Historiadores em Perfil: Carlo Ginzburg ~ Identidade 85 ::

sexta-feira, julho 17, 2020

Historiadores em Perfil: Carlo Ginzburg




Ele é um dos principais representantes da micro-história italiana, tendo contribuído desde muito tempo para discutir as formas de se fazer História. É dele o fantástico O Queijo e os Vermes. 

Carlo Ginzburg, nascido em 1939 - alguns meses antes do início da Segunda Guerra Mundial -, era de ascendência judia, filho de Natalia Ginzburg e Leone Ginzburg, que se tornariam importantes membros da resistência antifascista italiana. O pai morreu em uma prisão fascista nos anos finais da guerra, quando Carlo tinha cinco anos; a mãe, por outro lado, sobreviveu e seguiu sua carreira como importante escritora.

Ele quis ser literato, romancista como a mãe, e pintor, mas acabou desistindo dessas ideias e se enveredando pela História. Seu interesse pela mesma se deu, entre outras coisas, por influência do próprio pai que lia livros de não-ficção para ele quando criança; mas sobretudo, a partir da adolescência, por influência de importantes historiadores, especialmente italianos, como Delio Cantimori, estudioso pioneiro dos heréticos italianos do século XVI. Sua ligação com Cantimori aconteceu quando estudava na Scuola Normale de Pisa, onde o conheceu pessoalmente. Sobre seu primeiro contato com o mesmo, como ele próprio diz em entrevista à historiadora Maria Lúcia Pallares-Burke, que faz parte do livro As Muitas Faces da História"ainda me lembro vividamente da impressão que me causou aquele professor de barbas brancas e vestido num estilo do século XIX. Lembro-me de pensar que aquele era o homem mais velho que já vira".

Em sua formação, como muitos, também foi influenciado pela Escola dos Annales, que foi parte de suas reflexões desde os tempos de graduando: sua primeira "dissertação anual" teria sido sobre a mesma. Leituras de Marc Bloch e Lucien Febvre lhe mostravam como "um livro de história podia não ser enfadonho". Ele também dialogaria com a Nova História, surgida nos anos 1970, assim como também dialogaria com o estruturalismo de Levi-Strauss. Mas ele não se limitou a seguir nem os Annales (dos primeiros tempos ou o da Nova História) e nem o Estruturalismo, é preciso adiantar. 

Desde cedo deu provas de seu talento para a pesquisa e a escrita da História. Mostra disso foi o lançamento de seu primeiro livro, Os Andarilhos do Bem, já aos 27. Ele procurou em sua estreia analisar o julgamento de um grupo de camponeses de Friuli, pelo Tribunal da Inquisição. Polemizando, Ginzburg apresenta a resposta dada por esses, que eram acusados de bruxaria: eles não eram o que os acusavam de ser, se apresentavam antes como benandanti (andarilhos do bem), benfeitores que combatiam as bruxas durante a noite armados de talos de erva-doce, enquanto elas empunhavam espigas de milho. Como nos chama atenção Maria Lúcia Pallares-Burke no livro que mencionamos, "essa resposta inesperada, que contradizia as expectativas dos inquisidores, foi a base de um trabalho que deu uma notável contribuição aos estudos sobre a feitiçaria".

Se com Os Andarilhos do Bem Carlo Ginzburg já demonstrava talento, seria com segundo livro que ele se tornaria de fato famoso. Trata-se do delicioso O Queijo e os Vermes, lançado originalmente em 1976, que conta a história do moleiro Domenico Scandella (conhecido como Menocchio), que por suas ideias sobre o cosmos - como um enorme queijo cheio de vermes - também foi levado ao Tribunal da Inquisição. Quem lê esse livro dificilmente consegue se manter neutro, objetivo, e não se envolve com o personagem e mesmo torce - infelizmente sem sucesso - para sua absolvição do julgamento (ou julgamentos, já que ele foi inquirido mais de uma vez)! 

Mas, academicamente falando, Ginzburg procura mostrar como Menocchio, um letrado em meio a tantos analfabetos, procurou se expressar, ser um porta-voz das pessoas comuns, daqueles que tinham que aceitar sempre os dogmas da igreja. Com esse livro, o autor também seguiu na direção da chamada "história vista de baixo" e também - o que estava muito em voga na época -  da Antropologia Histórica. Esse livro representou, por fim, um marco para que Ginzburg se estabelecesse como um dos líderes da micro-história.

Além desse livro, a micro-história se tornaria especialmente popular justamente a partir dos trabalhos seguintes de Carlo Ginzburg e também de Giovani Levi. Uma série de livros com o título "micro-história" seriam editados por eles e publicados pela editora Einaudi - editora que o pai havia ajudado fundar décadas atrás.

Como alguns outros historiadores de que já falamos, os interesses de Carlo Ginzburg são amplos, o que torna a tarefa de rotulá-lo um tanto quanto complicada. Isso pode ser notado nos livros que ele publicou depois de O Queijo e os Vermes. Por exemplo, em 1981, ele tratou sobre o pintor Piero della Francesca (1981), o que representou na época uma volta ao seu interesse pela arte; já em 1989 ele publicaria um outro livro, História Noturna, uma espécie de continuação de seu primeiro livro, onde estudou a história da ideia do sabá das bruxas ao longo de dois mil anos no mundo eurasiático. Em 1991, em Il Giudice e lo Storicoele refletiria sobre um capítulo trágico da história recente da justiça italiana e sobre as relações entre o papel do juiz e o do historiador. É ainda o caso de citarmos o livro Olhos de Madeira, de 1998, onde ele fala sobre as distâncias e os contatos entre diversas civilizações - para ele é impossível contar a história da civilização européia sem falar de seus contatos com outras civilizações.

Mais uma vez dando voz à historiadora Pallares-Burke, ela nos diz que esses livros "são reveladores da diversidade de temas e abordagens com que Ginzburg trabalha, e que o tornam um historiador difícil de classificar; coisa que, aliás, muito lhe agrada". São tantos temas, que abarcam desde "adivinhos mesopotâmios ao papa João Paulo II, desde hereges do século XVI a Leonardo Da Vinci e Voltaire". No âmbito da micro-história foram muitos os seus personagens: Menocchio, Piero delia Francesca, Ticiano, Jean Fouquet, Jesus, e por aí vai.

Outros livros (e artigos) de Ginzburg, embora mantenham à vista  os personagens e objetos de conhecimento histórico, caminham no sentido de analisar o ofício do historiador, suas práticas de pesquisa, seus paradigmas, seus "traços" de detetive, seu diálogo diverso sobre temas diferentes. Isso ocorre, por exemplo, na coletânea de ensaios Mitos, Emblemas, Sinais, onde Ginzburg constrói o paradigma de um "saber indiciário", um método de conhecimento cuja força está na observação do pormenor revelador, mais do que na dedução.

Em resumo poderíamos dizer, sem querer limitar, que Carlo Ginzburg sempre deu e dá (no sentido presente, porque ele segue muito ativo) atenção aos pequenos, aos de baixos, ao micro, sem esquecer do macro, das paisagens em que os seus personagens (individuais ou em pequenos grupos) se inseriam, sem esquecer dos contextos. Num diálogo com os franceses, especialmente os da Nova História, ele aponta o que pra ele é a insuficiência das análises macro para explicar o concreto, a minúcia, o local. Mas não perde de vista o amplo: pra esse volta recorrentemente, sempre recorre-lhe, embora nele não se limite. Em resumo, para Ginzburg não há oposição entre o amplo e o específico - e mesmo o "periférico" -, "a ideia de se opor a chamada micro-história à macro-história não tem sentido, assim como também é absurda a ideia de se opor a história social à história política".

Carlo Ginzburg tem tido uma vida bastante ativa, tendo lecionado em importantes universidades, especialmente na Itália e nos Estados Unidos. Já passou pela Universidade de Bolonha, em seguida, nas universidades de Harvard, Yale e Princeton, além da Universidade da Califórnia em Los Angeles, onde atuou por duas décadas ensinando sobre Renascimento italiano. Desde 2006, ele ocupa a cadeira de história cultural europeia na Escola Normal Superior de Pisa. Poliglota, tem viajado por várias universidades do mundo ministrando palestras, inclusive recorrentemente no Brasil.

Na multiplicidade de sua produção, ele tem publicado desde muito tempo, além de seus livros, uma diversidade de ensaios igualmente importantes em revistas científicas, tanto em termos de história propriamente como de análise da maneira de escrevê-la. Seus artigos podem ser encontrados, entre outras, nas revistas Past & Present, AnnalesQuaderni StoriciRivista Storica Italiana, Critical InquiryElementa.

Como poucos ele tem uma leitura muito acessível. Ele "escreve história para leitores", para um público o mais amplo possível. Ou seja, não entende a escrita suficiente por si só, ou seja (mais uma vez), ele não se fecha em uma escrita impenetrável restrita a um círculo de iniciados, como fazem muitos acadêmicos. Como ele próprio diz, "sinto que estou constantemente envolvido em uma troca intelectual e, muitas vezes, quando termino uma sentença, imagino algum amigo reagindo ao que escrevi".

Agora, caso queira conhecer mais sobre esse autor e suas ideias, existe, além de palestras e entrevistas dele, inclusive no YouTube; além de inúmeros artigos acadêmicos discutindo micro-história e seu trabalho que podem ser encontrados na internet. Sem querer esgotar a lista, em termos de livros, temos As Muitas Faces da História, a coletânea de entrevistas que citamos, dentre as quais a de Carlo Ginzburg, que conta com texto de apresentação da autora. Também o livro coletivo Micro-história, um Método em Transformação, organizado por Maíra Vendrame e Alexandre Karsburg, recém lançado em janeiro de 2020. Há o livro Historiografia e hermenêutica: uma interpretação da narrativa microanalítica de O queijo e os vermes, de Carlo Ginzburg, de Arrisete Cleide de Lemos Costa. Ainda o livro A Micro-História Italiana, de Henrique Espada Lima - esse mesmo autor tem um capítulo sobre micro-história no monumental Novos Domínios da História, de Ciro Flamarion Cardoso e Ronaldo Vainfas. Em espanhol temos   Historia, Arte, Cultura de Aby Warburg a Carlo Ginzburg, de Jose Emilio Burucua; Micro-História Italiana: Modo de Uso, de Carlos Antonio Aguirre Rojas; microHistoria: Las Narraciones de Carlo Ginzburg, de Anaclet Pons Pons. Em inglês, What is Microhistory?: Theory and Practice, de Sigurður Gylfi Magnússon e István M. Szijártó


Os livros desse autor:

I benandanti. Stregoneria e culti agrari tra '500 e '600 (1966) / edição em português Os Andarilhos do Bem

Il nicodemismo. Simulazione e dissimulazione religiosa nell'Europa del '500 (1970)

Giochi di pazienza. Un seminario sul 'Beneficio di Cristo' (1975, publicado em colaboração com Adriano Prosperi)

Il formaggio e i vermi. Il cosmo di un mugnaio del '500 (1976) / edição em português O Queijo e os Vermes 

Indagini su Piero. Il Battesimo, il ciclo di Arezzo, la Flagellazione di Urbino (1981) / Investigando Piero 

Miti emblemi spie (1986) / edição em português Mitos, Emblemas e Sinais

Storia notturna. Una decifrazione del sabba (1989) / edição em português História Noturna


Occhiacci di legno. Nove riflessioni sulla distanza (1998) / edição em português Olhos de Madeira

History, Rhetoric, and Proof. The Menachem Stern Jerusalem Lectures (1999) 

Das Schwert und die Glühbirne. Eine neue Lektüre von Picassos Guernica (1999)

No Island is an Island. Four Glances at English Literature in a World Perspective (2000) / edição em português Nenhuma Ilha é Uma Ilha

Tentativas (2003)  

Un dialogo (2003, publicado em colaboração com Vittorio Foa)

Rekishi o Sakanadeni Yomu (2003)

Il filo e le tracce. Vero falso finto (2006) / edição em português O Fio e os Rastros

Paura, reverenza, terrore. Rileggere Hobbes oggi (2008) / edição em português Medo, Reverência, Terror

Nondimanco. Machiavelli, Pascal (2018)





Livro destaque desse autor:
o queijo e os vermes
O Queijo e os Vermes
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* originalmente postado em 18/mar./2020

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