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quinta-feira, junho 11, 2020

Historiadores em Perfil: Lucien Febvre




Estudioso do que chamamos didaticamente de Idade Moderna, ele foi fundamental nas renovações ocorridas na produção histórica do século XX, tendo juntamente com Marc Bloch fundado a prestigiada Escola dos Annales.  

Lucien Paul Victor Febvre nasceu em 22 de julho de 1878, em Nancy, no departamento francês Meurthe-et-Moselle, na região de Lorena - então recém conquistada pelos alemães na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871). 

Foi em Nancy que recebeu sua formação inicial de historiador, continuada essa em Paris (na École Normale Supérieure e depois na Sorbonne). Por esse tempo a "história metódica" dominava o conhecimento na França, exaltando a erudição, privilegiando a dimensão política e fascinada pelo acontecimento e os grandes personagens. É justamente nesse contexto que Febvre se forma, tendo tirado dessa experiência aquilo que lhe parecia mais interessante. Mas, mesmo nesse universo, ele já procurava ir além, procurando ampliar sua visão de escala ao escrever, por exemplo, sua tese de doutorado Phillippe II et la Franche-Comté (clique no título e baixe grátis). O subtítulo da mesma já deixava explicito o seu interesse por outras esferas da vida além do político: Étude d'Histoire Politique, Religieuse et Sociale (Estudo de História Política, Religiosa e Social).



Em 1919, ele foi nomeado professor na Universidade de Estrasburgo, localizada na capital da Alsácia recém reconquistada pelos francês no pós-Primeira Guerra; em 1933, seria nomeado professor no Collège de France, dessa vez em Paris. Tratam-se de lugares fundamentais para Febvre levar adiante os seus estudos e o seu ensino, se tornando um especialista em História Moderna, sobretudo do século XVI

Sem se despojar completamente de sua formação e do que aprendera com os metódicos, ele foi fundamental para questionar os problemas da História como ela vinha sendo praticada por esses. Mas não só para apontar problemas na "história metódica", assim  como também apontar caminhos e soluções para uma "nova história" que marcaria a historiografia francesa e mundial ao longo do século XX. Nesse sentido é que em 1929 ele criou, em parceria com Marc Bloch, a revista Annales d'Histoire Économique et Sociale - ou simplesmente Revista dos Annales, como ficaria genericamente conhecida.



No âmbito dos Annales, ele travaria um "combate" contra a "velha história" ou "história tradicional". Proporia um trabalho para o Historiador que fosse muito além da erudição, que fosse muito além das receitas metódicas para autenticar documentos e limitar as fontes ao escrito e oficial. Ele proporia - juntamente com Bloch e os parceiros da Escola dos Annales - uma "história total", que, mantendo a busca pela verdade, abarcasse as múltiplas esferas da existência humana. Proporia a aproximação - dominante, diga-se - da História com as demais disciplinas humanas, tais como a sociologia e a antropologia; proporia ainda uma ligação direta com a geografia, coisa que Fernand Braudel, como seu discípulo, levaria adiante depois. Em resumo, os dois objetivos principais de Febvre e Bloch ficaram exposto já no primeiro número da revista: 1) romper com o espírito da especialidade, promover a pluridisciplinaridade, favorecer a união entre as ciências humanas; 2) passar do estágio dos debates teóricos ao estágio das realizações concretas, especialmente das investigações coletivas na área de história contemporânea (citado Bourdé e Martin). Num primeiro momento, na revista há um foco na história econômica e social, o que especialmente depois da Segunda Guerra se reorienta no sentido das mentalidades.


 europa lucien febvre

Sem abandonar completamente suas origens - ao menos nos aspectos que julgava importante manter -, de sua parte, Lucien Febvre trabalhou num sentido multidisciplinar. Assim como também trabalhou com biografias - coisa que os metódicos já faziam -, mas, indo muito além dos ensinamentos desses, Febvre confrontou os seus heróis (Lutero, Rabelais, etc) com a sociedade de seu tempo, não os isolou em intrigas políticas. Segundo nos dizem Bourdé e Martin em seu livro As Escolas Históricas, Febvre "desliza da reflexão sobre um personagem ilustre para a exploração das mentalidades coletivas". É assim que ele faz em Martinho Lutero, Um Destino, onde a história de Lutero se entrelaça com a do destino de uma época inteira (o século XVI alemão e europeu); faz o mesmo em Origène et De Périers ou l'Énigme du Cymbalum Mundi; também em seu fundamental O Problema da Incredulidade no século XVI - a Religião de Rabelais, onde como o título diz, procura desvendar a posição religiosa de Rabelais num momento chave da história (o século XVI de tantos eventos e personagens) e a noção de descrença (ou sua relação com o cristianismo); e ainda faz em Amor Sacro, Amor Profano, onde a personagem é Margarida de Navarra e a análise está focada em "um caso de psicologia no século XVI".



Claro que, além de seus importantes livros, Lucien Febvre também contribuiu com uma infinidade de artigos em diversas revistas científicas, especialmente nos Annales e na Revue de Syntèse. Entre tantos outros, pode-se destacar os artigos Guilhaume Budé e as Origens do Humanismo Francês, publicado na Revue de Syntèse em 1907 e os artigos A Guerra dos Camponeses na Alemanha e O Capitalismo Liegense no Século XVI, ambos publicado na revista Annales, respectivamente em 1934 e 1940.

Como outros intelectuais de sua época, Lucien Febvre também viveu a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, embora tenha tido sorte diferente de seu amigo Marc Bloch (fuzilado pelos nazistas). Após a Segunda Guerra, seguiu os trabalhos da Revista dos Annales, tendo angariado tantos outros discípulos e admiradores, a exemplo de Fernand Braudel, que o sucederia na direção da mesma a partir de 1946. Sem deixar de agir, em 1947, Lucien Febvre fundaria a VI Seção da École Pratique des Hautes Études - núcleo que daria origem à École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS - Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais), em 1975.

Febvre morreria em Saint-Amour, departamento de Jura, em 26 de setembro de 1956.

Caso queira conhecer mais sobre esse autor, existem diversos livros, artigos e teses que analisam especificamente Lucien Febvre ou teoria e metodologia em História. Em matéria de livros, para mostrarmos apenas alguns, em português, já citamos As Escolas Históricas de Bourdé e Martin. Há ainda o livro Teoria da História Vol. V: A Escola dos Annales e a Nova História, de José D'Assunção Barros. Ainda A Escola dos Annales, de Peter Burke. O Nova História em Perspectiva - Volume 1, de Fernando Novais e Rogério da Silva. Por fim, o livro Os Historiadores - Clássicos da História vol. 2: De Tocqueville a Thompson, organizado por Mauricio Parada. Há ainda, a título de curiosidade, um livro em espanhol, Lucien Febvre: Combates Por el Socialismo, de José Antonio Ereño. Afinal, em inglês, o livro History Under Debate, de Lawrence J Mc Crank e Carlos Barros.


Os livros desse autor:


O Problema da Incredulidade no Século XVI: A Religião de Rabelais (1942) / edição em espanhol El Problema de la Incredulidad en el Siglo XVI: La Religión de Rabelais

Combates pela História (1953) / edição em espanhol Combates Por la Historia



Honra e Pátria


Michelet e a Renascença (conjunto de palestras proferidas em 1942-1943)

Amour Sacré, Amour Profane / edição em português Amor Sacro, Amor Profano



Lettres à Henri Berr (Histoire de la pensée)

Livro destaque desse autor:
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