níveis populacionais europeus do período anterior à mesma só seriam recuperados no século XVII! 

O impacto da Peste Negra foi tão grande na vida e mentalidade das pessoas, que como resultado, surgiu a alegoria artístico-literária do final da Idade Média que recebeu o nome de Dança Macabra.


 dança macabra

E o que contribuiu para "erradicar" a Peste? Ela não desapareceu depois do século XIV, tendo voltado de forma intermitente nos séculos seguintes, até diminuir drasticamente no século XIX. Com o tempo as condições de higiene foram melhorando significativamente, muitas pessoas foram se conscientizando - inclusive da necessidade de manter espaços públicos e privados mais limpos e, inclusive, da necessidade de tomar mais banhos. Além disso, estudos foram surgindo, ações mais eficazes foram sendo tomadas por governantes e populações em geral.

E hoje em dia, ela ainda existe? Segundo a Infectologista Sylvia Hinrichsen em seu site Tua Saúde,

"Nos dias de hoje é bastante rara, sendo mais frequente em alguns locais da África subsariana e nas ilhas de Madagáscar, por exemplo. Já no Brasil, os últimos casos relatados foram após o ano 2000, com apenas três casos em todo o país, na Bahia, no Ceará e no Rio de Janeiro.


Quando existe suspeita de peste negra é muito importante procurar ajuda médica o mais rápido possível, pois em pessoas que não fazem o tratamento em 48 horas as chances de cura são muito reduzidas".



Aproveite também para assistir ao mais novo vídeo do nosso Canal!

Se estiver recebendo a mensagem pelo e-mail, clique aqui para assistir

Nova edição!
 livro peste negra
A Grande Mortandade
 John Kelly 
Clique aqui!

Mapa: https://pt.wikipedia.org/wiki/Peste_negra#/media/Ficheiro:Bubonic_plague_map.PNG


* originalmente postado em 24/mar./2020

Compartilhe:

segunda-feira, julho 06, 2020

Historiadores em Perfil: Eric Hobsbawm




Ele foi sem dúvida um dos mais importantes historiadores do século XX. Dono de uma produção vasta, densa e meticulosa, dedicada ao capitalismo, às transformações culturais e sociais e à história do marxismo. 

Eric John Ernest Hobsbawm nasceu em 1917, às vésperas do fim da Primeira Guerra. Era filho de pai inglês e mãe austríaca, ambos judeus. Nasceu em Alexandria, no Egito, num tempo em que aquele país estava dominado pelos ingleses, tendo isso - somado à sua filiação paterna - garantido sua nacionalidade britânica. 

A infância passou entre a Áustria e a Alemanha, em tempos difíceis para ambos os países. O primeiro sofrendo o impacto da separação do finado Império Austro-Húngaro e o segundo país, como já sabem, por sua condição de "grande perdedor" e "único culpado" da Grande Guerra. A coisa ficaria ainda mais complicada com a morte do pai em 1929, e sua mãe apenas dois anos depois. Ele e sua irmã foram então adotados pela tia materna, Gretl, e por seu tio paterno, Sydney. Foi com eles que Eric Hobsbawm se mudou para Londres em 1933 - num momento em que o nazismo passava a dominar a Alemanha.

É no novo país que ele começará sua jornada. Em 1936 ele entrou para o King's College, Cambridge, quando também ingressou no Partido Comunista, na forma do "Clube Socialista da universidade". Naquele universo passou a se destacar, tendo se doutorado em História pela Universidade de Cambridge com sua tese sobre a "sociedade fabiana".

Durante a Segunda Guerra, Hobsbawm serviu na Royal Engineers e na Army Educational Corps.

Mas a jornada não foi tranquila. Dada sua ligação com o Partido Comunista, em 1942 a MI5 (serviço de segurança britânico) abriu um arquivo para a vida pessoal de Hobsbawm e esse monitoramento afetaria o progresso de sua carreira por muitos anos. Como exemplo disso, em 1945 ele se candidatou para a BBC (rede de TV pública) para um emprego de tempo integral para fazer transmissões educacionais para ajudar os ex-combatentes a se ajustar à vida civil depois de um longo período nas forças armadas e foi considerado "o candidato mais adequado". Acontece que a candidatura de Hobsbawm foi vetada pelo MI5, que acreditava que ele fosse "inoportunamente" aproveitar para "disseminar a propaganda comunista e recrutar pessoas para o Partido". Outro exemplo de como Eric Hobsbawm foi prejudicado por sua posição política foi que, em 1947, ele passou a lecionar no Birkbeck College, em Londres, de forma "limitada", como reader, mas só foi promovido a professor 13 anos depois, em 1970. Nessa mesma instituição ele se tornaria professor emérito em 1982. Nesse meio tempo, ele foi fellow no King's College, Cambridge, entre 1949 e 1955. Na mesma Cambridge, no entanto, ele teve sua ação lectureship (conferencista) negada por inimigos políticos.



Mas, esses obstáculos não impediram Hobsbawm de se destacar, com sua produção ou com suas ações acadêmicas. Ele ajudou a fundar a revista Past & Present em 1952 - revista que incluía outros importantes historiadores marxistas, tais como E.P. Thompson, Christopher Hill, Rodney Hilton e Dona Torr. Eric Hobsbawm foi professor visitante em Stanford nos anos 1960. Nos anos  1970, ele foi admitido como professor e em 1976 se tornou Fellow da British Academy. Ele foi eleito como Foreign Honorary Member da American Academy of Arts and Sciences em 1971 e como Fellow da Royal Society of Literature em 2006.


Formalmente, Hobsbawm se aposentou da Birkbeck em 1982, se tornando professor emérito em História - em 2002 se tornaria presidente da mesma Birkbeck. Ele seguiu ainda como professor visitante na The New School for Social Research em Manhattan, Nova Iorque, Estados Unidos, entre 1984 e 1997. Ele foi, até sua morte, professor emérito na New School for Social Research in the Political Science Department. 



Ele falava muitas línguas (alemão, francês, espanhol e italiano, fluentemente, além de português e catalão), o que contribuiu para disseminar suas obras mundo afora, além de poder acompanhar de perto diversas traduções de seus textos. Aliás, eis o ponto importante da vida de Eric Hobsbawm: sua produção. Foram inúmeros livros e artigos, publicados e traduzidos. Seu interesse era muito amplo, tendo englobado os mais variados aspectos da história. Houve espaço para cultura, sociedade, para o Jazz, para as Pessoas Extraordinárias

Partindo de sua base, o marxismo, e sempre tendo por perto a "história econômica (dos historiadores)", ele focou nos diversos elementos que levaram à formação do Capitalismo. Fez dos estudos das duas principais revoluções do século XVIII - a francesa e a industrial - uma obsessão. Estudou os efeitos dessas revoluções na consolidação do capitalismo liberal, observou as permanências e mudanças no século XIX, inclusive o uso das tradições por parte das elites, que para ele serviram para legitimar a "Nação" e os "nacionalismos". 



Estudou os impérios e o imperialismo, analisou as Grandes Guerras - inclusive a Grande Crise situada no intervalo entre elas -; atentou para a Guerra Fria e a bipolarização mundial - inclusive para o mundo depois do fim da URSS. Seu passeio pelos séculos de desenvolvimento, afirmação e busca de alternativa ao Capitalismo lhe renderam a quadrilogia A Era das Revoluções, A Era do Capital, Era dos Impérios e Era dos Extremos.

Deu atenção também para Marx, Engels e a história do marxismo, desde o século XIX até o esfacelamento da URSS em 1991. Disso resultou, entre outras coisas, a grande História do Marxismo, composta por 12 volumes, que ele organizou. Nesse sentido, nessa obra e em outras atentou para os revolucionários, os trabalhadores, os movimentos sociais (primitivos e modernos), as revoluções.



Se manteve comunista o quanto pode, tendo com o passar do tempo se desiludido em muitos aspectos e mudando de posição em diversos sentidos. Estudou a globalização, a Nova Ordem Mundial, a democracia (liberal), o terrorismo. Viu nascer o Novo Milênio, procurou falar sobre ele de forma posicionada; manteve alguma esperança em relação ao futuro, embora muita coisa o perturbasse, especialmente as novas formas de se fazer guerra, no "Terceiro Mundo", no Oriente Médio. Nos últimos anos de sua vida seguiu ativo, tendo encontrado tempo para compor uma coleção de conferências e artigos que ganhou o título de Sobre História; e teve tempo de fazer ainda uma autobiografia, ou melhor, falar sobre os Tempos Interessantes (de sua vida). 

Em sua vida acumulou polêmicas e críticas, muitas das quais infundadas - ou fundadas em visões políticas antagônicas. Ainda assim, não se negava a expor o que pensava. Quando perguntado em uma entrevista sobre seu envolvimento com o Partido Comunista e com o comunismo, Hobsbawm respondeu que "independentemente das mudanças que o mundo passou e consequentemente as suas próprias ideias, se via ao final da vida como alguém que teria lutado pela causa dos pobres, pela liberação dos povos dominados pelo imperialismo, pela mudança global necessária para um mundo melhor". 

Como já dissemos, ele buscava ir fundo nos temas que tratava, o que torna sua leitura "difícil" para alguns, especialmente para que está começando. Diríamos, entretanto, que, depois de ler algumas de suas obras, o que se tem com Hobsbawm é um "passeio de erudição". Como também já dissemos, ele se situou entre os principais historiadores do século XX, tendo sido lido e relido em diversos idiomas, tendo influenciado as mais diversas reflexões e pesquisas; tendo sido amplamente premiado pela sua vastíssima obra.

Eric Hobsbawm morreu em Londres, em 1 de outubro de 2012, aos 95 anos de idade.



Agora, caso queira conhecer mais sobre esse autor, existe uma série de entrevistas em inglês, algumas delas com legenda, no YouTube. Há diversas considerações sobre ele em diversos sites, prós e contra - cabendo aí o cuidado com os extremismos de quem pouco leu dele e só faz denegrir. Em termos de literatura, entre outros, há o livro Eric Hobsbawm: A Life in History, de Richard Evans. Outra opção é o volume 3 de Os Historiadores, organizado por Maurício Parada. Em espanhol há o livro Eric Hobsbawm y la historia critica del siglo XX, de Marisa Gallego. Já em inglês, dentre outros, há o livro Hobsbawm: History and Politics, de Gregory Elliott. Um debate interessante, do próprio Hobsbawm com outros autores saiu em A transição do feudalismo para o capitalismo.


Os livros desse autor:

Labour's Turning Point: Extracts from Contemporary Sources (1948)


The Jazz Scene (1959) / edição em português História Social do Jazz


Labouring Men: studies in the history of labour (1964) / edição em português Os Trabalhadores: Estudos Sobre a História do Operariado 

Pre-Capitalist Economic Formations (1965) / edição em português As Origens da Revolução Industrial


Bandits (1969) / edição em português Bandidos 


Revolutionaries: Contemporary Essays (1973) / edição em português Revolucionários: Ensaios Contemporâneos

The Age of Capital: 1848–1875 (1975) / edição em português A Era do Capital

Italian Road to Socialism: An Interview by Eric Hobsbawm with Giorgio Napolitano (1977)


The Age of Empire: 1875–1914 (1987) / edição em português A Era dos Impérios

Politics for a Rational Left: Political Writing, 1977–1988 (1989) / edição em português Estratégias para uma Esquerda Racional

Echoes of the Marseillaise: Two Centuries Look Back on the French Revolution (1990) / edição em português Ecos da Marselhesa: dois séculos reveem a Revolução Francesa 

Nations and Nationalism Since 1780: Programme, Myth, Reality (1991) / edição em português Nações e Nacionalismo desde 1780 


Art and Power: Europe Under the Dictators exhibition catalogue (1995)

On History (1997) / edição em português Sobre História

1968 Magnum Throughout the World (1998)

Behind the Times: Decline and Fall of the Twentieth-Century Avant-Gardes (1998)


Karl Marx and Friedrich Engels, The Communist Manifesto: A Modern Edition (1998)


Interesting Times: A Twentieth-Century life (2002) / edição em português Tempos Interessantes (autobiografia)

Globalisation, Democracy and Terrorism (2007) / edição em português Globalização, Democracia e Terrorismo 






Co-edição ou organização

The Invention of Tradition (1983, em parceria com Terence Ranger) / edição em português A Invenção das Tradições 

The History of Marxism (1982) / edição em português História do Marxismo (12 volumes) 

Livro destaque desse autor:

 livro hobsbawm
A Era dos Extremos
Clique aqui!

Para ver outros Historiadores em Perfilclique aqui!

* Essa postagem é só um guia rápido desse historiador. Se você souber de alguma incorreção ou tiver algum acréscimo de conteúdo a essa postagem, mande-nos nos comentários. Muito obrigado!


Assista a um vídeo nosso sobre Burguesia!

Se estiver recebendo a mensagem pelo e-mail, clique aqui para assistir

* originalmente postado em 18/mar./2020

Compartilhar: 

sexta-feira, julho 03, 2020

VÍDEO: Uma breve introdução ao Renascimento | José A. Fernandes




Como o título do vídeo diz, dessa vez quero fazer uma breve introdução sobre o que foi o Renascimento, ou os "renascimentos", europeus, nos mais diversos setores: sociais, econômicos, religiosos e culturais!


Se estiver recebendo a mensagem pelo e-mail, clique aqui para assistir

Um livro
 jean delumeau renascimento
Jean Delumeau  
Clique aqui!

Compartilhe:

quinta-feira, julho 02, 2020

Historiadores em Perfil: E. P. Thompson




Edward Palmer Thompson ou apenas E.P. Thompson fez escola, foi militante político, mudou de concepção e mudou também a forma de se analisar a sociedade capitalista e a forma de se fazer história. 

Ele nasceu em Oxford, em 3 de fevereiro de 1924 e morreu em Worcester, em 28 de agosto de 1993. Estudou em Cambridge e foi professor em várias universidades, dentro e fora da Grã-Bretanha. Foi, por exemplo, professor da Universidade de Warwick de 1965 a 1971 e, nos anos 1970, ensinou esporadicamente em universidades americanas. Teve ainda uma grande atuação na educação de jovens e adultos, em sistemas organizados tanto pelo Partido como pelas universidades em que ele atuou.

Sua orientação era marxista, mas passou por mudanças de pensamento, na forma como entendia o marxismo, e, como ocorreu com outros intelectuais marxistas, ele mudou a forma de entender a sociedade e a ação humana. Um dos pontos interessantes sobre a trajetória de Thompson é que ele (e outros historiadores ingleses) rompeu com a ortodoxia marxista, especialmente aquela dominada pelo "pensamento" stalinista. Nesse sentido, em seus estudos ele foi além do aspecto econômico - ou economicista -  que dominava os trabalhos e ações de político e pensadores marxistas de sua época. E. P. Thompson valorizou o papel do aspecto social e da cultura - do contexto cultural - na formação dos indivíduos e das sociedades, inclusive aquela em que viveu e militou ativamente. Ele valorizou o diálogo entre a história e as demais ciências sociais.

Thompson participou da Segunda Guerra Mundial, como muitos intelectuais da época. Sua participação se deu na Itália fascista de Benito Mussolini, onde foi sargento num regimento de tanques britânicos na Campanha da Itália (1943-1945). 

Depois dos conflitos, já no Partido Comunista Inglês, em 1946 ele integrou um grupo de estudos históricos marxistas junto com Christopher Hill, Eric Hobsbawm, Perry Anderson, Rodney Hilton, Dona Torr, dentre outros. 



Também depois da Guerra ele passou a militar por uma série de causas sociais diferentes e importantes, de forma teórica, através da publicação de livros e artigos, ou de forma prática, na ação direta em manifestações de rua e universitárias. Dentre essas estava a luta pela da paz mundial, contra as armas atômicas e contra as ações das duas potências que criticava, tanto os EUA como a URSS - mas também as ações da Grã-Bretanha. Se destacou também nas questões dos trabalhadores, em geral, e as que diziam respeito aos povos africanos, pela sua libertação do Imperialismo e sua autoafirmação. 

Uma mudança radical em sua posição política ocorreria em 1956. Depois do levante na Hungria e a repressão soviética que se seguiu e após também as denúncias de Nikita Khrushchev sobre os expurgos de Yosef Stálin, E.P.  Thompson rompeu com o Partido Comunista Inglês. Isso fazia parte do movimento mundial que ficou conhecido como New Left (ou Nova Esquerda), que envolveu no caso inglês outros historiadores marxistas, como os que citamos há pouco. Por essa mesma época, juntamente com John Saville, ele fundou o jornal dissidente Reasoner, que a partir de 1957 passou a se chamar The New Reasoner. Com esse jornal ficaria clara a sua oposição pública ao Stalinismo no Partido Comunista ― do qual era, havia muito tempo, dedicado integrante. A ação política passaria então a ser colocada acima do Partido e da ortodoxia marxista

Ele ainda atuou como pacifista anti-nuclear, especialmente nos anos 1980. Nesse último contexto, foi o líder de um movimento contra a instalação de mísseis de média distância norte-americanos em países da OTAN na Europa.



Seu trabalho mais conhecido é A formação da classe operária inglesa, lançado em 1963, em que analisa a formação da consciência de classe na Inglaterra antes, durante e como resultado da Revolução Industrial de fins do século XVIII. Nesse sentido, ele parte da classe trabalhadora em sua diversidade de origens, desde os artesãos que se tornariam proletários com a revolução; assim, analisa como esses agiam e como foram identificando cada vez mais os interesses que tinham em comum, tomando consciência de sua posição, formando associações e sindicatos... Para ele os trabalhadores não eram apenas dados de uma composição estatística, mas sim atores de uma vida/sociedade/história mais rica, além de complexa. Segundo o professor Jiani Langaro afirmou ao nosso blog, é importante destacar que 

"Para Thompson, a classe social não é uma estrutura formada pela Revolução Industrial. Mas ela estaria mais para um grupo social ou uma formação social, que é um termo que o grupo dele costumava utilizar, resultado da ação dos próprios trabalhadores, a consciência de classe que é produto da ação desses trabalhadores. Por isso ele busca a origem da classe trabalhadora no período pré-industrial, lá nas manufaturas, porque não seria a Revolução Industrial a criar a consciência de classe: seria esse trabalho e esse esforço de organização que vinha de antes".


 livro a formacao da classe operaria

Seu último grande livro se tornaria mais um clássico da Historiografia, Costumes em Comum, lançado em 1991. Nele Thompson deixaria transparecer todo seu interesse pela "cultura popular", analisada sob a perspectiva da "história vista de baixo". Trata-se de uma investigação do significado, da permanência e da transformação de certos costumes populares do século XVIII inglês. É uma história do trabalho, motins, radicalismo, crime, costume, lei, sedição e cultura populares, num diálogo com outras ciências, especialmente a Antropologia, o Direito e a Economia. Os objetos de estudo são os hábitos dos setores populares britânicos, como a defesa do uso comunal das terras quando da intensificação do processo de cercamentos, a venda da esposa em leilão como estratégia de divórcio, as novas noções de tempo trazidas pelo capitalismo industrial ou a cruel punição aplicada a quem desrespeitasse as regras dos vilarejos. "Esses costumes e tradições são estudados nesse livro como defesas de direitos imemoriais ou estratégias de manipulação da lei numa sociedade que se defrontava com as novas imposições do capitalismo" (nota da editora Companhia das Letras).



E.P. Thompson inspirou (e continua inspirando) muitos trabalhos e grupos de estudos no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Em nosso país, entre outros espaços dedicados à História Social e Cultural, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), por exemplo, se usa fartamente os trabalhos de E. P. Thompson como ponto de partida e referência. Segundo o professor Paulo Pinheiro Machado, 

"Thompson tem muita influência no Departamento de História da UFSC (forte influência em duas linhas de pesquisa: História Global do Trabalho e História Política no Mundo Contemporâneo) e há um Laboratório no Departamento de Sociologia Política (LASTRO), que tem publicado textos traduzidos até então inéditos do Thompson".

Se quiser saber um pouco mais sobre a influência de Thompson em nosso país, você pode baixar uma comunicação de Marcelo Badaró Mattos intitulada justamente E.P. Thompson no Brasil.

Agora, caso queira conhecer mais sobre esse autor, existe, entre outros, o livro E. P. Thompson: Política e Paixão, organizado por Ricardo Gaspar Müller e Adriano Luiz Duarte. Tem o e-book E. P. Thompson: História, educação e presença, organizado pelos professores Antonio de P. Bosi, Aparecida D. de Souza e Sérgio Paulo Morais. Há um outro, de autoria de Parry Anderson, intitulado Teoria, Política e História: um Debate com E. P. Thompson. Um outro, em inglês, de Tim Rogan, coloca Thompson ao lado de outros importantes críticos do Capitalismo, cujo título é The Moral Economists: R. H. Tawney, Karl Polanyi, E. P. Thompson, and the Critique of Capitalism. Também em inglês, tem o livro Doing History from the Bottom Up, de Staughton Lynd. Em meio aos inúmeros títulos temos ainda The Crisis of Theory, de Scott Hamilton, e Puritanism & Revolution, de Christopher Hill.


Os livros desse autor:



A Miséria da Teoria / título original The Poverty of Theory

Costumes em Comum (1991)/ título original Customs in Common / edição espanhola Costumbres en Común

A Economia Moral Revisitada

A Política e a Teoria







Agenda Para Una Historia Radical

La Guerra de las Galaxias / título original Star Wars: Self Destruct Incorporated

Más Allá de la Frontera: la Política de Una Misión Fracasada: Bulgaria, 1944




Communism of William Morris

Britain and the Bomb




Human Rights and Disarmament




Defence of Britain

Infant & Emperor

New Hungarian Peace Movement

Zero Option

Beyond the Cold War

Unknown Mayhew


Mad Dogs: The U.S. Raids on Libya



Panfletário Antifascista (edição com textos panfletários, com dois inéditos em português, download gratuíto)

Livro destaque desse autor:
 livro a formação da classe operária inglesa
A Formação da Classe Operária Inglesa
Clique aqui!

Para ver outros Historiadores em Perfil, clique aqui!

* Essa postagem é só um guia rápido desse historiador. Se você souber de alguma incorreção ou tiver algum acréscimo de conteúdo a essa postagem, mande-nos nos comentários. Muito obrigado!


Assista a um vídeo nosso sobre Burguesia!

Se estiver recebendo a mensagem pelo e-mail, clique aqui para assistir

* originalmente postado em 18/mar./2020

Compartilhar: 
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Humanos

Digite e tecle Enter para buscar!