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quinta-feira, janeiro 20, 2022

Historiadores em Perfil: Carlo Ginzburg




Ele é um dos principais representantes da micro-história italiana, tendo contribuído desde muito tempo para discutir as formas de se fazer História. É dele o fantástico O Queijo e os Vermes. 

Carlo Ginzburg, nascido em 1939 - alguns meses antes do início da Segunda Guerra Mundial -, era de ascendência judia, filho de Natalia Ginzburg e Leone Ginzburg, que se tornariam importantes membros da resistência antifascista italiana. O pai morreu em uma prisão fascista nos anos finais da guerra, quando Carlo tinha cinco anos; a mãe, por outro lado, sobreviveu e seguiu sua carreira como importante escritora.

Ele quis ser literato, romancista como a mãe, e pintor, mas acabou desistindo dessas ideias e se enveredando pela História. Seu interesse pela mesma se deu, entre outras coisas, por influência do próprio pai que lia livros de não-ficção para ele quando criança; mas sobretudo, a partir da adolescência, por influência de importantes historiadores, especialmente italianos, como Delio Cantimori, estudioso pioneiro dos heréticos italianos do século XVI. Sua ligação com Cantimori aconteceu quando estudava na Scuola Normale de Pisa, onde o conheceu pessoalmente. Sobre seu primeiro contato com o mesmo, como ele próprio diz em entrevista à historiadora Maria Lúcia Pallares-Burke, que faz parte do livro As Muitas Faces da História"ainda me lembro vividamente da impressão que me causou aquele professor de barbas brancas e vestido num estilo do século XIX. Lembro-me de pensar que aquele era o homem mais velho que já vira".



Em sua formação, como muitos, também foi influenciado pela Escola dos Annales, que foi parte de suas reflexões desde os tempos de graduando: sua primeira "dissertação anual" teria sido sobre a mesma. Leituras de Marc Bloch e Lucien Febvre lhe mostravam como "um livro de história podia não ser enfadonho". Ele também dialogaria com a Nova História, surgida nos anos 1970, assim como também dialogaria com o estruturalismo de Levi-Strauss. Mas ele não se limitou a seguir nem os Annales (dos primeiros tempos ou o da Nova História) e nem o Estruturalismo, é preciso adiantar. 


Desde cedo deu provas de seu talento para a pesquisa e a escrita da História. Mostra disso foi o lançamento de seu primeiro livro, Os Andarilhos do Bem, já aos 27. Ele procurou em sua estreia analisar o julgamento de um grupo de camponeses de Friuli, pelo Tribunal da Inquisição. Polemizando, Ginzburg apresenta a resposta dada por esses, que eram acusados de bruxaria: eles não eram o que os acusavam de ser, se apresentavam antes como benandanti (andarilhos do bem), benfeitores que combatiam as bruxas durante a noite armados de talos de erva-doce, enquanto elas empunhavam espigas de milho. Como nos chama atenção Maria Lúcia Pallares-Burke no livro que mencionamos, "essa resposta inesperada, que contradizia as expectativas dos inquisidores, foi a base de um trabalho que deu uma notável contribuição aos estudos sobre a feitiçaria".


 andarilhos do bem ginzburg

Se com Os Andarilhos do Bem Carlo Ginzburg já demonstrava talento, seria com segundo livro que ele se tornaria de fato famoso. Trata-se do delicioso O Queijo e os Vermes, lançado originalmente em 1976, que conta a história do moleiro Domenico Scandella (conhecido como Menocchio), que por suas ideias sobre o cosmos - como um enorme queijo cheio de vermes - também foi levado ao Tribunal da Inquisição. Quem lê esse livro dificilmente consegue se manter neutro, objetivo, e não se envolve com o personagem e mesmo torce - infelizmente sem sucesso - para sua absolvição do julgamento (ou julgamentos, já que ele foi inquirido mais de uma vez)! 

Mas, academicamente falando, Ginzburg procura mostrar como Menocchio, um letrado em meio a tantos analfabetos, procurou se expressar, ser um porta-voz das pessoas comuns, daqueles que tinham que aceitar sempre os dogmas da igreja. Com esse livro, o autor também seguiu na direção da chamada "história vista de baixo" e também - o que estava muito em voga na época -  da Antropologia Histórica. Esse livro representou, por fim, um marco para que Ginzburg se estabelecesse como um dos líderes da micro-história.

Além desse livro, a micro-história se tornaria especialmente popular justamente a partir dos trabalhos seguintes de Carlo Ginzburg e também de Giovani Levi. Uma série de livros com o título "micro-história" seriam editados por eles e publicados pela editora Einaudi - editora que o pai havia ajudado fundar décadas atrás.



Como alguns outros historiadores de que já falamos, os interesses de Carlo Ginzburg são amplos, o que torna a tarefa de rotulá-lo um tanto quanto complicada. Isso pode ser notado nos livros que ele publicou depois de O Queijo e os Vermes. Por exemplo, em 1981, ele tratou sobre o pintor Piero della Francesca (1981), o que representou na época uma volta ao seu interesse pela arte; já em 1989 ele publicaria um outro livro, História Noturna, uma espécie de continuação de seu primeiro livro, onde estudou a história da ideia do sabá das bruxas ao longo de dois mil anos no mundo eurasiático. Em 1991, em Il Giudice e lo Storicoele refletiria sobre um capítulo trágico da história recente da justiça italiana e sobre as relações entre o papel do juiz e o do historiador. É ainda o caso de citarmos o livro Olhos de Madeira, de 1998, onde ele fala sobre as distâncias e os contatos entre diversas civilizações - para ele é impossível contar a história da civilização européia sem falar de seus contatos com outras civilizações.


 olhos de madeira ginzburg

Mais uma vez dando voz à historiadora Pallares-Burke, ela nos diz que esses livros "são reveladores da diversidade de temas e abordagens com que Ginzburg trabalha, e que o tornam um historiador difícil de classificar; coisa que, aliás, muito lhe agrada". São tantos temas, que abarcam desde "adivinhos mesopotâmios ao papa João Paulo II, desde hereges do século XVI a Leonardo Da Vinci e Voltaire". No âmbito da micro-história foram muitos os seus personagens: Menocchio, Piero delia Francesca, Ticiano, Jean Fouquet, Jesus, e por aí vai.

Outros livros (e artigos) de Ginzburg, embora mantenham à vista  os personagens e objetos de conhecimento histórico, caminham no sentido de analisar o ofício do historiador, suas práticas de pesquisa, seus paradigmas, seus "traços" de detetive, seu diálogo diverso sobre temas diferentes. Isso ocorre, por exemplo, na coletânea de ensaios Mitos, Emblemas, Sinais, onde Ginzburg constrói o paradigma de um "saber indiciário", um método de conhecimento cuja força está na observação do pormenor revelador, mais do que na dedução.

Em resumo poderíamos dizer, sem querer limitar, que Carlo Ginzburg sempre deu e dá (no sentido presente, porque ele segue muito ativo) atenção aos pequenos, aos de baixos, ao micro, sem esquecer do macro, das paisagens em que os seus personagens (individuais ou em pequenos grupos) se inseriam, sem esquecer dos contextos. Num diálogo com os franceses, especialmente os da Nova História, ele aponta o que pra ele é a insuficiência das análises macro para explicar o concreto, a minúcia, o local. Mas não perde de vista o amplo: pra esse volta recorrentemente, sempre recorre-lhe, embora nele não se limite. Em resumo, para Ginzburg não há oposição entre o amplo e o específico - e mesmo o "periférico" -, "a ideia de se opor a chamada micro-história à macro-história não tem sentido, assim como também é absurda a ideia de se opor a história social à história política".

Carlo Ginzburg tem tido uma vida bastante ativa, tendo lecionado em importantes universidades, especialmente na Itália e nos Estados Unidos. Já passou pela Universidade de Bolonha, em seguida, nas universidades de Harvard, Yale e Princeton, além da Universidade da Califórnia em Los Angeles, onde atuou por duas décadas ensinando sobre Renascimento italiano. Desde 2006, ele ocupa a cadeira de história cultural europeia na Escola Normal Superior de Pisa. Poliglota, tem viajado por várias universidades do mundo ministrando palestras, inclusive recorrentemente no Brasil.

Na multiplicidade de sua produção, ele tem publicado desde muito tempo, além de seus livros, uma diversidade de ensaios igualmente importantes em revistas científicas, tanto em termos de história propriamente como de análise da maneira de escrevê-la. Seus artigos podem ser encontrados, entre outras, nas revistas Past & Present, AnnalesQuaderni StoriciRivista Storica Italiana, Critical InquiryElementa.

Como poucos ele tem uma leitura muito acessível. Ele "escreve história para leitores", para um público o mais amplo possível. Ou seja, não entende a escrita suficiente por si só, ou seja (mais uma vez), ele não se fecha em uma escrita impenetrável restrita a um círculo de iniciados, como fazem muitos acadêmicos. Como ele próprio diz, "sinto que estou constantemente envolvido em uma troca intelectual e, muitas vezes, quando termino uma sentença, imagino algum amigo reagindo ao que escrevi".



Agora, caso queira conhecer mais sobre esse autor e suas ideias, existe, além de palestras e entrevistas dele, inclusive no YouTube; além de inúmeros artigos acadêmicos discutindo micro-história e seu trabalho que podem ser encontrados na internet. Sem querer esgotar a lista, em termos de livros, temos As Muitas Faces da História, a coletânea de entrevistas que citamos, dentre as quais a de Carlo Ginzburg, que conta com texto de apresentação da autora. Também o livro coletivo Micro-história, um Método em Transformação, organizado por Maíra Vendrame e Alexandre Karsburg, recém lançado em janeiro de 2020. Há o livro Historiografia e hermenêutica: uma interpretação da narrativa microanalítica de O queijo e os vermes, de Carlo Ginzburg, de Arrisete Cleide de Lemos Costa. Ainda o livro A Micro-História Italiana, de Henrique Espada Lima - esse mesmo autor tem um capítulo sobre micro-história no monumental Novos Domínios da História, de Ciro Flamarion Cardoso e Ronaldo Vainfas. Em espanhol temos   Historia, Arte, Cultura de Aby Warburg a Carlo Ginzburg, de Jose Emilio Burucua; Micro-História Italiana: Modo de Uso, de Carlos Antonio Aguirre Rojas; microHistoria: Las Narraciones de Carlo Ginzburg, de Anaclet Pons Pons. Em inglês, What is Microhistory?: Theory and Practice, de Sigurður Gylfi Magnússon e István M. Szijártó


Os livros desse autor:

I benandanti. Stregoneria e culti agrari tra '500 e '600 (1966) / edição em português Os Andarilhos do Bem

Il nicodemismo. Simulazione e dissimulazione religiosa nell'Europa del '500 (1970)

Giochi di pazienza. Un seminario sul 'Beneficio di Cristo' (1975, publicado em colaboração com Adriano Prosperi)

Il formaggio e i vermi. Il cosmo di un mugnaio del '500 (1976) / edição em português O Queijo e os Vermes 

Indagini su Piero. Il Battesimo, il ciclo di Arezzo, la Flagellazione di Urbino (1981) / Investigando Piero 

Miti emblemi spie (1986) / edição em português Mitos, Emblemas e Sinais

Storia notturna. Una decifrazione del sabba (1989) / edição em português História Noturna


Occhiacci di legno. Nove riflessioni sulla distanza (1998) / edição em português Olhos de Madeira

History, Rhetoric, and Proof. The Menachem Stern Jerusalem Lectures (1999) 

Das Schwert und die Glühbirne. Eine neue Lektüre von Picassos Guernica (1999)

No Island is an Island. Four Glances at English Literature in a World Perspective (2000) / edição em português Nenhuma Ilha é Uma Ilha

Tentativas (2003)  

Un dialogo (2003, publicado em colaboração com Vittorio Foa)

Rekishi o Sakanadeni Yomu (2003)

Il filo e le tracce. Vero falso finto (2006) / edição em português O Fio e os Rastros

Paura, reverenza, terrore. Rileggere Hobbes oggi (2008) / edição em português Medo, Reverência, Terror

Nondimanco. Machiavelli, Pascal (2018)





Livro destaque desse autor:
o queijo e os vermes
O Queijo e os Vermes
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* Essa postagem é só um guia rápido desse historiador. Se você souber de alguma incorreção ou tiver algum acréscimo de conteúdo a essa postagem, mande-nos nos comentários. Muito obrigado!


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* originalmente postado em 18/mar./2020

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FILME: Menocchio [completo]




Para quem gostou da postagem sobre Carlo Ginzburg, eis o filme Menocchi, adaptação do livro O Queijo e os Vermes!

Sinopse

Itália, final do século XVI. A Igreja Católica, sentindo-se ameaçada na sua hegemonia pelo movimento reformista protestante, lança o primeiro ataque sistemático para o controlo total da crença religiosa.


Menocchio, um velho casmurro, decide opor-se a esta nova ordem. Acusado de heresia, em vez de fugir ou pedir perdão, vai a tribunal. Menocchio está convencido que, como homem, é igual a qualquer bispo, inquisidor e até ao Papa, e espera, sente e acredita que pode reconverter os reformistas a um ideal de pobreza e amor.

Dados do filme

Produção: Nefertiti Film
Data de lançamento: 4 de agosto de 2018
Diretor: Alberto Fasulo
Cast: Maurizio Fanin, Nilla Patrizio, Carlo Baldracchi, entre outros.
Idioma: italiano - conta com legenda, basta ativá-la.
Legenda (caso decidam baixar): download


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Caso prefira ler o livro antes...
livro queijo e os vermes
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Se não leu o perfil de Carlo Ginzburg, o autor do livro, clique na imagem abaixo
biografia carlo ginzburg


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** Originalmente postado em 20/jul/2020

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quarta-feira, janeiro 19, 2022

Historiadores em Perfil: Jacques Le Goff




Ele foi protagonista em mudanças profundas na maneira de escrever História, fez parte da 3ª geração dos Annales, deixou uma obra vastíssimas e contribuições fundamentais para a compreensão da Idade Média!

Jacques Le Goff nasceu em 1º de janeiro de 1924, na cidade de Toulon, a 839 km de Paris, onde morreria em 1º de abril de 2014.

Tem um trabalho tão volumoso quanto rico, que se situa no grupo dos importantes medievalistas do século XX. Como muitos desses, especialmente os franceses, participou da Escola dos Annales, em sua terceira geração, tendo sido seu co-diretor. 

É nesse contexto, especialmente a partir da década de 1970, que, juntamente com outros historiadores brilhantes, Le Goff esteve à frente de mudanças importantes na maneira de fazer História, dirigindo os estudos do que se chamaria de Nova História (ou Nouvelle Histoire, conforme o nome em francês). Um dos frutos desse trabalho, em parceria com Pierre Nora, por exemplo, seria a coletânea de artigos intitulada Faire de l’Histoire (Fazer História), publicada em 1977, que no Brasil recebeu o título de História - Novos problemas, novas abordagens, novos objetos. No mesmo caminho, no ano seguinte sairia mais um trabalho de volume e de peso, o Dictionnaire de la Nouvelle Histoire (Dicionário da Nova História)



Tais publicações, somadas às pesquisas individuais dos membros da Escola dos Annales, aos artigos publicados na Revista dos Annales e aos livros escritos pelos mesmos, representaram uma verdadeira revolução teórico-metodológica. A partir da França, eles passariam a influenciar diversos países, especialmente na América Latina, como é o caso Brasil, por exemplo, onde a presença dos Annales é marcante. Essa revolução se deu em relação às fontes, que se ampliaram ainda mais em relação às que já vinham sendo usadas de forma mais frequente pelos historiadores franceses desde a criação da Revista e da Escola dos Annales em 1929. Também se deu pela ampliação dos campos de estudo, dos métodos utilizados e da interação da História com outras disciplinas, como a Antropologia, por exemplo, que Le Goff recorreria frequentemente em seus estudos. Enfim, há ainda uma mudança na compreensão do seria História, a incluir toda atividade humana, em seus mais diferentes aspectos. 

Mas, deixemos para falar da Escola dos Annales, da revista e da Nova História - inclusive as críticas que foram feitas à essa última - em outra postagem. Por ora voltemos a Le Goff. Como dissemos, podemos defini-lo como um medievalista. Nesse sentido a sua contribuição seria imensa, tendo trazido novas interpretações sobre o período, incluindo temas como as universidades medievais, a religiosidade, o trabalho, o tempo, o dinheiro (inclusive sobre a moeda, que não é a mesma coisa), as maneiras, as imagens, as lendas, as transformações intelectuais (mentalidades) da Idade Média. Enfim, são inúmeros os temas, como são inúmeros os livros e os artigos publicados por ele (veja bibliografia no fim da postagem). 



Como devemos ser breves nesse perfil, podemos sintetizar dizendo que para Jacques Le Goff, a Idade Média não é a "Idade das Trevas"... Para ele, esse é o período de gestação da Modernidade, com uma infinidade de transformações em seu final, mas também uma riqueza incrível em toda sua duração. Não seria essa uma era intermediária, sempre perdida na escuridão, sem brilho, situada entre as riquezas da Antiguidade e as que viriam com a Modernidade. Para ele, foi antes que isso um período em que as relações de trabalho se transformaram, assim como os conceitos de propriedade e de riqueza se transformaram. Ele dialoga então, por exemplo, com Huizinga (cuja obra mais conhecida é O Outono da Idade Média), com Marc Bloch (o inaugurador dessa série de perfis e fundador dos Annales) e os demais historiadores medievalistas, especialmente os da Escola dos Annales, mas não só. 

Le Goff faz um trabalho de folego, que é denso e profundo, com um brilho que nos faz viajar no que ele escreve. Através de sua narrativa nos faz imaginar a civilização do Ocidente Medieval, os homens, as mulheres, os clérigos, os mercadores e os banqueiros; a religião dominante, os pecadores, os castigos e as inovações e reações às novidades de finais da Idade Média, como o Purgatório, as cidades e o dinheiro. Ele também escreve biografias, algo que tinha sido deixado de lado pelas primeiras gerações dos Annales: é o caso da vida de São Luis, o rei francês de boa fama, que Le Goff dedicou um livro, ou ainda São Francisco de Assis, que também ganhou um. 

Claro que em sua produção extensa há espaço para as reflexões sobre o ofício do historiador, como os que citamos a pouco. É o exemplo também de História e Memória, que não é propriamente um livro do autor, no sentido mais exato, mas sim uma coleção organizada aqui no Brasil pela Universidade de Campinas (Unicamp), com verbetes publicados na Enciclopédia Einaudi. Trata-se de um dicionário de conceitos, uma obra de referência. De livros mesmo do autor teríamos, por exemplo, Para uma Outra Idade Média, que como o título já diz traz uma reflexão em relação a forma como a Idade Média era vista e como ele - e outros historiadores - passaram a pensá-la. Na sua produção há ainda espaço para um Dicionário Temático do Ocidente Medieval, feito em parceria com Jean-Claude Schmitt, lançado em dois grossos volumes.

Enfim, também com reflexões sobre a História e os historiadores, Le Goff deixaria material que seria publicado depois de sua morte com o título A História Deve ser Dividida em Pedaços?. Nele, de forma geral, a discussão gira em torno dos períodos históricos, das divisões e seus problemas, especialmente quando se trata da Idade Média. O que inclui, por exemplo, a discussão sobre o Renascimento e o questionamento sobre se o mesmo deveria ser colocado dentro da Idade Média ou como parte da Moderna. Ou seja, ele pretendeu mostrar, entre outras coisas, que os períodos históricos tem muitos limites, mesmo tendo sido divididos com objetivos didáticos, não sendo tão facilmente reconhecíveis como alguns possam pensar.


le goff último livro
O último livro

Uma coisa que se deve dizer sobre Jacques Le Goff é que ele é, em geral, de fácil leitura. Até o fim de sua vida ele defendeu a acessibilidade dos textos de História, pra que todos consigam ler e entender o que o historiador escreve. De mesma forma, ele criticou até o fim o distanciamento da escrita acadêmica e sua característica quase impenetrável para os que não são da área. Não é a toa que seus textos, mesmos os mais técnicos, não são impossíveis de se ler! Não é a toa também que ele tenha escrito livros como A Idade Média Explicada A Meu Filho A Europa Contada aos Jovens!

Bom, por enquanto é isso. Caso queira saber mais sobre esse autor, existe, entre outros, a série organizada por Maurício Parada, Os Historiadores, com espaço para Jacque Le Goff. Cabe citar também o ótimo livro de Peter Burke, A Escola dos Annales (1929-1989): a Revolução Francesa da Historiografia. Ainda o volume 5 do Teoria da História, de José D'Assunção Barros, que trata da Escola dos Annales e da Nova História. Outra opção é o livro Escola dos Annales, de José Carlos Reis ou ainda Nova História em Perspectiva, organizado por Fernando Novais e Rogério da Silva. 

François Dosse também contribui para essa história da historiografia onde se localiza Jacques Le Goff, do ponto de vista crítico, com o livro A História Em Migalhas. Dos Annales À Nova História. Em sentido parecido, contribui o livro As Escolas Históricas, de  Guy Bourdé e Hervé Martin. Em inglês há o livro The Work of Jacques Le Goff and the Challenges of Medieval History, da britânica Miri RubinAlém desses, há uma infinidade de edições dos livros de Le Goff em italiano, dada sua relação com a Universidade de Roma, inclusive aqueles que não saíram em português.



Os livros desse autor:

Mercadores e Banqueiros na Idade Média (1956) / título original em francês Marchands et banquiers du Moyen-Age


A Civilização do Ocidente Medieval (1964) / título original em francês La Civilisation de l'Occident Médiéval

Para um Novo Conceito de Idade Média (1977) / lançado novamente em português com o título modificado, Para uma Outra Idade Média / título original em francês Pour un autre Moyen Âge

História - Novas Abordagens - Novos objetos - Novos problemas (1977) / título original em francês Faire de l'Histoire: Nouveaux Problèmes, Nouvelles Approches, Nouveaux Objets

O Nascimento do Purgatório (1981) / título original em francês La Naissance du Purgatoire

O Imaginário Medieval (1985)


A Bolsa e a Vida (1986) / título original em francês La Bourse et la Vie

História Religiosa da França (em colaboração de direção com René Rémond, em 4 volumes, 1988-1992) / título original em francês Histoire de la France Religieuse

O Homem Medieval (dirigido por ele, 1994) / título original em francês Homme Médiéval

A Europa Contada aos Jovens (1996) / título original em francês L'Europe Expliquée aux Jeunes / edição espanhola Europa Contada A Los Jovenes

São Luís, Biografia (1996) / título original em francês Saint Louis

Por Amor às Cidades (conversas com Jean Lebrun, 1999) 

Dicionário Temático do Ocidente Medieval (em colaboração de direção com Jean-Claude Schmitt, 2001) / aparece em outras edições com o nome Dicionário Analítico do Ocidente Medieval título original em francês Dictionnaire Raisonné de l'Occident Médiéval

São Francisco de Assis (2001) / título original em francês Saint François d'Assise


Em Busca da Idade Média (2003) / título original em francês A la Recherche du Moyen Age


Heróis e Maravilhas da Idade Média (2009) / título original em francês Héros et Merveilles du Moyen Âge



Homens e Mulheres da Idade Média (2014) / título original em francês Hommes et Femmes du Moyen Age

A História Deve ser Dividida em Pedaços? (póstumo, 2015) / título original em francês Faut-il Vraiment Découper l'Histoire en Tranches?

A História Nova




Reflexões Sobre a História (entrevista de Francesco Maiello)

Uma Vida Para a História (conversas com Marc Heurgon)

A Idade Média Explicada aos Meus Filhos / Le Moyen Age Expliqué aux Enfants

Uma Longa Idade Média / título original em francês Un long Moyen Age


Apogeu da Cidade Medieval


Os Intelectuais na Idade Média / edição em espanhol Los Intelectuales en la Edad Media / título original em francês Intellectuels au Moyen Age

Un Moyen Age En Images / edição espanhola Una Edad Media en imágenes

La Ciudad y las Murallas

La vieja Europa y el mundo moderno

Une histoire du corps au Moyen-Age (com Nicolas Truong)

20 siècles en cathédrales

Europe Est-Elle Née au Moyen Age

Un autre Moyen Âge



University in European History

As Doenças Têm História (1985, neste apenas escreveu a Apresentação)


Livro destaque desse autor:
livro história e memoria
História e Memória
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DICA DE LIVRO: A Idade Média e o Dinheiro, de Jacques Le Goff [com breve resenha] | José A. Fernandes




Um livro interessante para entendermos a Idade Média e discutir o papel do dinheiro nesse período. Leia nossa breve resenha.

O dinheiro tem até hoje sentido amplo, assim como o que se entendia como moeda não era na Idade Média exatamente como a entenderíamos a partir da concretização do Capitalismo em substituição ao Feudalismo. Para Jacque Le Goff o Feudalismo do ocidente europeu terminou mesmo no século XVIII, ainda assim a partir de alguns países, como a Inglaterra do que se chamou de Revolução Industrial e a França que deu fim ao Antigo Regime a partir da Revolução Francesa.

Enquanto ainda existia Idade Média, o dinheiro não tinha o significado que conhecemos, em geral, hoje. O objetivo do autor nesse livro é mostrar que o dinheiro esteve ligado, pelo menos até os séculos XIII e XIV,  à ideia de poder - daí o fato de o dinheiro não se manifestar exclusivamente como moeda, mas também em diversos outros formatos, como lingotes de ouro e prata e baixelas. Num segundo momento, a partir do século XIII a igreja, tendo que se adequar às mudanças que ocorriam na Europa, especialmente a partir da "revolução comercial", teve que rever seus conceitos sobre riqueza e pobreza, inclusive sobre a prática do comércio, sobre o lucro (a usura) e sobre o significado do dinheiro. Para a igreja, especialmente a partir da fundação das ordens mendicantes (sobretudo os franciscanos), a moeda passou a ser usada para a caridade, por meio das esmolas mas também dando origem aos hospitais.

Nesse contexto, o autor procura explicar nesse livro como "evoluiu" a ideia de dinheiro, inserindo-o na Idade Média, daí fazendo o autor uma recuperação de pontos já estudados por ele ao longo de sua trajetória. Procura ele construir um cenário o mais completo possível, com elementos culturais, sociais e políticos, procurando mais uma vez mostrar o caráter dinâmico e rico da Idade Média, contra as ideias preconceituosas que imperaram por muito tempo sobre a "Idade das Trevas" - ideia para ele sem fundamento.

Enfim, é um livro que vale a pena ler, pois tem uma escrita agradável e acessível. Vale a pena ler se for professor, para enriquecer as aulas de História. E se for aluno, com certeza vai entender muito do que o autor diz e vai poder a partir dele iniciar conversas sobre dinheiro, moeda, bancos, crédito, igreja, formação inicial dos Estados Nacionais, movimentos comerciais e mesmo trabalho e salários.

O livro é dividido nos seguintes capítulos: 
1) A herança do Império Romano e da cristianização; 
2) De Carlos Magno à feudalidade; 
3) O impulso da moeda e do dinheiro na virada do século XII para o XIII; 
4) O próspero século XIII do dinheiro; 
5) Trocas, dinheiro, moeda na revolução comercial do século XIII; 
6) O dinheiro e os Estados nascentes; 
7) Empréstimo, endividamento, usura; 
8) Riqueza e pobreza novas; 
9) Do século XIII ao século XIV, o dinheiro em crise; 
10) O aperfeiçoamento do sistema financeiro no fim da Idade Média; 
11) Cidades, Estados e dinheiro no fim da Idade Média; 
12) Preços, salários e moeda nos séculos XIV e XV; 
13) As ordens mendicantes e o dinheiro; 
14) Humanismo, mecenato e dinheiro; 
15) Capitalismo ou caritas.

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Antes de sair aproveite para ler nosso perfil biográfico de Jacques Le Goff, clique aqui ou na imagem abaixo!

biografia jacques le goff

Assista a um vídeo com a história do dinheiro!

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