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Especial Primeira Guerra (parte 04)

A hecatombe do século XX

Chimarrão

por Glaucus Saraiva

Historiadores em Perfil

Mary del Priore

Cantar con Sentido

Uma biografia de Violeta Parra

sexta-feira, junho 05, 2020

Historiadores em Perfil: Joel Rufino dos Santos




Ele foi literato e historiador, falou da África e dos negros no Brasil, combatendo por toda sua vida o grande mau que é o racismo. 

Joel Rufino dos Santos nasceu no Rio de Janeiro, em 1941, e no mesmo Rio morreria em 4 de setembro de 2015. Mas não sem deixar um rico trabalho dividido entre História e Literatura. Influenciado pela vó que lia pra ele, pelo pai operário-leitor e pelos gibis que adorava folear, ele traçaria uma trajetória premiada e amplamente reconhecida entre seus pares e tantos outros seus leitores e alunos.

Na década de 1950, depois de ler Introdução à Revolução Brasileira, de Nelson Werneck Sodré, decidiu estudar História. Aliás, ainda quando fazia o curso, foi convidado pelo mesmo Sodré para ser seu assistente no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB). Começava aí a sua carreira de historiador.



Foi no ISEB que, durante o governo João Goulart, se ligou ao movimento da História Nova, que ele mesmo chamava de "reforma de base da história". Parte de um movimento que tinha forte base política, esperava-se fazer uma "história crítica, que não fosse meramente factual". Estava inserida nesse contexto a proposta de escrita de dez livros, dos quais apenas 6 foram realmente escritos. Isso porque logo em seguida veio a Ditadura Militar no Brasil e Joel Rufino, como muitos outros teve que se exilar.

Em sua "peregrinação" no exterior passou pela Bolívia e pelo Chile. Voltou em 1966 ao Brasil e foi preso pelos militares, o que ocorreu, aliás, várias vezes nos anos seguintes. Tais prisões ocorreria por seu envolvimento com a luta armada contra a Ditadura - embora não tenha ele próprio pego em armas, antes apoiando o movimento, participando da "logística da Ação Libertadora Nacional (ALN)". 



O maior período em que esteve preso nos anos 1970 renderia inclusive um livro anos depois, Quando Eu Voltei, Eu Tive uma Surpresa. Livro esse que foi premiado com o Orígenes Lessa em 2000. Trata-se de uma série de cartas que enviava ao filho Nelson, na época com 8 anos, onde descrevia o dia a dia na prisão, mas procurava mostrar otimismo em relação a sua situação e à situação do país. Não é um livro de história, propriamente, mas tem muito de história, pois nele Joel, desenhando, brincando, dialogando, tenta  explicar que, precisamente pelo "pecado" de amar o Brasil e de fazer parte de sua história, estava preso ao cárcere, à saudade e à vontade de continuar lutando pelo povo brasileiro.

Com a anistia, a Joel Rufino foi permitido retornar à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Passou então a trabalhar em dois espaços, na Faculdade de Letras e na Escola de Comunicação, tendo depois se dedicado apenas à primeira. Ele escreveu muito em literatura, especialmente infantil, recebendo prêmios importantes por isso - dois Jabutis, com Uma Estranha Aventura em Talalai (1979) e O Barbeiro e o judeu da prestação contra o Sargento da Motocicleta (2008), além de ter sido duas vezes finalista do Prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da literatura infanto-juvenil. Mas, embora tenha feito uma escolha, uma predileção, sempre defendia a interdisciplinaridade, não abandonando a História, pelo contrário, contribuindo para o entendimento de temas importantes. 

Muitos de seus livros de ficção tem fundos, personagens e paisagens da História. O Dia Que o Povo Ganhou, por exemplo, é baseado no 2 de julho na Bahia - dia em que o povo foi às ruas festejar a independência do Brasil; Crônica de Indomáveis Delírios, quando da Revolução Pernambucana de 1817, a facção “francesa” teria acalentado o sonho de trazer Napoleão, então prisioneiro dos ingleses, para comandar seu exército; e Quatro Dias de Rebelião, baseado na Revolta da Vacina. Ou seja, ao escrever ficção ele estava impregnado de História.



De seus livros não ficcionais, especialmente de história, ele se preocupou com temas gerais, a começar pelo curto trajeto da História Nova, abarcando assuntos como o "descobrimento", a ocupação do território (por portuguese ou não), o uso da mão de obra - especialmente a africana -, a independência, o advento da República - inclusive, claro, a abolição. Ele também se interessou por personagens da nossa história, tendo feito biografia de Zumbi dos Palmares e da improvável escritora Carolina Maria de Jesus. Nesse contexto todo, a África e a presença negra no Brasil é corrente, sendo através da escravidão, das revoltas internas, do futebol ou seja ainda do teatro.

Ele foi um combatente contra uma das grandes mazelas de nosso país, o racismo. Para ele - como Silvio Almeida e outros ajudariam a desenvolver -, no caso do racismo, trata-se de um "preconceito estruturado"; um "preconceito quando casa com as distinções de classes, com as separações de classe". Para Joel Rufino "nunca houve democracia racional", como queriam fazer crer Gilberto Freyre e seus seguidores, por exemplo. Como outros que já pensaram a condição do negro no Brasil, antes e depois dele, Joel Rufino resumiria em parte a sua visão dizendo que "o negro, historicamente, durante a maior parte do tempo, foi trabalhador, foi subalterno. E o branco, na maior parte do tempo foi senhor, foi patrão". Por isso, "encarar a questão do racismo é encarar a questão do Brasil" (Entrevista para Umas Palavras, 2003, do canal Futura).



Dada a sua compreensão interdisciplinar, ele via como algo ruim o fato de muitos terem a História como uma "baia", como um "cabresto"; não podendo o historiador transitar por outras áreas, realizar outros diálogos.

Caso queira conhecer mais sobre esse autor, existem muitas entrevistas no Youtube ou em texto em diversos sites. Há um site dedicado a ele (joelrufinodossantos.com.br). Assim como há, claro, sua extensa bibliografia, que segue logo abaixo.


Os livros desse autor:

Como romancista

Crônica de Indomáveis Delírios (1991)


Como literato infanto-juvenil


Marinho, o Marinheiro, e Outras Histórias (1976)

Aventuras no Pais do Pinta-aparece e Outras Histórias (1977)

O Curupira e o Espantalho (1978)








Dudu Calunga (1986)


Ipupiara, o Devorador de Índios (1990)

Uma Festa no Céu (1995)






O Grande Pecado de Lampião e Sua Terrível Peleja Para Entrar no Céu (2005) 



Na Rota dos Tubarões (2008)

Robin Hood (2001)








Como não-ficcionista

História Nova do Brasil (co-autoria, 1963)

História Nova do Brasil IV (1964)

O Descobrimento do Brasil (Coleção História Nova 1, 1964)

As Invasões Holandesas (Coleção História Nova 3, 1964)

A Expansão Territorial (Coleção História Nova 4, 1964)

Independência de 1822 (Coleção História Nova 6, 1964)

Da Independência à República (Coleção História Nova 7, 1964)

O Renascimento, a Reforma e a Guerra dos Trinta Anos (1970)

República: Campanha e Proclamação (1970)

Mataram o Presidente (co-autoria, 1976)

História do Brasil (1979)



Constituições de Ontem, Constituinte de Hoje (1987)

Zumbi (1985)

Abolição (1988)

Afinal Quem Fez a República? (1989)

História, Histórias (1992)

Atrás do Muro da Noite: Dinâmica das Culturas Afro-brasileiras (com Wilson dos Santos Barbosa, 1994)

História Política do Futebol Brasileiro (1981)

Quando eu Voltei, Tive Uma Surpresa (2000)






A História do Negro no Teatro Brasileiro (2014)








Livro destaque desse autor:
 livro zumbi
Zumbi
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* Essa postagem é só um guia rápido desse historiador. Se você souber de alguma incorreção ou tiver algum acréscimo de conteúdo a essa postagem, mande-nos nos comentários. Muito obrigado!


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Historiadores em Perfil: Marc Bloch




Marc Bloch é o estreante de uma série de perfis de historiadores que faremos no blog. Ele é um dos mais importantes historiadores do século XX, tendo sido fundamental para a mudança que se realizou no ofício do Historiador, a partir sobretudo da criação da Escola dos Annales, da qual foi co-fundador. 

Seu nome completo é Marc Léopold Benjamim Bloch, nascido em Lyon, 6 de julho de 1886. Era filho de Gustave Bloch. Professor de História Medieval, Marc Bloch estudou na Escola Normal Superior de Paris, estudou em Berlim e também em Leipzig antes de ser bolseiro (bolsista) da Fundação Thiers (1909-1912, onde escreveu sua tese de doutorado sobre o fim da servidão dos camponeses na ilha da França, cujo título era Reis e servos: um capítulo da história capetiana (clique aqui para baixá-la).

Ele participou da Primeira Guerra Mundial, na arma de infantaria, sendo ferido e recebendo uma condecoração militar por mérito.



Após a guerra ingressou na Universidade de Estrasburgo, instituição onde conheceu e conviveu com Lucien Febvre. Os dois fundariam em 1929 a Revue des Annales (Revista dos Annales). Em 1936, sucedeu a Henri Hauser na cadeira de História Econômica da Sorbonne. A revista e o seu conteúdo conheceram então um sucesso mundial, dando origem à chamada Escola dos Annales.



Desde que publicou seu livro Os Reis Taumaturgos pela primeira vez em 1926, ele produziu outras obras importantes, como A Sociedade Feudal, A Estranha Derrota (esse sobre a derrota da França na Segunda Guerra, lançado postumamente) e aquele que é considerado por muitos como um "manual de cabeceira", que todo historiador deveria ler um dia, Apologia da História. Esse último também lançado pela primeira vez após sua morte - aliás, livro que não conseguiu terminar, o que deixa uma angústia na sua parte final.  


Essas obras póstumas tem a ver com sua condição trágica nos anos 1940. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, e a ocupação nazista da França, Bloch, por ser judeu, teve que deixar a direção da Revista dos Annales, que passou a ser orientada apenas pelo seu colega Lucien Febvre. Somado a isso, sendo militante da resistência francesa em tempos de domínio nazista, ele foi preso pela Gestapo, torturado e fuzilado em Saint-Didier-de-Formans, em 16 de junho de 1944. 

Caso queira conhecer mais sobre esse autor, existe, entre outros a coleção de textos biográficos intitulada Marc Bloch, organizados por Julio Bentivoglio e Josemar Machado de Oliveira. Além dessa, um ótimo livro para entender um pouco sobre os Annales é o A Escola dos Annales (1929-1989): a Revolução Francesa da Historiografia, de Peter Burke. 


Os livros desse autor:


Les Caractères originaux de l’histoire rurale française (1926; título em inglês: French Rural History: An Essay on Its Basic Characteristics

The Ile-de-France

Réflexions d'un historien sur les fausses nouvelles


A Estranha Derrota (póstumo, 1946)

Apologia da História (póstumo, 1949)

Esboço de uma História Monetária da Europa (póstumo, 1954) / título original Esquisse d'une Histoire Monétaire de l'Europe

O Que Pedir aos Historiadores (2019, coleção de textos inéditos publicados entre 1914 e 1940)

Livro destaque desse autor:
 livro a sociedade feudal
A Sociedade Medieval
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* Originalmente postado em 11/mar/2020.

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quarta-feira, junho 03, 2020

VÍDEO: Os Negros no Brasil | José A. Fernandes #VidasNegrasImportam




Existem temas que deveriam já estar superados, mas não estão. Esses são os casos do racismo, da discriminação e do preconceito contra os negros no Brasil. Por isso cremos que esse seja um assunto sempre urgente, cujo debate é fundamental e a busca de soluções urgente!


Assista:
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:: Ou se quiser, FAÇA UMA DOAÇÃO via Paypal: http://bit.ly/DoarJoseAF


Dica do blog:
 livro a enxada e a lanca
de Alberto da Costa e Silva
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terça-feira, junho 02, 2020

Direita e Esquerda | Heitor Henrique



Caro leitor, percebeste a grande facilidade ou mesmo a futilidade com que se têm usado termos tão importantes da história política mundial como direita e esquerda ultimamente? Será que estes termos têm sido utilizados de maneira adequada? 

Posso lhe garantir que na maioria esmagadora dos casos os termos mencionados têm sido usados de maneira errônea. Porém, nem sempre este uso tem sido de maneira inocente ou inconsciente. Em muitos casos, na origem do fato eles têm sido usados desta forma propositalmente, com uma intenção política de desinformação. Esta ação é sim consciente e as demais pessoas, que não possuem um conhecimento adequando destes termos, os repassam desta mesma forma sem ao menos perceberem os erros e usos políticos no caso e ainda acreditam estar repassando informações verídicas.

Antes de continuar a discussão sobre estes dois termos, gostaria de salientar algo: a diferença de fato e opinião. Fatos são comprovados e não possuem alterações, a menos que comprovados cientificamente, tal como dois mais dois são quatro. As opiniões são expressões pessoais e diversas sobre os fatos, mas não alteram a veracidade do mesmo, dito isso podemos continuar a nossa discussão.

Direita e Esquerda são espectros políticos e econômicos antagônicos aos quais podemos classificar diferentes governos, em diferentes épocas e lugares. Podemos sim ter opiniões sobre esses espectros e sobre quem os adotam, mas as suas definições já estão estabelecidas de maneira científica. Um rápido exemplo: o Nazismo foi um governo de direita e ponto final; isso já é uma verdade absoluta dentro de toda a comunidade científica internacional, e de nada adianta dizer: “Na minha opinião o Nazismo foi de esquerda.” Contra fatos não há opinião que se sustente. Podemos ter opiniões sobre o fato, isso sim.

Os termos direita e esquerda surgiram durante a Revolução Francesa, no fim do século XVIII, para designar grupos de posturas opostas naquela realidade francesa e estes termos foram amadurecendo em sua definição nos séculos seguintes até os dias atuais. As aulas de História e Geografia são importantes para aprendermos sobre estes aspectos e não ficarmos repetindo mentiras a respeito. E o que vem a ser direta e esquerda, afinal?

A esquerda desde a Revolução Francesa foi associada à luta pelos direitos dos trabalhadores e a população mais pobre, ressaltando a importância de assistências governamentais no auxílio a diminuição das desigualdades sociais. Já a direita está ligada a uma visão mais conservadora, ligada a um comportamento tradicional, que busca manter o poder da elite e promover o bem estar individual, sendo contra interferências estatais na regulamentação econômica em qualquer nível. Bem resumidamente, respeitando a limitação de espaço para a discussão essas são definições bem amplas dos termos, mas cada um dos lados podem sim ter a sua versão extremada. De qualquer forma não há nenhum problema em um indivíduo se identificar com um ou outro lado, contanto que se mantenha o respeito mútuo entre ambos.

E é assim que os termos tem sido categorizados no nosso país? Óbvio que não.

No nosso país houve uma deturpação proposital em relação aos termos. Aqui esquerda tem se tornado sinônimo de espera por ajuda estatal, comodismo, desapreço por valores familiares tradicionais e pela religião, vagabundismo e de maneira mais incisiva se tornou sinônimo de crime e antipatriotismo. Qualquer atitude de discordância em relação ao atual governo já são taxados de atitudes de esquerda, hoje se escuta que partidos políticos como o PSBD e veículos da grande imprensa mundial (The Economist, Financial Times) são de esquerda. Enquanto isso a direita no Brasil seria sinônimo de patriotismo, dedicação ao trabalho e apreço a valores familiares e cristãos, ou seja, o “cidadão de bem”. Caro leitor, se você acredita que essa é a diferença entre os espectros políticos, lamento dizer que está redondamente enganado.

Realmente este é um assunto muito polêmico e que gera amplas discussões, estou disposto a elas, mas com uma condição, que a mesma seja feita com respeito e o uso de argumentos científicos sérios e fontes confiáveis e sem o uso de senso comum e achismos.

Dica de livro:

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HEITOR ESPERANÇA HENRIQUE: É formado em História pela Universidade Estadual de Maringá, possui Mestrado pela mesma instituição. Inicia o seu doutorado pela Universidade Federal do Paraná em fevereiro de 2018. Atualmente atua como professor no departamento de História da Fafiman.

Antes de sair, assista ao nosso vídeo O que foi a Guerra Fria? Clique aqui ou na imagem abaixo!

 Guerra Fria segredos

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sexta-feira, maio 29, 2020

PROMOÇÃO: Escravidão e Capitalismo Histórico no Século XIX, por R$ 34,99!



O livro Escravidão e Capitalismo Histórico no Século XIX: Cuba, Brasil e Estados Unidos, organizado por Rafael Marquese e Ricardo Salles, está na promoção, por R$ 34,99 (50% de desconto), com opção de FRETE GRÁTIS!

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Ensaios de historiadores brasileiros e estrangeiros sobre a escravidão negra nas Américas ao longo século XIX Enquanto declinava ou era abolida em determinadas zonas do Novo Mundo, a escravidão reflorescia no Sul dos Estados Unidos, em Cuba e no Brasil. Áreas que se tornaram polos dinâmicos de uma nova e maciça expansão da escravidão africana. Tais transformações suscitam questionamentos que este livro busca responder, ainda que de formas distintas, quando não divergentes. Como definir a segunda escravidão? Quais são seus quadros temporais e espaciais? Quais suas relações com a reestruturação da economia-mundo capitalista no século XIX? Qual a pertinência do conceito para as historiografias nacionais de Brasil, Estados Unidos e Cuba? E para a História Atlântica e Global? Como explicar os processos de abolição da escravidão nos Estados Unidos, Cuba e Brasil? Autores que participam do volume: Dale Tomich, Edward E. Baptist, José Antonio Piqueras, Rafael Marquese, Ricardo Salles e Robin Blackburn. 

Antes de sair, assista ao nosso vídeo sobre Escravidão!

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quinta-feira, maio 28, 2020

Historiadores em Perfil: Leopold von Ranke




Ele é sem dúvida um dos mais destacados historiadores do século XIX. Fez escola, teve diversos seguidores, mas vem sendo muito questionado, especialmente a partir da década de 1930, com o surgimento da Escola dos Annales!

Leopold von Ranke nasceu em 21 de dezembro de 1795, na cidade de Wiehe, que hoje faz parte da Alemanha, mas que na época fazia parte da Prússia. Estudou filologia, na qual se tornou especialista e tradutor, destacando-se no estudo e tradução do Grego Antigo e do Latim para o alemão; protestante que era, estudou também teologia, partindo da concepção luterana; enfim, se tornaria cumulativamente também historiador - em realidade, há quem diga que ele foi o primeiro historiador, como nós entendemos hoje.

Sobre esse último aspecto de sua vida, que mais nos interessa, ele passou a se interessar diretamente pela História nos tempos em que foi professor de Clássicos no Friedrichs Gymnasium, em Frankfurt an der Oder, entre 1817 e 1825. Para ele o mais interessante era o estudo dos historiadores antigos, aqueles que demonstravam mais "metodismo", a exemplo sobretudo de Tucídides e Tito Lívio, embora também tivesse olhos para Heródoto - não tão metódico assim. Além desses, alguns pensadores e escritores mais próximos de si também foram considerados na sua formação e pesquisas, a exemplo de Goethe, Barthold Georg Niebuhr, Immanuel Kant, Johann Gottlieb Fichte, Friedrich Schelling e Friedrich Schlegel.

Sua trajetória de historiador começou em 1824, quando lançou Geschichte der Romanischen und Germanischen Völker von 1494 bis 1514 (História dos Povos Latinos e Germânicos de 1494 a 1514). Embora nesse momento faça uso de fontes que depois consideraria "profanas" para o historiador, ele logo seguiria um caminho mais metódico. O sucesso do livro foi tanto, que Ranke ganhou um cargo na Universidade de Berlim (atualmente Universidade Humboldt de Berlim).



Ele se dedicaria sobretudo à História Política e Diplomática - em outros termos, a uma História Estatal ou Oficial. Para fazer isso, Ranke, como aqueles com ele comungariam as ideias - em seu tempo de vida ou depois -, lançaria mão de fontes primárias oficiais escritas, as únicas que considerava realmente dignas de consideração. Isso porque o historiador, segundo ele, poderia e deveria ser objetivo, inteiramente isento, devendo isolar o fato histórico, sem "contaminá-lo". As demais fontes que usamos hoje em dia não eram tidas em consideração: as fontes emprestadas da arqueologia, só pra citar um exemplo, não seriam aceitas pois poderiam estar impregnada de subjetivismo, daí não podendo ser usadas pelos historiadores. Já os documentos oficias, escritos, esses sim eram confiáveis. Claro que a arqueologia ainda estava em formação em sua época, como a própria história estava se constituição como ciência. De qualquer maneira, o paulatino ganho de conhecimentos arqueológicos não impediria que os seguidores de Ranke rejeitassem e resistissem ao uso desses estudos como fontes da Histórica.

Ao falarmos em fonte, temos que ter em mente o lado positivo do papel que teve Ranke para a História como disciplina. Me referi à crítica às fontes, que na época estava voltada a verificação da veracidade ou falsidade das mesmas, inclusive as interpolações (adulterações) sofridas ao longo dos séculos.

Claro também que para entender Ranke, temos que entender o seu tempo, afinal, ele era um "homem do seu tempo". Ou seja, da nossa parte, a crítica ao que ele escreveu precisa ser feita, mas com o cuidado de antes entender o contexto em que ele estava inserido. Ele era um historiador surgido no pós-Revolução Francesa, depois de muitas décadas de discussões iluministas, influenciado pelo Liberalismo Econômico (embora fosse conservador na política). Nele se percebe, além do diálogo com outros pensadores mais ou menos contemporâneos, um diálogo especial com Hegel, a quem critica com frequência, negando Ranke, especialmente, a existência de uma "filosofia da História".

Ocorreu então dele se tornar o protagonista na "cientifização" da História, em outras palavras, passando a ser considerado por muitos como o "pai da História científica". E por que isso? Porque ele foi fundamental para definir em grande medida o tom dos escritos históricos posteriores, introduzindo ideais para o uso do "método cientifico na pesquisa histórica", tais como o que já temos dito, defendendo o uso prioritário de fontes primárias autenticadas - fazendo-se amplo uso da filologia nessa tarefa -, dando ênfase à história narrativa - com seus fatos, causas e consequências - e especialmente em política internacional; colocando, enfim, o imperativo de se mostrar "o passado tal como realmente foi" ("wie es eigentlich gewesen ist").
Nesse sentido é que se concentrou a maioria das críticas à Ranke. Como lembraria Edward Carr em seu livro Que é História?, de 1961, para Ranke, "a divina providência cuidaria do sentido da História, se o historiador cuidasse dos fatos". Pra quem gosta de conexões, percebe-se aí a ligação das ideias positivistas com a doutrina econômica liberal do Laissez-faire - ideia de não "se intrometer", "deixar fazer-se", sem interferências subjetivas. Para a História isso significa a não interferência dos historiadores nos fatos, puros que são, por meio de análises subjetivas que, portanto, "não seriam científicas". É nesse sentido que Edward Carr e outros (como Fernand Braudel, por exemplo) vê Ranke - assim como aqueles que o seguiram - como um ingênuo, por acreditar ser possível escrever a História sem interferência, sem "contaminação" da subjetividade do historiador. Carr dizia - como disse antes Marc Bloch e outros tantos críticos do historicismo rankeano - que o historiador está inserido em seu tempo e tem perguntas diferentes sobre o mesmo objeto de estudo que possa ter sido analisado por um outro pesquisador em um outro tempo diferente. 

Edward Carr está inserido no contexto mais amplo da crítica ao Positivismo e ao Historicismo, coisa que passou a ser central a partir, sobretudo, da fundação da Revista dos Annales, em 1929, com Marc Bloch e Lucien Febvre. A partir deles, passou-se a perguntar, entre tantas outras coisas, se com o Positivismo e o Historicismo haveria mesmo História ou haveria apenas uma "coleção de fatos". Com o Historicismo não há muito espaço para o cultural - seja qual for a concepção de cultura -, para o social ou mesmo para o econômico na História. Ou seja, não haveria espaço para a crítica do objeto por parte dos historiadores, espaço para visões globais do homem no tempo ou para a "História Problema".


Ranke em selo alemão comemorativo aos 100 anos de sua morte

Aqui vale atentarmos à questão da ingenuidade de Ranke, para clarearmos melhor as coisas. A "ingenuidade" dele, como disse o professor Paulo Cimó Queiroz ao nosso Blog, "limitava-se à crença na possibilidade de se libertar dos condicionamentos subjetivos e assim escrever 'cientificamente'". Isso porque, como já mostramos, o documento somente seria confiável  para ele após passar pelos duros questionamentos críticos. "Não era como a gente às vezes vê o pessoal dizendo por aí, como se os metódicos fossem pobres imbecis que acreditavam em tudo o que dizia qualquer documento..."

Mostra de que não eram "pobres imbecis" é que Ranke foi importante no seu tempo e "fez escola", como dizemos, tendo inclusive conquistado seguidores renomados no mundo, a exemplo dos professores franceses Charles-Victor Langlois e Charles Seignobos. Sua corrente perderia forças, sem desaparecer completamente, com o crescimento de críticas isoladas surgidas ainda no século XIX e com o surgimento de críticas mais conjuntas, especialmente a partir dos annalistas, que já apontamos. 

Ranke morreu em Berlim, na Alemanha já unificada, no dia 23 de maio de 1886.


Bom, por enquanto é isso. Caso queira saber mais sobre ele, o positivismo ou o historicismo, existem muitos livros, mas o verbete História, do livro História e Memória de Jacques Le Goff é bem interessante. Outro livro do mesmo tipo é A Constituição da História como Ciência: De Ranke a Braudel, organizado por Marcos Antônio Lopes e Julio Bentivoglio. Ainda de Júlio Bentivoglio, dessa vez em parceria com Marcelo Durão R. da Cunha, há o livro A religião da História: as raízes teológicas da moderna ciência histórica alemã em Humboldt, Ranke e Droysen.

Alguns textos dele foram lançados em português em livros próprios, em coletâneas ou mesmo em meio a outros autores. No segundo caso, Sérgio Buarque de Holanda organizou um intitulado Ranke, que saiu pela Ática em 1979. No caso de textos em meio a outros autores, O Conceito de História Universal, publicado no livro A História Pensada: Teoria e Método na Historiografia Europeia do Séc. XIX, organizado por Estevão de Rezende Martins para a Contexto, em 2010. 

Além dos e-books que circulam na internet, há alguns materiais de Ranke para download gratuito livre, caso queiram baixar:

Enfim, há os livros do próprio autor, cuja lista dos principais segue abaixo.

Os livros e textos desse historiador:

Diálogo Político - publicado em Holanda, Sérgio Buarque de (org). Ranke. São Paulo: Ática, 1979.

Die Geschichte der Päpste / edição em inglês The History Of The Popes

Die Deutschen Mächte und der Fürstenbund (1871-1872) / título em inglês The German Powers and the Fürstenbund 

Französische Geschichte, Vornehmlich im Sechzehnten und Siebzehnten Jahrhundert (1852-1861) edição em inglês Civil Wars and Monarchy in France, in the Sixteenth and Seventeenth Centuries: A History of France Principally During That Period

Geschichte der Romanischen und Germanischen Völker von 1494 bis 1514 (1824) / edição em inglês History of the Latin and Teutonic Nations from 1494 to 1514

Hardenberg und die Geschichte des Preussischen Staates von 1793 bis 1813 (1877) edição em inglês Hardenberg and the History of the Prussian State from 1793 to 1813 

Neun Bücher Preussischer Geschichte (1847-1848) edição em inglês Memoirs of the House of Brandenburg and History of Prussia, During the Seventeenth and Eighteenth Centuries 

O Conceito de História Universal - publicado em Estevão de Rezende Martins (org.). A história pensada. Teoria e método na historiografia europeia do séc. XIX. São Paulo: Contexto, 2010.

Sobre las Afinidades y las Diferencias Existentes Entre la Historia y la Política - publicado em Ranke, Leopold von. Pueblos y Estados en la Epoca Moderna. México: Fondo de Cultura Económica, 1986

Sobre las Épocas en la Historia - publicado em Ranke, Leopold von. Pueblos y Estados en la Epoca Moderna. México: Fondo de Cultura Económica, 1986

Ursprung und Beginn der Revolutionskriege 1791 und 1792 (1875) edição em inglês Origin and Beginning of the Revolutionary Wars 1791 and 1792 

Weltgeschichte (1881-1888) / edição em português História Universal / edição em inglês Universal History

Geschichte der Reformation in Deutschlandedição em inglês The History of the Reformation in Germany

Englische Geschichte, Vornehmlich im Sechzehnten und Siebzehnten Jahrhundert (1859-1869) edição em inglês A History of England Principally in the Seventeenth Century 




Existem outros tantos textos de Ranke à venda no Amazon, a maioria em alemão. Caso queiram uma rápida busca, clique aqui!


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